quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A SEDUÇÃO - II


Dando um salto de alguns séculos, podemos ir à música brasileira para destacar dentro do nosso 
               tema o samba Nervos de Aço, de Lupicínio Rodrigues:                             

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Ao lado de um tipo qualquer?
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço,
Que nem um pedaço do seu pode ser?
Há pessoas de nervos de aço,
Sem sangue nas veias e sem coração,
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação.
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror.
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.

Mas a sedução pode apresentar outros aspectos: a sua visão feliz é a da entrega, a da autoentrega, melhor, quando conscientemente nos abrimos à influência sedutora vendo nela algo de positivo. Entretanto, nem sempre isso será claro! É que toda sedução tem sempre um aspecto destrutivo, mesmo a sedução que leva à entrega. Isto porque ela baixa sempre os níveis de nossa vigilância consciente. É por isso que mesmo na nossa autoentrega podemos perceber, ao lado de aspectos muito positivos, compreensão, ternura, afeto, doação, sacrifício, outras nuances, que desconhecemos, que raramente atingem o limiar da consciência, sempre oferecendo perigo. 

DAVID   E   BETSABÁ  ( PETER  PAUL  RUBENS )

Um homem justo como David, quando se enamorou de Betsabá, manchou-se com um homicídio, mandando para a morte o marido da mulher por quem se sentira atraído. Já se disse que o ser humano só se conhece verdadeiramente quando se enamora. Aparecem, nesse momento, em sua vida psíquica conteúdos desconhecidos, espantosos. É o outro lado do amor, a outra face: a mentira, a traição, o sofrimento, a morte, tão comuns… Por quê? Os estudiosos dos fenômenos afetivos  nos explicam que uma pessoa que nos invade assim, fazendo-nos amá-la, seduzindo-nos, tem de pagar um preço por isso. Não há impunidade. Por isso, fazemos tanto mal a quem amamos. Aliás, amor e sofrimento sempre caminharam juntos. Além do mais, o amor cria em nós novas formas de percepção (amamos o feio), a vida vibra em nós de outro modo (ouvimos música, vemos uma flor de outro modo quando somos flechados por Eros). É ele, é ela, proclamamos! Como pude viver sem ele/ela? Uma sensação de que nossa vida começa realmente no momento em que o outro entra em nossa vida. Antes, nunca havíamos vivido. O outro é o Todo. Vivíamos na pobreza (penia). 

EROS

Esse estado, provocado pela flechada de Eros, é intraduzível. Por isso, há tanta música no amor. Não temos palavras para descrever o que sentimos quando amamos. Os poetas e músicos talvez. É um tipo de comunicação diferente. As palavras são sempre inadequadas. O outro é um absoluto, uma eternidade, essa a expectativa de todos os amantes. Mas a carga amorosa é sempre demasiada. Na paixão será pior, um escândalo. O mundo é cruel demais. 




Um dos melhores exemplos do que aqui se fala é o filme Elvira Madigan. Já se disse que o mundo inveja os apaixonados. Toda relação amorosa traz implicitamente uma carga transformadora,
FEDRA  E  HIPÓLITO ( MICHAEL VAN DER GUCHT )  
quando não destrutiva, às vezes dolorosa, sofrida, que, no geral, não chega com clareza ao nosso consciente. Ao lado do amor, o sentimento contrário sempre se apresentará. O elemento destrutivo se oculta em todo amor, mesmo, e talvez com maior força, na paixão mútua. Na paixão não correspondida, será sempre pior. Diz La Bruyère: Queremos dar toda felicidade a quem amamos ou, se isso não é possível, toda a infelicidade. Uma imagem disto? A paixão de Fedra por Hipólito, tanto em Eurípedes como em Racine. 

Sob o ponto de vista alquímico, o outro elemento da sedução é o fogo, potência ativa, erótica, como desejo. Eros é abrasar, arder, inflamar. Força que nos põe em movimento para buscarmos a satisfação. Como tal, Eros é força universal, pulsão fundamental da existência que mantém a coesão interna do universo. Fonte de progresso, de crescimento, pode ser também a apropriação de uma parte pela outra. É a perversão de Eros quando exige a submissão forçada, quando uma parte constrange a outra, se serve egoisticamente dela.  Teseu, rei de Atenas, caçador de monstros, predador, é um dos melhores modelos mítico desde tipo de sedutor. Serviu-se descaradamente de Ariadne, princesa cretense, prometendo-lhe amor eterno. Apaixonada, a princesa lhe deu condições de matar o monstro Minotauro e de sair ileso do Labirinto. O que aconteceu depois foi muito cruel: abandonou-a na ilha de Naxos 


ARIADNE   EM   NAXOS

O fogo, na perspectiva em que o temos aqui, tanto é penetração forçada como absorção do outro, apropriação, subjugação. A metáfora (suave cautério) de S. Juan é um bom exemplo. A lei dos seres do fogo é vencer, superar, submeter. Algo diabólico, destrutivo. Os da água se fundem, dissolvem-se. Rendição passiva. A significação sexual do fogo é universal e se liga sem dúvida ao modo pelo qual o ser humano obteve pela primeira vez, o fogo, por fricção, imagem do ato sexual. 

O fogo, na Alquimia, é calcinatio, que também purifica, separa o que é constante ou fixo do que é fugidio, volátil (cremação). A calcinação purifica, seca, os processos inconscientes (água), as emoções, purgando, sublimando. Terapias do fogo nos põem em
PROFETA   ISAÍAS
ação. Mas o fogo é também luxúria, concupiscência, apetite bruto, carnal, que sentimentos que têm um caráter infernal. O profeta Isaías diz certamente que o fogo pelo qual cada um de nós é punido pertence a nós mesmos: Andai no lume do vosso fogo e por entre as labaredas que ateastes. O alimento desse fogo, como diz São Paulo, são os nossos pecados – madeira, feno e palha. A Alquimia nos ensina que o domínio das paixões, dos apetites, pode ser feito por meio de penitência, de austeridade, de abstinência, de certos exercícios que tomaram o nome de ascese nas religiões, baseados em operações da Arte. 

Uma dessas operações é a liquefactio, uma variante da solutio. Essa operação nos dá a possibilidade de suavizar certos comportamentos e atitudes que sempre acabam por trazer o Inferno para dentro de nossas vidas, os excessos individualistas e materialistas, o egoísmo, a gula etc. A liquefactio nos permite alcançar estados mais fluidos de existência. Certos contextos religiosos, por exemplo, têm grande poder de liquefactio: celebrações, ritos sagrados, música sacra, esplendor de cerimônias que envolvem pessoas numa ação conjunta, despertam nelas uma consciência de origem comum, uma espécie de solutio superior. Gêneros arquitetônicos como o gótico e o barroco, por exemplo, foram criados não só para proclamar a fé católica e o seu poder como para, através de suas formas, ângulos e ornamentação, afetar favoravelmente o comportamento das pessoas
pela riqueza das reverberações sonoras que suas paredes possibilitavam. Outro exemplo: são muito conhecidos os efeitos que a contemplação da arte do Renascimento, em algumas cidades italianas, Florença em especial, produziu em algumas figuras da cultura europeia como Goethe, Stendhal, Nietzsche e, mais recentemente, Freud e Michelangelo Antonioni. 

Além do que já se disse sobre os sedutores, cabe destacar que o mais famoso deles no mundo judaico-cristão é Satã, onipresente em toda a história da humanidade. Por causa de sua ação, temos ideias alquímicas, em primeiro lugar, de afogamento, de sorvedouro, de abismo, de absorção, de descida à profundeza das águas, de submersão, e, depois, de fogo infernal eterno.  É a solutio fatal. A água, nessas imagens, preâmbulo do Inferno, deixa de ser considerada sob uma perspectiva positiva, solar, fertilizante, purificadora e regeneradora, para ser vista sob o seu lado noturno, negativo, escuro, destrutivo.


ADÃO   E   EVA  ( CRANACH )

Conforme se depreende da Bíblia, é Satã, como grande sedutor, quem está por trás do pecado de Adão e de Eva no Jardim do Éden. Segundo os judeus, ele, por meio da serpente, induziu Eva ao erro, pecado do orgulho, e depois, manteve relações carnais com ela, tornando-se o pai de Caim. Mais ainda: foi Satã quem ajudou Noé a embriagar-se e tentou persuadir Abraão a não obedecer Deus no episódio da akedá.

Tradicionalmente, dentre os nomes mais conhecidos de Satã, citamos Diabo, Satanás, Demo e Lúcifer. No Brasil, popularmente, é muito rica a sua denominação: Arrenegado, Beiçudo, Bode-Preto,
LÚCIFER  ( DORÉ )
Anhangá, Tinhoso, Canhoto, Coisa-Ruim, Maldito, Mofento, Capeta, Maligno, Pedro-Botelho, Rabudo, Sarnento etc.  Qualquer que seja o enfoque, ele será sempre o grande tentador e, como tal, o maior dos sedutores. Tentar é despertar vontade em alguém para que ele faça algo, estimulá-lo, induzi-lo a praticar um ato que lhe pareça atraente, mesmo que considerado imoral ou ilegal. A sedução, como sabemos, depende, para se tornar eficaz, muito mais  da mensagem que a veicula do que propriamente do objeto em si, apresentado àquele que vai ser seduzido. 

Foi um escritor alemão, Heinrich Heine, que nos disse: Se o ofício de Deus é perdoar, o de Satanás é tentar. Todavia, para um outro

escritor, Giovanni Papini, no seu livro dobre o Diabo, as coisas não são tão simples assim. Diz-nos ele que ao tentar constantemente o ser humano o Diabo não faz mais do se inspirar em Deus, seu grande inimigo. Lembra-nos Papini que Deus, depois de criados Adão e Eva, chamou-os à sua presença e lhes disse que passariam a viver num Paraíso, mas que não poderiam comer dos frutos maravilhosos de uma árvore especial que nele havia. Esta história, indiretamente, como se sabe, passou a fazer parte até de uma oração, o Padre Nosso (não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos de todo mal), que todo católico conhece e cujos termos deve respeitar. 

Apesar de dotados de livre-arbítrio por Deus, os seres humanos sempre se consideraram constantemente tentados pelo Diabo. A história da humanidade parece vir comprovando que se as vitórias de Deus possam parecer importantes, as do Diabo são muito mais significativas, tanto em quantidade como em qualidade. A Igreja Católica, compreende-se, nos oferece muitas histórias de santos e místicos, sempre seres excepcionais, que venceram o Diabo. Todavia, diante do que vemos diariamente nos quatro cantos do mundo, não há como negar que o Tentador, feitas as contas, está vencendo o jogo com grande vantagem. 

Ao longo dos milênios, o Diabo sempre demonstrou muita esperteza e uma capacidade enorme de adaptação toda vez que a sua maneira de agir o exigia. Extremamente criativo, encantador, arqui-perito no domínio das artes da sedução, sempre soube se insinuar, mais ou menos abertamente, em todos os domínios da atividade humana. Como é fácil perceber, os seus mais retumbantes e notáveis sucessos hoje podem ser encontrados na atividade econômica, sobretudo no mundo do consumo, organizado pelos princípios da sedução e do efêmero. Com o nome de Mercado, o Diabo idiotiza hoje grande parte da vida coletiva do planeta por uma cultura de massa globalizante e instantânea, que embrutece e infantiliza as pessoas. Dignos de registro são também os seus sucessos na área tecnológica, de modo especial na Informática, e na indústria bélica, que sabe beneficiar superlativamente, oferecendo lucros fantásticos.

A luta entre Deus e o Diabo é, no fundo, uma luta eterna contra a tentação. Tentar: aliciar, espicaçar os sentidos, o apetite, a sensualidade, influir nas faculdades da alma para que cometamos atos reprováveis perante a nossa consciência ou regra moral.

Temptare, etimologicamente, é estender a mão, apalpar. Grande comunicador, com domínio completo do processo comunicacional, eis o resumo de um antigo conto sobre os poderes do Tinhoso. Denomina-se Le Jeu d´Adam, obra de origem normanda, anônima, do séc. XII, o mais antigo texto dramático do teatro francês, que abre a série dos mistérios. Por ele, tomamos conhecimento da argumentação de se serve o Tentador para seduzir Eva. Muito habilmente, ele aponta a rispidez que Adão demonstra ao se relacionar com ela, fala de seu ar de superioridade, de seu servilismo diante do Criador, comportamentos e atitudes indignos sob todos os pontos de vista, inadmissíveis, pois ela, Eva, era muito superior a ele, Adão. Tocada pelas palavras do Tinhoso, convencendo-se quanto às verdades que ouvia, principalmente quanto aos seus elogios (a de que era mais sábia, terna e compreensiva que Adão) e, sobretudo, a verdade de que o Criador os fizera incompatíveis, não teve a Nossa Mãe Eva como deixar de agir como o fez. 

Um dos aspectos mais interessantes do Antigo Testamento, geralmente pouco aprofundado, é o da sedução, da sexualidade, a dimensão erótica de muitas das suas passagens e personagens. É que, normalmente, só buscamos na Bíblia fundamentos para nossos dogmas e ordem moral, esquecendo-nos de que ela é um grande livro de história, que narra costumes, fatos, acontecimentos da vida de vários povos, muitas vezes narrados de modo simples, direto, cru. 


JACÓ   E   RAQUEL

Um dos casos mais belos de amor foi o de Jacó pela belíssima Raquel. Foi um caso de amor à primeira vista. Jacó vinha do deserto, sequioso, escapava de seu irmão Esaú (filhos de Isaac e Rebeca, netos de Abraão e Sara, este o primeiro patriarca). Eram primos. Está no texto: Raquel tinha um belo porte e um lindo rosto. Sara também era muito bela, o que deu muito trabalho a Abraão; ela atraía olhares de egípcios e beduínos. Muitas figuras femininas do Antigo Testamente nos revelam que a mulher, longe de ser uma devota triste e submissa, tinha orgulho de seus atributos físicos, da sua beleza. Eram mulheres que não se descuidavam, que procuravam se manter belas, aprendendo as artes de seduzir e de fazer amor. Os relatos bíblicos falam disso com muita naturalidade, descrevendo a sedutora nudez feminina até com entusiasmo, como nos diz Simão Ben Sira:

Como lâmpada brilhante, no candelabro sagrado,
Tal é a beleza do rosto num corpo bem acabado.
Colunas de ouro sobre bases de prata
Assim são as belas pernas sobre sólidos pés


O   PEDIDO   AO   TIO   LABÃO  ( H. J. TER  BRUGGEN , 1628 )

Quando ele, Jacó, vai pedi-la ao tio Labão (a mais velha Lia, era a rejeitada), ele exige como dote, nada menos que sete anos de trabalho do candidato na sua propriedade. Jacó estava tão apaixonado que os anos lhe pareciam dias, diz o texto bíblico.

A esta altura, impossível não deixar de citar Camões: 

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!

A sedução que se caracteriza pela anulação da vontade tem nas sereias da mitologia grega uma de suas melhores representações. O poder de sedução delas é tão grande que o maior desejo daquele que ouve o seu canto, como está na Odisseia, é o de se entregar totalmente a elas. A palavra sereia, etimologicamente, quer dizer prender com cordas, enredar, atrair, encadear. Elas são aliciantes,
ULISSES   E   AS   SEREIAS   COMO   AVES
atraentes, perigosas. Cabeça e tronco de mulher, belíssimas, mas da cintura para baixo têm a forma de peixe. Desejam o prazer, atraem homens, mas não podendo obtê-lo, os devoram. Símbolo de uma libido insaciável, costumam aparecer em ilhas, onde se deixam ficar, experimentando colares, contemplando-se em espelhos. Peritas no canto e na música, usam liras e flautas, conseguindo até enfeitiçar os ventos. Seduzem navegadores pela beleza do rosto e por sua melodia. Desde sempre se constituíram num grande perigo para a navegação marítima, uma metáfora da vida humana como viagem.

Na Odisseia de Homero as sereias são as “donzelas devoradoras”, quando encontram Ulisses e seus nautas. Representam, para uma trajetória existencial, as emboscadas, as armadilhas a que nossos desejos e nossas paixões podem nos levar. São criações do nosso inconsciente, já que saem da água (tiram-nos do real); inspiram sonhos fascinantes, terríveis, por onde se infiltram paixões obscuras, primitivas. Simbolizam a imaginação perversa, as distrações, a insensatez, as promessas que nunca se cumprirão. É preciso que nos fixemos bem, como Ulisses o fez, no mastro central da embarcação (base central de nossa vida, a vontade, o comando), para vencê-las.


LORELEI
A linhagem das sereias no folclore brasileiro é representada pelas Iaras ou mães d’água. Os eslavos têm as Russalcas (dos rios Danúbio e Dniester); entre os germânicos, as Loreleis são do Reno, todas ligadas à sedução e à morte. As eslavas, por exemplo, não cantam, mas atraem e levam a sua vítima para o fundo das águas, matando-a de cócegas. Já as Loreleis cantam, distraindo os marinheiros que espatifam o barco contra as rochas. 

No folclore amazônico, encontramos como uma das grandes figuras da sedução o boto, o golfinho do Amazonas, masculino, que seduz
BOTO  ( R. BASSANI )
as moças que vivem às margens dos rios. Às primeiras horas da noite, transforma-se ele num belo rapaz, alto, forte, grande dançador e bebedor; que aparece nos bailes, cheio de lábia, namorador, que, ao se relacionar com as moças, sempre faz “mal” a elas. Antes da madrugada, volta à água, como boto. É comum, no Pará, o uso da expressão filho de boto para designar o filho de pai desconhecido, o filho natural. Há mesmo o depoimento inocente e sincero de caboclas que dão o boto como responsável por esse tipo de paternidade. 

Apesar do respeito ao boto, muitos o matam, para tirar-lhe determinadas partes do corpo (olhos, dentes, verga, vergalho), às quais atribuem virtudes extraordinárias. O olho de boto é de grande eficácia, grande talismã; não há mulher que resista sendo olhada por um olho de boto preparado, depois de passar por uma pajelança. É só olhar e ela se entrega. O boto, ao se transformar num sedutor, conserva sempre um chapéu na cabeça, para que não vejam o orifício que tem no alto da cabeça. 

Para a civilização ocidental, o padrão básico da sedução, no que ela tem de mais completo e abrangente, nas suas várias formas, é de Afrodite, nascida da espuma, dentro do elemento líquido, da solutio. Seu poder de sedução chama-se enkrateia. Afrodite é sobretudo magnética. Magnetismo é atração exercida sobre outros corpos. Falamos do magnetismo animal de certos seres dotados de fluidos especiais que podem ser transmitidos a outros, produzindo-se neles fenômenos dominadores da vontade. Magnetizar é seduzir. A palavra vem da Magnésia (Ásia Menor), onde havia o magnetos lapis (litho), uma pedra que funciona como imã.


AFRODITE 

A sedução de Afrodite se revela sempre por uma poderosa e intensa sinergia (trabalho de diversos elementos para o mesmo fim) de sensações, da sensualidade, de toques, de olhares, de gestos, de odores e perfumes, da comunicação corporal como um todo (sorriso, alegria, cor dos cabelos, formas corporais etc.) que traz a beleza, a graça, o charme, a harmonia, o ritmo, a perfeição. 

Ninguém rivaliza com Afrodite, pois, sob o seu domínio, temos a alegria de viver, o encanto, a festa, a plenitude dos sentidos, o prazer refinado, a estética espiritualizada. Seu reino é o das carícias, da ternura, da fusão sexual, do prazer. Ela suaviza o
CÁRITES
quente, abranda o seco, torna o frio mais expansivo. Contribuem para a dinâmica de toda essa sinergia algumas divindades que integram o cortejo da deusa: as Cárites, as Horas e Peitho, todos operando pela umidade e discretamente pelo fogo. Afrodite é dona também do que os gregos chamavam de Goeteia, palavra que podemos traduzir como encantamento, magia e feitiçaria. Quando Eros não fica submetido a Afrodite, o componente mais ativo dessa sinergia amorosa, a força do desejo que leva à fusão, as partes envolvidas não se unem. Uma parte se impõe à outra e a utiliza. Nenhuma reciprocidade. Eros, então, atua só: atrai, usa e abandona. É o Eros unilateral. 



VÊNUS ( AFRODITE )  E  MARTE ( ARES ),  BOTTICELLI

Quando Eros se impõe a Afrodite, a deusa toma o nome de Andrófona, etimologicamente a matadora, a destruidora de homens. Nos tempos modernos, temos um exemplo muito interessante dessa Afrodite Andrófona. O arquétipo foi atualizado simbolicamente, para o grande público, pela vampe do cinema americano, criada por volta de 1920. O vampiro, como sabemos, sobrevive através de sua vítima. A dialética aqui é a do perseguidor-perseguido, do senhor-escravo. Ou seja, viver através dos outros.  

A vampe do cinema é a femme fatale agressiva que arruína os homens e os joga de lado. O tipo ideal foi fixado por uma atriz de cabelos negros, olhos enormes, profundos, chamada Theodosia
THEDA   BARA
Goodman, de Ohio, Cincinatti, que era uma extra em filmes baratos. Ela foi inteiramente modelada pelo estúdio em que trabalhava, recebendo o nome de Theda Bara, anagrama de Arab Death. Sua biografia oficial: filha de pai francês que viveu no Egito e mãe egípcia, encarnação de uma antiga princesa egípcia, talvez Cleópatra (banhos de leite, pétalas de rosa). Símbolo assustador e impenetrável do mal. Sempre transportada por uma limusine branca, enorme, virginal, uma espécie de carro fúnebre. Ao seu lado, lacaios negros. Sua biografia fala da ruína de vários pais de família. Vivia em ambientes fechados, rodeada de flores, em meio a fortes perfumes embriagadores, incenso, jasmins, maquiagem carregada, com serpentes ao seu lado. Um grande símbolo da sedução mortal, sem dúvida. Desse papel, a atriz nunca mais se libertou. 



MACHIKO   KYO  

O cinema pôs em circulação um grande número de mulheres desse tipo, hoje desaparecidas, utilizando, já no cinema mudo, atrizes como Lilian Gish, Pola Negri, Nita Naldi etc. Depois vieram Mae West, Jean Harlow, Marlene Dietrich (destruidora do professor Rath no filme Anjo Azul, um clássico no gênero), a fantástica Louise Brooks (A Caixa de Pandora), Greta Garbo, Heddy Lamar, Lana Turner, Rita Hayworth (Gilda), Brigitte Bardot, Ava Gardner, Glenn Close, a misteriosa Machiko Kio (Contos da Lua Vaga, Pálida e Misteriosa depois da Chuva), Kathleen Turner etc. 

Os norte-americanos, desde os tempos do cinema mudo, puseram em circulação o termo waif (gamine, em francês), exportando-o,
AUDREY   HEPBURN  ( SABRINA )
para designar um estereótipo feminino caracterizado por mulheres de aparência infantil, aparentemente frágeis, que parecem "pedir“ proteção, mas ocultando por trás dessa aparência muita malícia, muita sedução, sempre nocivas e perniciosas por isso, como dominadoras de homens. Eram perigosas, sexualmente estimulantes (pedofilia?). Lá atrás, no passado, no cinema mudo, Mary Pickford e a citada Lilian Gish foram modelos. O termo waif foi muito usado nos anos 1960 e aplicado principalmente a Audrey Hepburn (Sabrina).