domingo, 13 de outubro de 2013

O HERÓI E OS CICLOS HEROICOS



                                                         

Para Homero, herói é um homem forte, corajoso; às vezes, pode ser alguém venerado por sua sabedoria ou um príncipe de família ilustre; ou, ainda, o filho de um deus que participe do humano. 

HESÍODO
Já para Hesíodo heróis serão os personagens da chamada idade heroica, relacionados sobretudo com a guerra de Troia. As mais antigas civilizações, a mesopotâmica, a egípcia, a védica, a persa, a grega, a romana, a celta, as norte e sul-americanas, as africanas, a escandinava, desde as primeiras etapas de sua formação, glorificaram determinados seres. Reis, príncipes, fundadores de religiões, de impérios, de cidades, guerreiros, personalidades que de algum modo se destacaram e deixaram um exemplo. De um modo geral, a esses personagens se dá o título de herói. A palavra, latinizada depois, veio para nós do grego, heros, heroos, semideus, nobre, mortal divinizado.
Algumas exceções, obviamente, podem ser notadas com relação ao que acabamos de enunciar. As civilizações norte e sul-americanas, por exemplo, mais distanciadas das europeias e asiáticas, não apresentam, digamos, o modelo "clássico" do herói como o encontramos nestas últimas. Mesmo a antiga civilização dos egípcios, que mais do que qualquer outra investiu na eternidade, pouco ou nada enfatizou o modelo heroico.
 No antigo Egito tudo parecia estar determinado para sempre, inclusive a vida do outro lado da morte. Nada de grandes esperanças e anseios. O ser humano não precisava buscar o desconhecido, se arriscar pelo novo.                               
Herói, a rigor, entre os egípcios, talvez só o faraó, a própria divindade encarnada.                                                                                                                                                                                                                                                       
ADRIANO
Pouquíssimos personagens na história do Egito mereceram        honras como as que em outras culturas são prestadas aos heróis.
 Mesmo reverenciados permaneceram humanos, nunca divinizados. Uma exceção poderia ser levantada, talvez, o caso de Antinoo, o jovem grego de grande beleza, favorito do imperador Adriano (76-138 dC), que morreu afogado no rio Nilo. Adriano o colocou entre os deuses; um templo e uma cidade, que receberam o seu nome, foram construídos em sua memória.
MARGUERITE YOURCENAR
Lembro que a romancista e ensaísta belga de língua francesa, Marguerite de Crayencour, que adotou o sobrenome de Yourcenar (um anagrama de seu patronímico), que viveu entre 1903 e 1987, publicou em 1951 as Memórias de Adriano, sobre o assunto acima. Como ela disse, escreveu o livro “com um pé na erudição e o outro naquela magia simpática que consiste em se transportar em pensamento ao interior de alguém”. Ela faz, pelas memórias imaginárias do imperador, que aceita serenamente a morte, uma lúcida reflexão sobre o fim das civilizações. 
Nas suas raízes etimológicas (gregas) mais profundas a palavra herói designava na mitologia o filho de um deus ou de uma deusa com um ser humano. Aos poucos, passou a palavra a ser utilizada para denominar um mortal divinizado após a sua morte (evemerização) e também aquele que se notabilizara por seus feitos guerreiros, sua coragem, sua abnegação. O sentido da palavra foi se ampliando, admitindo-se depois seu uso para apontar pessoas que suportaram um destino incomum ou que se dedicaram, até com o sacrifício da própria vida, a trabalhar pela humanidade.

LORD BYRON
 Do século XVIII para o XIX, o Romantismo incorporou outro sentido à palavra
ao pôr em circulação, na Arte, mais na Literatura, determinados personagens,chamando-os de heróis, figuras que problematizavam sua relação com a sociedade. Hoje, a palavra é aplicada a pessoas que se destacam por suas realizações, dignas ou indignas, mas que se tornam de algum modo o centro das atenções, cujo melhor exemplo está nas celebrities postas em moda pela cultura norte-americana.


HÉRCULES
GILGAMESH
Nas antigas culturas, a história do nascimento, da infância e da juventude dos personagens heroicos costuma se revestir de traços fantásticos, maravilhosos, extraordinários, que vão além da esfera do humano. Embora separadas no tempo e no espaço e não tenham tido aparentemente qualquer contacto, essas culturas apresentam as suas figuras heroicas (Hércules e Gilgamesh) com uma semelhança espantosa, até exata muitas vezes. Tais semelhanças e exatidão sempre impressionaram os estudiosos dos mitos; inúmeras teorias e escolas de interpretação tentaram explicá-las desde a antiguidade.
O herói, como a Mitologia grega no-lo apresenta, tem uma função primordial, a de propor sempre um caminho evolutivo. É um ser que procurara deliberadamente esse caminho, que assumiu um avanço consciente na vida, uma forma de submissão auto-conquistada. Tornar-se herói, nessa perspectiva, é abandonar um mundo fechado e ir em direção do grande Todo, como nos apontam vários estudos sobre o tema.
No mito, os seres que vigiam as passagens de um mundo ao outro são perigosos, é preciso competência, coragem para enfrentá-los. Representam, de modo geral, os opostos que todos carregamos dentro de nós (ser ou não ser, certo ou errado), vivem em lugares estreitos, angustiantes, desfiladeiros. Há inúmeras histórias e figuras que na Mitologia grega representam estes aspectos aqui apontados: Ártemis, Pã, Hécate e as encruzilhadas, as rochas Simplégades, Cila e Caribdes na Odisseia, Édipo e a Esfinge etc.


ÉDIPO E A ESFINGE

De um modo geral, nas civilizações da antiguidade o culto prestado aos heróis, se assemelha bastante àquele prestado a antepassados mortos. Aquilo que a figura do herói tem mais característico, na perspectiva da Mitologia grega, talvez esteja no fato de ele representar sempre um traço de união entre as forças terrestres e celestes. São assim seres exemplares, adorados (adorar quer dizer imitar intensamente).
Muitos heróis, ainda segundo a Mitologia grega, depois da morte, podem conservar suas características e interceder pelos mortais, sendo, por isso, muito mais venerados. Enquanto os mortais viram sombras, simulacros, sonhos impalpáveis, desprovidos de materialidade, os heróis, depois da morte, não perdem seu corpo físico (soma), indo com ele, invariavelmente, para um mundo maravilhoso, paradisíaco (Ilha dos Bem-aventurados, em alguns casos). Nem sempre, porém, isto acontece. Há casos em que os heróis e outros personagens importantes do mito, como todos os mortais comuns, vão para o Hades e lá permanecem.


HADES
No mito, o nascimento do futuro herói costuma ser marcado por acontecimentos excepcionais, um caráter milagroso (dois pais, um divino e outro humano; mãe virgem; seres divinos interferindo), às vezes numinoso. Desde cedo, criança, já demonstra grande dificuldade de integração ao meio em que aparece. Costuma ser exposto ás forças naturais para receber uma espécie de batismo cósmico, para renascer de outra maneira (duplo nascimento). Os sinais distintivos são comuns na infância, prodígios, força, façanhas incomuns para a idade.
Na juventude, já aparece uma de busca de proporção, sempre dificílima, que a docimasia (dokimasia) ilustra, isto é, a relação entre a transbordante personalidade do herói e o mundo em que atua é exigida. Entrando na senda, surgem as provas, inclusive as possibilidades das punições divinas pelos excessos que ele comete. Solitário, sacrificado, perambula o herói pelo mundo. Uma espécie de Fatum parece persegui-lo, ainda que muitas vezes seja ele auxiliado providencialmente por entidades protetoras. Suas conquistas são sempre ameaçadas de dissolução, tanto interna como internamente; orgulho, vaidade, perversões,  hybris, por um lado e, por outro, os monstros e os seres perversos que encontra no caminho. Internamente, sempre presentes também as ameaças das origens, dos conteúdos inconscientes. Externamente, ainda, os possíveis confrontos com outros egos, símbolos do mal, que podem inclusive tentar destruí-lo.


GIGANTE GERIÃO, GRANDE INIMIGO DE HÉRCULES (2º TRABALHO)

O herói, tanto na Mitologia grega como em outras, costuma ser apresentado segundo dois modelos: o tipo extrovertido (o mais comum), que assume o papel de libertador, de líder, de condutor, tendo como um dos principais objetivos a transformação do mundo, e o tipo introvertido, que atua mais no plano das ideias, dando exemplo, como redentor, o que trabalha mais com a fé e a vontade do que com o esforço físico. Qualquer que seja o enfoque, os heróis gregos são sempre catalisadores de comportamentos e, como tal, seres exemplares.


ULISSES
Um dos maiores problemas que os heróis encontram é o do retorno, o chamado choque de retorno. Muitos, depois da longa viagem, não querem mais voltar ou podem encontrar obstáculos que dificultem ou mesmo impossibilitem o retorno, como no caso de Ulisses, por exemplo. Às vezes, surgem outras convocações, outros chamados. É que o herói é sempre um iniciado, ele entrou na posse de conhecimentos que, por certo, poderão ser transmitidos aos que ficaram ou aos que ouviram o chamado e não o atenderam. Esta impossibilidade se caracteriza, sobretudo, muitas vezes, pelo fato de o herói, depois de feita a jornada, passar a atuar num campo de forças diferente daquele em que atuam homens comuns. Muitas vezes, difícil, impossível o diálogo. Por isso, muitos heróis, nessa fase, optam pelo silêncio.
O modelo heroico, hoje, parte da ideia básica de que a jornada heroica é de poucos e que a maioria deve ficar no papel que lhe cabe, isto é, serem os figurantes, sustentando o cenário para que ele pratique as suas façanhas, para que ele apareça. Na chamada cultura de massa, o herói está só comprometido consigo mesmo, com a sua capacidade de afirmação, com a sua habilidade, podendo se tornar um representante privilegiado do mundo que o gerou.
Esse modelo tem um caráter impositivo, invadindo outras áreas que não específicas da violência, mas que usem a sua química, como é o caso dos modelos que nos fornecem o esporte, a arte popular (muitos já são encontrados na arte erudita), os cultos religiosos populares ou tradicionais,  o cinema, a música, os jogos eletrônicos, a Internet etc., modelos atrelados e dependentes todos economicamente dos grandes centros detentores da tecnologia que lhes dá vida. O fascínio que esse modelo exerce está centrado sobretudo nos seus dotes físicos, sendo de longe o mais atraente.



Expressando-se o herói como guerreiro, pela violência (países vêm assumindo cada vez mais este papel, como os USA), ele deixa sempre claro que ao agir nenhuma culpa poderá lhe ser debitada por mortes ou destruição que cause. Aqueles a quem combate fazem sempre parte do que é ilegal, pernicioso, ilegítimo, vetado. O Bem que ele defende deve prevalecer sempre. Seria desalentador, desesperador mesmo, que não triunfasse. Se tal ocorresse, isto abalaria a fé das pessoas no sistema, nas suas instituições, criando bolsões de cinismo, de indiferença e de derrotismo.

                                OS CICLOS HEROICOS GREGOS



ARGONAUTAS

São os seguintes os principais ciclos heroicos gregos: 1) Argonautas ou o do Velocino de Ouro; 2) Tebano; 3) Átridas; 4) Hércules; 5) Teseu; e 6) Ulisses. Esses ciclos cobrem geograficamente todo o mundo helênico. Com o desenvolvimento das pesquisas arqueológicas e dos estudos sobre a cultura grega tem se comprovado que os mitos não eram simplesmente fantasias, "coisas" de poetas. As bases históricas dos mitos têm sido confirmadas de um modo surpreendente. Estudos comparativos vêm contribuindo também para lançar mais luz sobre a questão. 
No mundo grego, o ciclo de Héracles ou Hércules é o que mais se destaca com relação aos demais, quando falamos de ciclos heroicos. Seu ciclo é completo e nele se descreve, no capítulo dos doze trabalhos, o drama humano e as suas oscilações entre a vida instintiva, a vida racional e a vida espiritual, isto é, os três níveis do fogo (infernal, terrestre e celeste). É um dos ciclos mais antigos, levando-nos a estabelecer um grande número de  relações, de analogias,  em função de sua enorme dimensão simbólica. 


HÉRCULES E OS DOZE TRABALHOS