quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CHUMBO

CHUMBO
A mais antiga tradição alquímica de que se tem notícia a estabelecer uma relação entre os metais, os planetas e os signos astrológicos foi a dos caldeus, povo da antiga Mesopotâmia. 

A ordem era a seguinte: ouro-Sol-Leão; prata-Lua-Câncer; mercúrio-Mercúrio-Gêmeos e Virgem; cobre-Vênus-Touro e Libra; ferro-Marte-Áries, associado igualmente ao aço, Escorpião; estanho-Júpiter-Sagitário, associado igualmente ao bronze, Peixes;   chumbo-Saturno-Capricórnio  e Aquário.

Herdeiros dessa tradição, os gregos,  ou melhor,  um colaborador de Platão, Philippe d’Oponte, foi o primeiro, num texto, Epinomis (que faz parte da obra de Platão), a dar o nome dos deuses aos planetas: Cronos (Saturno), Zeus (Júpiter), Ares (Marte), Afrodite (Vênus), Hermes (Mercúrio), relação à qual se acrescentou Selene (Lua).




Os metais sempre simbolizaram energias cósmicas solidificadas, condensadas, sendo considerados como substâncias vivas e sexuadas pelas mais antigas tradições que os dividiram em dois grupos, os criados por Deus e os criados pelo Diabo. Assim, em algumas mitologias africanas, por exemplo, enquanto Deus criava o ouro e a prata, o Diabo criava o cobre e o chumbo.  
   

Por volta de 3000 aC, quando se fixaram melhor certas atividades humanas como a metalurgia, a tecelagem, a carpintaria a construção e a fabricação de tintas e de pigmentos, que uma arte a que se deu o nome de Alquimia, nome proveniente do Egito, ao que parece, reuniu todos esses conhecimentos. A arte alquímica era produto da acumulação de muitas informações técnicas, de várias civilizações. 

Tanto a descoberta de muitos materiais como as técnicas desenvolvidas pelo homem para utilizá-los e transformá-los não
ENLIL
significou a separação destas atividades do cotidiano das pessoas, da sua vida diária. Os trabalhos técnicos dos artesãos que se ligavam diretamente a essas atividades foram associados ao acompanhamento de práticas religiosas ou mágicas, encontrando-se conexões entre metais, minerais, plantas, planetas e deuses. Os babilônicos, por exemplo, ligavam o ouro ao deus Enlil, a prata ao deus Anu e assim por diante.




Dentre as teorias criadas a esse tempo para explicar o mundo material, uma adquiriu muita importância, a de que todas as substâncias existentes no universo eram compostas por cada um e por todos os elementos (fogo, terra, ar e água, na tradição ocidental), diferenciando-se essas substâncias pelas proporções em que nelas eles se apresentavam. 

Os elementos se distinguem uns dos outros por suas qualidades chamadas de primárias, a fluidez ou umidade, a secura, o calor e o frio, possuindo sempre cada um deles duas dessas qualidades. Em cada elemento há uma qualidade que predomina sobre outra: na terra, o seco predomina sobre o frio; na água, o frio sobre o úmido; no ar, a fluidez sobre o quente; no fogo, o quente sobre o seco. Esses  elementos podem se transformar uns nos outros, são intermutáveis por meio da qualidade que possuem em comum. Exemplificando, o fogo pode transforma-se em ar por meio do quente; o ar em água por meio da umidade e assim por diante. Essas operações fazem parte da Alquimia e estão presentes em nossa atividade física e psíquica e acontecem a todo momento em nossa vida cotidiana. 

O chumbo, molybdos, em grego, plumbum em latim, é um metal extremamente denso, pesado e macio, mas não flexível, um dos mais antigos que o homem conheceu. Do ponto de vista alquímico, o chumbo se liga ao elemento terra, formado pelo frio e pelo seco. Antes de 3000 aC, vários povos da antiguidade já obtinham a prata
AQUEDUTO
retirando-a do chumbo. Na Mesopotâmia, usaram-se placas de chumbo para revestimento dos famosos jardins suspensos da Babilônia. São conhecidas, desde essa época, moedas de chumbo chinesas. Os romanos utilizaram muito chumbo, proveniente da Espanha, para fazer os seus famosos aquedutos. 


De todos os metais, sabe-se, o chumbo é o mais impermeável à
SOLDADINHO   DE   CHUMBO
água. Encanamentos com mais de 2000 anos foram encontrados recentemente em excelentes condições em Roma. A grande desvantagem dos encanamentos desse metal é que eles congelam com facilidade e estouram. Por derreter facilmente, o chumbo foi muito usado para a confecção de brinquedos, sendo os mais conhecidos os famosos soldadinhos de chumbo.


As propriedades mágicas do chumbo estão atestadas em várias culturas na antiguidade. Quando se desejava fazer mal a alguém, gravava-se numa placa de chumbo o nome do mal, um meio sempre considerado como particularmente eficaz. Por outro lado, carregar uma pequena placa de chumbo presa por fio ao redor do pescoço protegia contra diversos encantamentos e impedia que paixões amorosas se apoderassem de alguém contra a sua vontade.


QUIMERA   BELEROFONTE   E   PÉGASO

É na mitologia grega, na história da morte da Quimera, que encontramos uma referência importante com relação às virtudes do chumbo. Belerofonte, famoso herói, montado no cavalo-alado Pégaso, que conseguira domar com o auxílio de Palas Athena, atacou o pavoroso monstro que vomitava labaredas de fogo. Disparando inúmeras flechas contra o seu corpo, Belerefonte conseguiu que algumas delas, com pontas chumbo, entrassem pela sua bocarra; em contacto com as labaredas expelidas furiosamente, o metal derreteu e, descendo por sua garganta, destruiu completamente as suas entranhas.

Desde a mais remota antiguidade, praticava-se a adivinhação por meio do chumbo, a chamada molibdomancia (molybdos, chumbo, mancia, adivinhação, grego). Deixavam-se cair gotas de chumbo quase líquido na água ou numa superfície lisa e faziam-se previsões segundo os ruídos produzidos. Até o início do séc. XX, essa forma de adivinhação era praticada em quase todos os países da Europa. Na França, no dia de Reis, as jovens casadoiras, segundo a forma que o metal aquecido tomasse quando em contacto com a água, usavam o processo para descobrir a profissão de seu futuro marido: se tomada uma forma que lembrasse um machado, ele seria lenhador; se tomada a forma de uma agulha, ele seria alfaiate e assim por diante. O mesmo acontecia em outros países, usado o processo para fins divinatórios diversos, sempre numa data religiosa importante. Na Bélgica, por exemplo, na noite do dia de Santo André; na Alemanha e na Rússia, na noite do dia de São Silvestre; na Suíça, na véspera do Natal etc.

Na Idade Média, para se saber se uma doença tinha origem sobrenatural, derramava-se chumbo derretido num recipiente com
AMULETOS   DE   CHUMBO
água; se uma imagem se formasse no fundo do recipiente, a origem sobrenatural (feitiçaria) estava confirmada. Há registros de que reis franceses (Luís XVI) mantinham sempre amuletos de chumbo em contacto com o corpo para evitar doenças.


Comercialmente, hoje, o chumbo é empregado no isolamento acústico de ambientes e como material protetor contra radiações em salas de radioterapia de hospitais. É usado também em lugares onde é manipulada a energia nuclear. A sua extrema densidade o torna impermeável à radiação. Dá-se o nome de saturnismo ou plumbismo às intoxicações agudas ou crônicas causadas pelo chumbo ou por alguns de seus sais. Quando queremos nos referir a uma pessoa tristonha, soturna, ou a um céu carregado de nuvens escuras, podemos usar o adjetivo plúmbeo. 

Simbolicamente, o chumbo apareceu sempre relacionado com o fim
SATURNO   E   SEUS   ANEIS
de um período, o fim de um ciclo de vida, identificado por isso com a velhice e a morte.  Não é por acaso que a pele e os ossos, as últimas coisas que desaparecem no ser humano ao morrer, são de Saturno, astrologicamente. Além do chumbo, não podemos descer mais na escala mineral, vegetal e animal. Por isso, é tutelado pelo deus Cronos, na mitologia grega, e pelo planeta Saturno, ambos símbolos do tempo, do tic-tac fatal dos relógios. 


Cronos, como se sabe, devorava os próprios filhos que gerava, uma imagem do tempo que tudo consome. Daí, Cronos aparecer representado com a ampulheta (o tempo) e o alfange (o instrumento dos ceifadores. Analogicamente, o deus,
CRONOS
o planeta e o metal simbolizam também o princípio da concentração, da fixação, da condensação e da inércia. Viver é tomar forma e também perdê-la, o que nos acontece diariamente, a cada momento da nossa vida. Por isso, a vida, na expressão dos alquimistas, se resume a duas operações: a coagulatio e a solutio. No início, uma energia que vai tomando forma, ganhando corpo, crescendo, se desenvolvendo, chegando à sua plenitude e depois, inexoravelmente, definhando, se contraindo, até que tudo o que foi acumulado volte ao Grande Todo.



LABORATÓRIO   ALQUÍMICO

Os alquimistas sempre colocaram o chumbo em relação com o ouro. Muitas histórias da arte alquímica nos falam de transmutações coroadas de sucesso na medida em que o chumbo, considerado como o mais vil dos metais, e neutralizadas assim as suas influências funestas, podia ser transformado no rei deles, o ouro, quando submetido à ação da “pedra da sabedoria”. Esta metamorfose era para os alquimistas um símbolo da purificação do homem, preso ao mundo terrestre e materializado, que se elevava a níveis superiores da existência pela espiritualização solar.

Cronos, Saturno e o chumbo representam tanto a força que cristaliza, que fixa na rigidez o que entra na existência, dando-lhe condições de resistir aos ataques externos, como pode também se opor, como resistência intransponível, a qualquer mudança. Num primeiro momento, o chumbo simboliza assim imprescindível força que nos estrutura, ajudando-nos a resistir aos embates da vida. Num segundo momento, esta mesma força pode impedir mudanças, transformações, lembrando sempre obstáculos, carências, retardamentos, impotência, paralisia, condensação, desalento, inércia, tanto física (problemas com o metabolismo do cálcio; artroses deformantes, osteoporoses, osteopenias etc.) como psiquicamente (complexos, apego ao passado, atavismos poderosos, a tirania dos hábitos, ideias fixas, obsessões etc.)

CHAVES PARA A CARACTEROLOGIA
O chumbo forma a última fase do processo metálico, o estágio final do desenvolvimento da matéria. Na Alquimia simbólica, o   chumbo é, por isso, usado para representar o nível mais baixo a que a matéria pode chegar, iniciando-se, a partir dele, a caminhada em direção do mais elevado, do superior, simbolizado pelo ouro. Sob o ponto de vista da Caracterologia, as pessoas-chumbo podem ser incluídas entre os fleugmáticos, neles dominando a não-emotividade e a secundariedade, já que costumam retardar bastante as suas respostas diante dos  estímulos recebidos.   

O poder do chumbo tem a ver também com tudo o que segrega, e separa, com tudo o que fecha e inibe, que limita. Onde a influência de Saturno aparece temos o enrijecimento, a formação de pedras (cálculos na bexiga, nos rins, na vesícula, o endurecimento das artérias, por exemplo). Com a idade, vamos entrando no período chumbo da vida, dominado pelo processo da introversão e pelo recolhimento. Ambos, o corpo e a mente vão ficando endurecidos e inflexíveis; as pessoas tornam-se dogmáticas, obstinadas em suas opiniões, não sabendo mudar, fase em que podem se impor ideias de insensibilidade, frieza, renúncia, pessimismo, melancolia ou, simplesmente, recusa de viver. 

O chumbo inibe vibrações. Por isso, é o metal mais usado para conter as trepidações produzidas pelo trânsito pesado e intenso em áreas onde são construídos grandes edifícios. Positivamente, o chumbo e Saturno fortalecem o nosso corpo e nossa alma para que possamos enfrentar as tempestades que podem nos alcançar. Neste caso, o chumbo pode nos ajudar a controlar nossos sentimentos, dando-nos a quantidade certa de resistência ao que ameace o nosso equilíbrio. Uma pessoa saturnizada em demasia mostra-se geralmente avessa à vida social, evita visitas, quase não fala, é solitária, características do chamado tipo esquizoide. No geral, uma vida feita só de deveres, na qual o relógio e o calendário governam tudo. Uma vida onde não entram flores e risos, que são do planeta Vênus, dominado pela deusa Afrodite.   

Costumam as pessoas-chumbo ter muito medo do futuro, já que uma de suas principais características é o espírito de economia que
HARPAGON (COMÉDIE FRANÇAISE)
pode atingir formas extremas como a avareza. Um exemplo: o Harpagon, de Molière. São comuns os casos de pessoas deste tipo que quando têm alguma despesa a fazer, mínima muitas vezes, mergulham em tormentos sem fim, perdendo horas de sono inutilmente. A rondá-las, quase sempre, uma atitude pessimista diante da vida, já que costumam ver dificuldades em tudo. Usam muito o advérbio não. A sua constante insatisfação é quase sempre responsável por um sentimento de incapacidade que está na origem de suas depressões. 


Tais pessoas costumam também se deprimir porque não avançam tão rapidamente como os outros. Muitas vezes, problemas de infância (são os tipos mais propensos a apresentar esses problemas, como os de fixação na infância, no passado, sempre presente o temor inconsciente do poder dos mais velhos) estão por trás desse receio de avançar, pois são as maiores vítimas da pressão que pais exercem sobre seus filhos. Sofrem geralmente de três complexos: o de Cronos (filhos “devorados” pela figura paterna), o de Inferioridade (sentimento de pessoas que se auto depreciam) e o de Isaac (filhos que se entregam docilmente à vontade paterna). Entraram na vida sempre temendo o poder dos mais velhos, pais, professores, mestres, familiares etc. No caso de mulheres, muitas vezes o marido também exerce esse papel, sendo uma extensão da figura paterna. 

SACRIFÍCIO   DE   ISAAC  ( 1603 , CARAVAGGIO )

Muitos que se enquadram nesta tipologia gostam de mostrar um caráter severo, consigo e com o mundo. Esta severidade, porém, oculta geralmente uma atitude destinada a dissimular a sua sensibilidade e o seu medo de serem magoadas. Protegem-se “endurecendo”, exigindo sempre dos que estão à sua volta um comportamento irrepreensível no cumprimento dos seus deveres. Não toleram uma brincadeira, um “pegar mais leve” na vida. A vida para elas é feita só de obrigações e deveres.

A maioria dessas pessoas acha doloroso qualquer processo de mudança, fugindo sempre de situações em que tenham de abrir mão de imagens, ideais e objetos materiais, sobretudo os herdados. Ao invés de procurarem na vida os intercâmbios adicionais que os ajudem a evoluir, constroem à sua volta muralhas que impedem qualquer penetração na personalidade que montaram. Temem perder a segurança. 

As cores preferidas dos tipos que estou descrevendo são o cinza, o preto, o castanho-escuro e o marrom. Na anatomia humana, os problemas costumam aparecer na pele, nos ossos, nas juntas, nos ligamentos, nos órgãos da audição, na pele, nas unhas e nos cabelos. Negativamente, tudo neste cenário lembra carências (penias, hipo), obstáculos, limitações, endurecimentos etc.


AUGUSTE  RENOIR , 1841 - 1919

Positivamente, porém, simbolicamente o chumbo, Saturno e Cronos lembram constância, disciplina, controle, firmeza. Neste sentido, o que eles nos derem ninguém tira de nós. Eles simbolizam aquele trabalho anônimo que podemos diuturnamente exercer sobre nós mesmos, a conquista interior que o tempo nos dá. As virtudes saturninas são, como se disse, frias, estão do lado das asceses: concentração, perseverança, prudência, sentido de dever, silêncio, domínio da vida instintiva. Não é por acaso que o grande símbolo de Saturno é a montanha e que o mais saturnizado dos pintores, Cézanne, a pintou dezenas de vezes (montagne Sainte -Victoire). 


MONTAGNE   SAINTE -  VICTOIRE ( 1895 , CÉZANNE ) 

As melhores informações que temos para entender o chumbo simbolicamente como ponto de partida para se alcançar níveis superiores da existência nós as encontramos nos textos da Alquimia.


Em todas as tradições, o trabalho alquímico, designado pelo nome genérico de Opus ou Obra em Negro, sempre considerou o chumbo como a base mais modesta da qual se pode partir em direção de uma evolução ascendente. As virtudes requeridas para que alguém se empenhe nesse trabalho são a paciência, a solicitude, a perseverança, a dedicação contínua e a coragem, isto é, as virtudes frias às quais nos referimos. O trabalho da transmutação do chumbo em ouro tinha, por isso, um caráter sagrado, já que pedia também o desapego das limitações individuais para que fossem atingidos níveis coletivos, mais universais.