sexta-feira, 21 de julho de 2017

VIRGEM (2)

ASTEROIDES

A constelação de Virgem teve as suas relações com Deméter ampliadas significativamente quando, a partir do início do séc. XVIII, descobriram-se pequenos planetas, chamados de asteroides, entre Marte e Júpiter. Um deles, o maior, descoberto em 1.802, recebeu o nome de Ceres, uma das “deusas trabalhadoras” da mitologia, da romana, no caso. O outro asteroide recebeu o nome de Vesta (Héstia dos gregos), também, como o primeiro, considerado pela Astrologia como corregente de signo de Virgem. A estes asteroides, juntaram-se outros dois, descobertos mais tarde, de nome Juno e Palas. Os quatro passaram a representar um sistema arquetípico que completava o mundo feminino da Astrologia, “defendido”, antes do séc. XVIII, só pela Lua e por Vênus. Esses asteroides devem ser considerados como aspectos da vida feminina, até então dispersos e fragmentados, que buscavam uma integração mais consequente e um melhor equilíbrio com a antiga preponderância dos planetas que formavam o mundo masculino da Astrologia. 

CERES
O asteroide Ceres tem a ver astrologicamente com a relação mãe-filho. Esse papel sempre foi assumido pela Lua, como regente do signo de Câncer, principalmente quanto aos seus aspectos biológico, emocional e psicológico, e, como tal, relacionados com o elemento água. Ceres se revelou como o arquétipo que tipifica a “mãe terra”, a biológica ou não, a que nutre, cuida, educa e que prepara para a caminhada futura (a passagem de Leão para Libra e assim por diante). As pessoas que têm Ceres em posição de destaque nos seus mapas se identificarão fortemente com um papel materno, protetor. Com Ceres há sempre uma forte ligação com nutrição e hábitos alimentares. No nosso mundo moderno altamente industrializado esse papel praticamente desapareceu. A agricultura, lembre-se, começou a ser envenenada pela química quando os agrotóxicos a invadiram pesadamente no período em que Plutão transitou por Virgo, a partir do final dos anos de 1.950.

DEMÉTER   E   PERSÉFONE
Outro fator importante a ressaltar quanto a Ceres, nome latino da Deméter grega, é o fato de que ela apresenta o seu melhor aspecto quando em companhia de Koré-Perséfone, nos seis meses que duram a primavera e o verão. A deusa se "deprime" quando a filha desce às profundezas da Terra para passar os outros seis meses em companhia de Hades-Plutão. Esse período em que Deméter e Koré-Perséfone passam juntas, quando tudo floresce, poderá ser considerado talvez como aquele em que consigamos integrar melhor as nossas tarefas diárias com as nossas necessidades emocionais.


O símbolo de Ceres lembra o de Saturno invertido. Ceres (Deméter) era uma das crônidas e foi, com seus irmãos, à exceção de Zeus, devorada pelo pai. Sua filha, Koré, também foi raptada, engolida, só que pelo mundo subterrâneo. Uma associação possível poderá ser estabelecida, acredito, entre  Plutão e Ceres sob o ponto de vista astrológico, na medida em que, por exemplo, num trânsito do primeiro, possamos ter que enfrentar simbolicamente uma perda equivalente ao rapto da jovem. Além do mais, a relação de Ceres (Deméter) com as lamentações e estados depressivos (perda da filha) poderá ser muito notável também, na medida em que o asteroide estiver em debilidade ou mal aspectado, principalmente nas suas relações com o signo de Escorpião e com os seus regentes. 


HÉSTIA
Outra divindade que "vive" no signo de Virgem é Héstia, na Astrologia com o nome latino de Vesta, também corregente do signo de Virgem. Héstia é a mais velha das crônidas. Ao repelir as insistentes investidas eróticas de Zeus, mantendo-se intocada, acabou ganhando do senhor do Olimpo o status da virgindade, ou seja, a capacidade de se autodeterminar sem levar em consideração as pressões externas. Sempre recebeu, por isso, homenagens excepcionais, em todos os lares, praças esportivas, casas de arte, templos e repartições públicas. É uma deusa sem histórias. Confunde-se com o centro das casas, a lareira, lugar privilegiado em torno do qual a família deve se constituir. Ao simbolizar a pureza, é honrada quando do início de qualquer atividade. 

FOGO   DOMÉSTICO
( VÁCLAV HOLLAR , 1607 - 1677 )
Héstia era venerada também no centro das cidades como o fogo da pátria, o omphalos (umbigo), um lugar que reproduzia civicamente o que ela representava no gineceu. Héstia não é simbolizada por imagens, recusando-se o arquétipo a qualquer semelhança com a figura humana. Ela é o fogo doméstico, um aspecto específico do mundo que não  é ”ninguém”, que é incorpóreo, mas que a todos congrega. Os romanos conservam o fogo sagrado que a deusa (Vesta) representava também na dependência pela qual se tinha acesso às casas, a entrada, o vestíbulo, um pátio ou pórtico exterior à entrada principal de um edifício. 

A dificuldade que em tempos muito recuados na história da humanidade os homens tinham para conservar o fogo explica a solicitude  e a veneração que cercava este elemento. Hefesto é também uma divindade ligada ao fogo, como Héstia. O fogo de Hefesto,porém, se liga à produção de bens materiais enquanto o de Héstia tem um caráter doméstico, social. A deusa compartilha com Ártemis e Palas Atena o estatuto da virgindade, da castidade, o que as coloca em oposição a Afrodite. 

Héstia encarna o princípio do sacrifício permanente. Controle, reflexão. serviço e sobretudo dedicação são características da atuação do asteroide, tudo ligado à capacidade de se manter fiel a uma escolha ou a uma convicção. Para Héstia não há modismos.
VESTAL (R. MONTI, 1850) 
Evidentemente, a deusa pode levar a um idealismo abstrato ou a uma obsessão alienante. O sentido de respeito e da palavra dada, da observância intransigente de uma tradição, pode tomar um sentido muito negativo, levando alguém, nas suas expressões negativas, a se retirar do mundo, a se isolar socialmente. Num sentido superior, Héstia torna-se, porém, o princípio da purificação da alma através de experiências vividas. As lições de Héstia são sempre as mais austeras enquanto disserem respeito ao auto-domínio. Por isso, quando este asteroide ocupa uma posição de relevo no mapa de uma mulher e há também uma dominante em fogo poderosa através dos planetas pessoais podemos esperar conflitos mais ou menos graves, sérios. 


HÉSTIA
Uma das únicas representações que se conhece de Héstia, entre os gregos, nos mostra uma figura "sem rosto", sem persona. O arquétipo atinge a sua plenitude quando não há (mais) necessidade de um relacionamento em particular, da convivência com outras pessoas, de vida social, para que a pessoa seja o que quiser ser. A Héstia superior é aquela que não se ilude com a necessidade de algo exterior para completá-la. Ao contrário, ela escolhe livremente a direção a ser dada à sua vida, sempre um calor generoso e isento de qualquer possessividade, sendo doação absoluta, portanto. Sempre a rondar o arquétipo, porém, nos tipos astrológicos inconscientes do seu poder, a esquizofrenia e o vampirismo, por ação reflexa do signo oposto a Virgem. 


ASTREIA  DEIXA  A  TERRA ( SALVADOR ROSA , 1615 - 1673 )

Entre os gregos muitos são os mitos relacionados com o signo de Virgem. Um deles é o de Astreia (nome que lembra estrela cadente). Filha de Zeus e de Têmis, titânida, a grande divindade das

leis imprescritíveis, Astreia, segundo o mito, teria vivido entre os humanos na Idade de Ouro e sua missão teria sido a de assegurar ideais de justiça, paz e benevolência entre os mortais. Mas, devido à degeneração do mundo dos humanos (da Idade de Ouro à da Prata, desta à do Bronze e desta à do Ferro), principalmente nos grandes centros urbanos, nas cidades, Astreia retirou-se para viver entre os que pareciam ainda não haver se corrompido tanto, os habitantes dos campos, tudo conforme nos conta o poeta Virgílio (Geórgicas). 

AIDÓS
Astreia, contudo, logo constatou que a corrupção também lá já grassava. Diante disto, a deusa, muito desgostosa, retirou-se, indo para os céus, tomando a forma da constelação de Virgem. Sua irmã, Aidós, o Pudor, também chamada de Vergonha, fez o mesmo, indo para o Olimpo. Os gregos antigos nos dizem que, com Aidós, também subiu aos céus a deusa Nêmesis, a que repunha os limites e curvava os orgulhosos, ambas inteiramente decepcionadas e desesperançadas com relação à miserável raça humana, como nos diz Hesíodo.

Os gregos associavam Deméter, como se disse, ao signo de Virgem. Filha de Cronos e de Reia, irmã de Zeus, uma crônida, portanto, Deméter, deusa do trigo e dos grão em geral, tem a ver com a vida
VIRGEM
das estações, com o crescimento das sementes, a vegetação dos campos trabalhados pelo homem. O longo processo iniciado em Áries, o aparecimento do vegetal, encontra o seu final em Virgem. Os vegetais estão no ponto para serem colhidos. A espiga está pronta para a debulha, momento de separação, o corte do que é impróprio para consumo ou uso. É neste momento também que deve ser levado para os celeiros o que se colheu tendo em vista a sua utilização e o seu aproveitamento futuro ao longo do ano. 

PREPARO   DO   PÃO
Já se disse que a grande força do signo de Virgem está na colheita e na destinação do que foi colhido, na sua utilização, no seu emprego. Em Virgo se “prepara o pão”, em função do que foi cultivado e colhido. Todas as atividades do signo estão representadas de alguma maneira no mito de Deméter. É com base nestas considerações que o melhor exemplo da relação Deméter-Virgo está nos Mistérios de Elêusis. 


Dentre todos os cultos das religiões de mistério do mundo grego, o de Elêusis foi, sem dúvida, a mais importante. Historicamente, lembremos que, por razões políticas e sociais, a aristocracia que, a partir da polis, se instalou no poder ao fim do período arcaico procurava separar por todos os meios os cultos entre as suas divindades, isolando-os para evitar certas “contaminações.” Dioniso e Deméter eram divindades do campo. São divindades ligadas ao mundo vegetal, que falam de morte e de renascimento. Chocam-se, neste sentido, principalmente Dioniso, às vezes violentamente, com as divindades oficiais e aristocráticas da cidade, Apolo e Palas Atena, de modo especial.


MISTÉRIOS   DE   ELÊUSIS

Dioniso e Deméter pontificavam em Elêusis, um lugar de culto distante da cidade, no campo. Os templos de Apolo e de Palas Atenas ficavam na polis, pois eram divindades políticas. Um conflito cidade-campo, pois, e, também, duas propostas de imortalidade que se chocavam. A proposta eleusina punha, de certo modo, em perigo todo um estilo de vida e um universo de valores. Não foi por outra razão que Atenas tentou de várias maneiras interferir em Elêusis. Acabou conseguindo através de famílias sacerdotais importantes (Eumólpidas, Querices e Filidas), assinando-se um acordo pelo qual as cerimônias de Elêusis se tornaram uma festa religiosa oficial do estado ateniense, ficando tudo sob o controle de funcionários indicados pela polis, que entrava com financiamentos, força policial etc.


CERES

O culto de Deméter, como celebrado em Elêusis, falava, como se disse, de morte e de renascimento, a morte da semente no interior da terra, lembrando como tal sua descida para uma permanência no mundo subterrâneo e a sua volta numa outra forma, consequente daquela, representada por um acesso à luz, isto é, do não manifesto ao manifesto. Toda esta simbologia está evidentemente ligada ao trigo, que desempenha um papel fundamental na alimentação europeia desde a mais remota antiguidade. Sempre considerado um dom divino, o trigo, que não nasce espontaneamente, que depende muito do trabalho humano, sempre foi visto como o alimento da imortalidade.



Saliente-se que entre os egípcios o trigo era um dos símbolos de Osíris, o deus das forças vegetais e da ressurreição, que o fez nascer no delta do Nilo. No mito, a Ceres dos romanos, deusa da terra cultivada, significava abundância e, associando-se ao ciclo das estações, renovado anualmente, à esperança de uma vida eterna. Atribui-se igualmente a Ceres (fazer crescer, etimologicamente) a dádiva do trigo aos povos do Lácio e o ensino de técnicas adequadas para arar a terra e cultivar o grão. 

SIBILA   DE   CUMAS
Conta-se que quando os etruscos, povo que já vivia na Itália bem antes da fundação de Roma, invadiu a cidade, ainda recém-fundada, e a fome, pela falta de alimentos, ameaçou dizimar a população, a Sibila de Cumas, consultada, recomendou que fossem introduzidos em Roma os cultos de Deméter, Perséfone e Dioniso. Assim foi feito, ganhando estas divindades, respectivamente, os nomes de Ceres, Líbera  e Líber ou Baco. Em honra de Ceres celebravam-se em Roma os Ludi Cereales ou Cerealia, festividades que se estendiam por uma semana entre 12 e 19 de abril, anualmente.


CEREALIA

Um dos mitos gregos cuja existência é explicada pelo signo de Virgem e pelo signo oposto e complementar, Peixes, é o de Arion (areion, em grego), famoso cavalo mítico de crinas azuis,
ARION
velocíssimo. Arion, o melhor, o mais corajoso, é um superlativo da palavra grega agathos, bom. Etimologicamente, podemos levar estas reflexões para a palavra grega areion, que tem relação muito próxima com Areios, isto é, com Ares (Marte), deus sempre envolvido com cavalos. Lembremos a propósito que o primeiro trabalho de Hércules tem ligação direta com esse animal: a captura dos cavalos antropófagos de Diomedes, filho de Ares. Cavalos, como sabemos, são símbolos do psiquismo inconsciente. Na mitologia grega, são criaturas de Poseidon, que, sob o nome de Hippios, os “inventou”. Arion, no mito, é justamente filho do grande deus do elemento líquido e da deusa Deméter, gerado pela união de Poseidon, na forma de um garanhão, com a deusa. Esse acontecimento se verificou quando Deméter, em visita à terra, na desesperada procura de Koré, a filha raptada por Hades, tomou a forma de uma égua. 



CAVALOS   DE   POSEIDON  ( 1892 , WALTER  CRANE )

Esse encontro de Deméter com Poseidon é a união de dois temas: o começo da utilização do cavalo na agricultura, um importante momento na história da humanidade que dessa maneira foi ilustrado. Descreve-se miticamente a domesticação do cavalo selvagem (psiquismo inconsciente) e sua utilização nos trabalhos agrícolas, ou, de outro, uma associação alquímica entre os elementos fogo e terra. A Astrologia nos deixa claro que o cavalo selvagem (psiquismo inconsciente) emerge do signo anterior,
DEMÉTER
Peixes, governado por Netuno (Poseidon). É em Virgem (Deméter) que se dá a passagem da natureza bruta, da selvageria, à civilização, do sub-humano ao humano. Lembremos que as crinas do cavalo Arion são azuis, cor que, dentre todas, sempre apareceu muito ligado ao domínio espiritual. O azul é ambíguo e em Arion é a “presença” netuniana (Áries é, assim, uma “consequência de Peixes). Pode indicar evolução ou regressão. O azul em muitas línguas traduz uma ideia de embriaguez, afastamento da realidade, altura, perda de consciência. Lembremos que o céu e o mar são sempre representados pela cor azul. 



ERÍGONE  ( FRANÇOIS  BOUCHER , 1703 - 1770 )

Os antigos gregos costumavam também associar a constelação de Virgem ao mito de Erígone, filha de Icário, herói epônimo da região. Conta-se que quando o deus Dioniso resolveu ensinar aos humanos o cultivo da vinha e a produção do vinho, Icário foi o primeiro a hospedar o deus, que logo se apaixonou por Erígone. Amaram-se e da união nasceu um filho, Estáfilo (cacho de uva). Ao partir, Dioniso deu a Icário um odre de vinho com a recomendação de que ele o compartilhasse para que seu culto se propagasse. 
       
DIONISO, ICÁRIO E MERA
Dividido o vinho recebido de Dioniso com alguns pastores da região, todos se embriagaram. Julgando-se possuídos por alguma entidade ou envenenados, os convivas de Icário o mataram. Mera, o cão de Icário, com seus insistentes latidos, revelou a Erígone, que não participara da festa, o lugar em que o corpo do infeliz camponês fora jogado. A jovem, tomada de imenso desespero ao ver o pai assassinado, enforcou-se. Dioniso, em represália, fez com que uma verdadeira epidemia de loucura (mania) atingisse os jovens da região. Consultado, o oráculo de Delfos sentenciou que o castigo se prolongaria até que determinados ritos purificadores fossem instituídos em homenagem ao pastor e à sua desditosa filha. Os assassinos foram severamente punidos e, desde então, para que o fato fosse lembrado para sempre, foi celebrada uma cerimônia, a ser repetida anualmente, em que imagens de uma jovem (Erígone) fossem penduradas nas árvores da região. Esta cerimônia deu origem a uma famosa festa, a das Oscilla (figurinhas), em homenagem ao deus, Liber Pater, chamada na Itália de Liberalia


LIBERALIA  ( ANNIBALE  CARRACCI , 1560 - 1609 )

Na realidade, Líber Pater é um antigo deus itálico, uma divindade rústica da vegetação, identificado como Dioniso. Essa divindade favorecia a procriação e a fecundidade universais, sendo ela considerada como a liberadora do sêmen em toda relação sexual. Na agricultura, ela atuaria na semente depositada no interior da terra. As festas em sua honra eram celebradas a l7 de março e tinham caráter fortemente licencioso. 

Estas cerimônias envolvendo os personagens acima fazem parte da introdução dos cultos dionisíacos em várias regiões da Grécia e, depois, na Itália, onde o deus passou a ser chamado de Baco. Fazia parte também das cerimônias a morte ritual de um cão por ocasião da plantação de vinhas. Há aqui um catasterismo que pertence a um antigo substrato mítico, projetado nos céus, sendo Erígone a constelação da Virgem, Icário o Pastor, a constelação de Bootes, e Mera a constelação do Cão Menor, aparecendo Dioniso como Eleutherios, o Libertador, um de seus nomes. 

O ciclo das estações sempre foi simbolizado de várias maneiras. A forma mais comum de se ver esse drama cósmico no mito foi a de representá-lo através da relação terra-mãe com seu filho. Em várias tradições esse filho é do sexo masculino, sendo ele, além de filho, também amante de sua mãe. São divindades que morrem e ressuscitam anualmente, como temos nos exemplos de Dammuzi e Adônis, respectivamente deuses sumério e fenício da vegetação. Esses deuses morrem no fim do verão e renascem anualmente no início da primavera. Os cristãos medievais viram nessas histórias uma ilustração antecipada do drama da paixão de Cristo, a Virgem Maria (Grande-Mãe) com o seu filho moribundo. 

No mito de Deméter, o filho-amante da deusa é substituído pela figura de Koré-Perséfone, isto é, pela semente, que morre e se multiplica como símbolo das vicissitudes da vida vegetal. Ligada ao simbolismo do ciclo das estações,  a semente é também reveladora da alternância entre a vida e a morte, da vida no interior da terra e da vida na luz, do imanifesto ao manifesto. Daí, a iniciação nos Mistérios de Elêusis procurarem livrar os inciados desta alternância para que eles pudessem se fixar só na luz. 

SÃO   JOÃO   PREGANDO
( RAPHAEL  MENGS , 1728 - 1779 )
A segunda fase dos Grandes Mistérios, em Elêusis, lembrava a morte e o renascimento do grão aos epoptes. É nesta mesma perspectiva simbólica que a parábola de são João pode ser compreendida: Eis que a hora é chegada na qual o Filho do homem deve ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo não cai sobre a terra e não morre, ele permanece só; se ele morre, ele dará muitos frutos. Quem ama sua vida a perde; e que a odeia neste mundo a conservará na vida eterna. É nestes termos que são João anuncia a glorificação de Jesus por sua morte.  



terça-feira, 18 de julho de 2017

VIRGEM (1)


VIRGEM
As antigas civilizações do oriente, como a védica, e mediterrâneas, como a egípcia e a grega, tinham pleno conhecimento da influência das  chamadas eras cósmicas no desenvolvimento e na evolução dos povos. As eras cósmicas foram estabelecidas em função da passagem do Sol pelas constelações zodiacais, definindo esta passagem, em linhas gerais, segundo cada constelação, por um determinado período, para esta ou aquela civilização, modelos muito semelhantes relacionados com os seus fundamentos religiosos, filosóficos, políticos, sociais e artísticos. Cada período tem a duração de 2.160 anos, correspondente a 30º dos 360º que tem o ciclo completo.  

No chamado zodíaco das constelações esta progressão solar tem a duração de 25.920 anos, o chamado grande ano pitagórico, correspondente a um deslocamento solar de 360°, e de 2.160 anos se considerarmos o trânsito do Sol através de uma única constelação (30°). Este ciclo composto pelas doze constelações, baseado na chamada precessão dos equinócios,  nos permite perceber que há ciclos de tempo muito mais extensos dos que usamos normalmente, de grande importância para o entendimento da evolução da humanidade como um todo.



A era cósmica em que nos encontramos hoje, a de Peixes, começou em 498 dC. e terminará em 2.658 dC. As eras que a antecederam têm as seguintes datas de ínicio: Áries (1.662 aC), Touro (3.822 aC), Gêmeos (5.982 aC), Câncer (8.142 aC), Leão (10.3102 aC.). Estamos hoje na terceira e última fase da era de Peixes, que começou no ano de 1.938. 

As eras cósmicas são a própria memória do mundo. Os ciclos precessionais, que as determinam permitem-nos interpretar a história da humanidade já que marcam elas o aparecimento de raças, nações e religiões. Determinam inclusive o nascimento, a ascensão e a morte de uma raça raiz. O grande ano zodiacal de 25.920 anos se divide em quatro períodos (estações) de 6.480 anos, formados cada um por três eras cósmicas. O predomínio da raça ariana teve início quando o Sol ingressou na constelação de Áries, em 1.662 aC, e se estenderá até 4.818 dC, nele se incluindo as eras de Peixes e de Aquário. No período anterior ao do domínio da raça ariana, tivemos a evolução, a ascensão e a decadência da chamada raça atlante, durante as eras de Câncer, Gêmeos e Touro. 


GRAHAM   HANCOCK
As mais antigas referências que temos sobre Virgem nos apontam para um período muito recuado, a-histórico, anterior ao ano 10.000 aC. Foi por esse tempo, quando o Sol transitou de Virgo para Leão, como está hoje comprovado por pesquisas arqueológicas conduzidas por Graham Hancock e outros, que antigos povos, habitantes da região que mais tarde receberia o nome de Egito, levantaram um monumento para celebrar tal passagem. Refiro-me à esfinge de Gizé, uma estátua de pedra calcária, uma figura mítica, formada pela cabeça de uma mulher e por um corpo de leão com asas de águia. 

ESFINGE   DE   GIZÉ
DEMÉTER
( J.A.WATEAU , 1770 - 1718 ) 
Estudos recentes (séc. XX), contrariando o que a egiptologia tradicional sempre defendeu erroneamente, comprovaram que a parte humana da estátua era a cabeça de uma deusa das colheitas, a deusa Ísis, irmã e esposa de Osíris, associada mais tarde por Heródoto à deusa Deméter, dos gregos, e à deusa Ceres, dos romanos. Ela era representada nesta forma como uma mulher de porte majestoso segurando na mão um maço de ramos de trigo que ela teria lançado nos céus para formar a Via Láctea. Nas histórias que os egípcios nos contam sobre ela, uma variante nos diz que, desgostosa com o comportamento dos humanos, ela  se retirou da terra numa idade que corresponderia à da Idade da Prata da mitologia grega.

Uma das melhores maneiras de se apreender as principais características do signo de Virgem está na analogia, na solidariedade, que há  entre a mulher e a agricultura. Esta solidariedade pode ser descrita, num primeiro momento, através da aproximação da fecundidade da terra,  da  capacidade geradora do elemento feminino, aproximação fundamental para que seja possível a aquisição de uma consciência de que a vida, a morte e o renascimento são interdependentes.


MÃE DOS CEREAIS
No cenário “agrícola” do signo de Virgem as suas características mais marcantes estão certamente no poder da colheita e na destinação do que se colheu. Inúmeros ritos e costumes, ao logo da história do homem, atestam estes poderes. Eles sempre foram vistos como uma força sagrada e representado por figuras míticas. Quaisquer que sejam os modelos, eles giram invariavelmente em torno da figura de uma Grande Mãe, chamada geralmente de Mãe do Milho, Mãe do Trigo, Mãe dos Cereais etc.  

Em muitas tradições, desde tempos pré-históricos, era comum o sacrifício de seres humanos por ocasião das colheitas. Na mitologia grega, por exemplo, as reminiscências deste rito estavam em certas passagens míticas. Uma história grega nos fala de Litierses, um filho bastardo do rei frígio Midas. Ele possuía muitas terras, inteiramente ocupadas pela cultura do trigo. Era conhecido como o ceifeiro maldito. Sempre que, no tempo das colheitas, um estrangeiro passasse pelos seus domínios ele lhe dava hospedagem e o convidava a segar o trigo. Este convite era um desafio, uma competição. Se o estrangeiro ceifasse o trigo mais rapidamente que ele poderia ir embora. Se não, o que sempre acontecia (Litierses era imbatível na ceifa), ele o matava, decapitando-o, e lançava o corpo da vítima despedaçado nos campos. Esta história termina quando Hércules, a serviço da rainha Ônfale, foi incumbido de enfrentá-lo. Nosso herói o venceu e o decapitou.  


OS   CEIFADORES  ( PIETER  BRUGHEL , 1565 )

Evidentemente, o que temos aqui, por trás do mito, é o costume antiquíssimo do sacrifício de uma vítima humana para a regeneração da força manifestada na colheita, um sacrifício no qual se repete o ato que deu vida aos grãos (para que algo nasça é preciso que algo morra). O homem primitivo, compreenda-se, viveu durante milhares e milhares de anos na ansiedade quando das colheitas, pois poderiam esgotar as forças geradores da terra. Além disso, havia o medo de que o Sol não voltasse quando de sua viagem hibernal, que a própria Lua, tão próxima, também resolvesse desaparecer ou que a semente, por uma razão qualquer, não vingasse. Daí, o costume de se oferecerem as primícias (os primeiros frutos) para ser tentada uma reconciliação com todas estas forças que agiam no interior da terra e nos frutos como também para ser obtida a permissão de consumir os produtos obtidos sem risco nenhum. 


HÓRUS  ,  OSÍRIS ,  ÍSIS 

Embora Ísis, devido à sua enorme popularidade entre os egípcios assimile traços de outras deusas gregas (Hera e Afrodite) é com Deméter que ela mais se identifica. A história desta deusa nos foi contada por Plutarco, historiador grego. Revela-nos ele que ela era filha de Geb e de Nut. O primeiro lembra o Kronos grego e a outra, Reia, ambos, titânidas, filhos de Urano e de Geia, que formam as divindades regentes da segunda dinastia da mitologia grega. Ainda muito jovem, Ísis foi escolhida por seu irmão Osíris para ser sua esposa. Dessa união nascerá Hórus, que, com os pais, constituirá a grande tríade religiosa egípcia.   

NA  RODA  DE  FIAR
( CORNELIS KOPPENOL )
Ísis nasceu no quarto dos dias epagômenos (entre os egípcios, diz-se de cada um dos cinco dias adicionados ao ano civil , que compreendia doze meses de 30 dias cada um; epago, em grego, quer dizer levar, transportar). Subindo ao trono com seu irmão mais velho, ela o ajudou na sua obra civilizadora, ensinando às mulheres a fiar o linho e tecer; ela também ensinou aos homens a arte da cura de doenças e os inspirou a viver em núcleos familiares, instaurado a cerimônia matrimonial (vínculo ritual pelo qual a mulher se torna mãe). 


ÍSIS

Como Osíris viajava muito, ocupado com o seu culto (conquista pacífica do mundo), Ísis se tornou a regente do país, sempre governando sabiamente. Imensa foi a sua dor quando tomou conhecimento do assassinato de Osíris por Seth, o Violento, irmão de ambos. Cortou os seus cabelos, rasgou as suas vestes e partiu à procura no rio Nilo da arca onde, segundo soubera, o corpo despedaçado do marido estava encerrado. Levada pela correnteza do rio até o mar, a arca chegou à costa fenícia. Numa praia, a arca foi ter a um tronco oco de um tamárix, nele se alojando, sem nenhum sinal exterior de sua presença nele.

A esse tempo, o rei de Biblos estava construindo um palácio e muitas árvores eram abatidas. Uma delas foi este tamárix, usado para escorar o teto da edificação. Logo se espalhou a história que desse tronco se desprendia um perfume estranho. Chegando tal história a Ísis, ela logo se dirigiu ao local. Sem revelar quem era,
ASTARTE
conseguiu se fazer receber pela rainha Astarte, que lhe confiou seu filho recém-nascido, tornando-se Ísis assim a ama da criança. Enquanto esperava uma oportunidade para se aproximar melhor do tronco da árvore, Ísis cuidou do jovem príncipe. A criança, todas as noites, era purificada por ela, segundo determinados ritos de calcinação, cujo objetivo era o de torná-la imortal. A rainha, contudo, a surpreendeu numa noite quando da prática de  tal rito. Nesse momento, Ísis revelou quem era e o motivo da sua vinda a Biblos. Obteve logo o tronco da árvore, abriu a arca, vertendo copiosamente suas lágrimas sobre os restos de Osíris, e, levando a arca para o Egito,  escondeu-a numa região pantanosa, para afastar a possibilidade de Seth encontrá-la. Nem todas as partes do corpo de Osíris, entretanto, estavam na arca. Seth, para impedir a reconstituição do corpo do irmão, distribuíra, por vários lugares, em catorze pedaços, o seu restante, pretendendo, com isso, aniquilá-lo para sempre. 

Sem se desesperar, Ísis se pôs a procurá-los, encontrando todos, menos o pênis, que um peixe do rio havia devorado. A deusa começou então cuidadosamente a recompor o corpo; ajudada pela sua irmã Neftis, por seu sobrinho Anúbis, por Toth, o vizir do
EMBALSAMAMENTO
defunto, e por Hórus, seu filho póstumo, que ela havia concebido unindo-se ao cadáver de seu marido, magicamente reanimado por seus encantamentos. Ísis praticou pela primeira vez, os ritos de embalsamamento, que proporcionaram ao deus assassinado uma vida eterna. Depois de tudo isso, a deusa se retirou e para escapar da fúria de Seth refugiou-se nos pântanos, a fim de educar seu filho Hórus, até que atingida por ele a idade adequada para poder vingar o pai. 

Graças à proteção e aos encantamentos da mãe, Hórus conseguiu escapar de todos os perigos. A deusa era detentora de uma magia que astuciosamente obtivera do deus Ra, quando a seu serviço. Tal aconteceu quando Ra, tomando a forma de um velho de membros trêmulos e de boca babosa, vindo a perambular pelo mundo dos mortais. Ísis, usando terra impregnada da baba do deus, fabricou uma serpente venenosa, que, colocada no caminho do velho deus, o mordeu. Incapaz de se curar, Ra teve que recorrer à deusa, que o salvou. Foi nessa ocasião que Ísis, segundo o mito, se apoderou do nome secreto de Ra, conquista que lhe permitiu estender o seu poder por todo o universo, sendo adorada, por isso, em todo o mundo mediterrâneo, como deusa suprema e universal. Mãe da natureza, dos elementos, divindade tutelar dos manes, tornou-se Ísis o centro de vários círculos esotéricos, sendo considerada como aquela que detém os poderes da vida, da morte e do renascimento. Passou ela a personificar desde então a anima universal, e, quanto ao mundo masculino, a somatória de todas as tendências femininas do seu psiquismo.  


TEMPLO   DE   PHILAE

Ísis, no mito osiriano, representa a terra fértil do Nilo, fecundada anualmente pelas cheias do rio, isto é, por Osíris, que separa dela Seth, o deserto. Seu culto não cessou de crescer em importância, a ponto de praticamente apagar o de todas as demais deusas. Ultrapassando as fronteiras do Egito, foi o seu culto levado por viajantes e comerciantes para o mundo greco-romano, de onde alcançou as margens do rio Reno, na Germânia. Nas margens do Nilo, ela conservou seus fiéis até o séc-IV dC. Somente no séc. VI, sob o reino de Justiniano, que o templo de Philae, seu principal santuário no extremo sul do país, foi fechado e transformado em igreja católica. 


APULEIO
As festas em honra a Ísis eram celebradas na primavera e no outono, como, aliás, as dos Mistérios de Elêusis, na Grécia. As descrições que Apuleio (escritor latino do séc.II dC) nos deixou sobre as majestosas procissões em sua homenagem podem nos dar, ainda que muito imprecisamente, algumas informações sobre os seus ritos iniciáticos (isíacos). Ísis sempre foi representada como uma mulher majestosa, levando na cabeça uma espécie de coroa estilizada, um ideograma de seu nome. Aparece a deusa às vezes ostentando um disco na cabeça; em outras ocasiões, lembra a deusa Hathor, pelo seu teriomorfismo (cabeça de vaca). Seu emblema era
CRUZ   ANSADA
um nó mágico de nome Tat, chamado nó de Ísis, ou cruz ansada, uma união simbólica do céu e da terra,  e o sistro (trombeta aguda), também símbolo de Hathor.  A escultura e a pintura a representam geralmente ao lado de Osíris, a quem dá assistência e protege, o mesmo fazendo também, de um modo geral, com todos os mortos, com seus braços abertos, como asas. Em algumas representações, aparece chorando ao lado dos sarcófagos ou velando os vasos canopos, onde se guardavam as vísceras dos mortos. Numa outra forma, aparece aleitando Hórus ou o protegendo quando de suas lutas contra Seth.



ÍSIS   ALEITANDO   HÓRUS

Uma grande semelhança pode ser apontada entre Ísis, nas representações em que aparece segurando Hórus, como puer aeternus, nos seus braços, e Perséfone, que, na segunda fase dos Mistérios de Elêusis, a epopteia, carrega num dos braços Brimo, o mesmo puer aeternus, e numa das mãos um feixe de trigo. Ligado a Atenas pela chamada Via Sacra, o santuário de Elêusis estava sob a tutela de Deméter (Grande Mãe) e de Koré, sua filha, divindades do mundo vegetal e de seus ciclos. Elêusis foi sempre um teatro de cerimônias iniciáticas, cujos ensinamentos, de caráter absolutamente esotérico, não podiam ser divulgados sob pena de morte, pena que era também aplicada àqueles que, não iniciados, resolviam ingressar no santuário sagrado. 


ELÊUSIS

Os vestígios desse santuário podem ser hoje visitados no alto de uma acrópole que domina o golfo de Elêusis e a ilha de Salamina. É de se salientar que arqueólogos ingleses e franceses pesquisaram o local no séc. XIX. A partir do fim do período romano da história grega e da imposição do cristianismo como sua religião oficial, as majestosas instalações do santuário entraram em decadência, ficando o lugar cercado por uma topografia confusa, mas envolvendo-o sempre, ainda hoje, um halo de sopro espiritual ao qual se misturam a poluição proveniente de uma estrada cujo trânsito é bastante pesado. À volta das ruínas, algumas flores, lembranças de um tempo em que elas se espalhavam por toda a região, hoje substituídas por “florescentes” usinas.  

Segundo a mitologia, foi em Elêusis que Deméter encontrou a sua filha Koré, que fora raptada pelo deus Hades perto do lago de
GRÃOS  DE  TRIGO
Pergusa, na Sicília. O rei de Elêusis, Keleos, tendo oferecido hospitalidade à deusa, ela, em agradecimento, deu a Triptólemo, filho do soberano, o primeiro grão de trigo  e lhe ensinou a arte de fazê-lo frutificar. Uma estela do séc. V aC, encontrada em Elêusis, hoje no Museu Arqueológico de Atenas, ilustra a doação da deusa ao jovem príncipe. Simultaneamente, Deméter teria comunicado ao grão-sacerdote Eumolpo o ritual do culto da fecundidade.

Deméter, como se disse, era a deusa do trigo, da fecundidade dos campos, e sua filha Koré, tendo assumido a posição de deusa do mundo ctônico devido às “artes” de Hades, como Perséfone, acolhia os mortos quando lá chegavam. Este culto, sem dúvida, tem origem, num primeiro momento, no Egito e, depois, no mundo cretense e egeu, por onde se introduziu na Grécia. O culto que se celebrava no interior do santuário era reservado só aos iniciados, sendo, porém, franqueadas a todos  as festas que se realizavam exteriormente. 

Inicialmente, um culto agrário de fecundação da terra, os Mistérios eleusinos se tornaram, possivelmente sob a influência do orfismo, uma espécie de terapia coletiva, embora alguns o vissem como uma religião de salvação. Os Mistérios, principalmente devido à relevante participação de Dioniso, estavam abertos a todos, sem distinção de classe ou de sexo, mesmo os escravos nele eram admitidos se originários de colônias gregas, tudo muito diferente dos cultos apolíneos, de caráter aristocrático. Os bárbaros, inclusive, poderiam deles participar se se naturalizassem. 

A pessoa que quisesse se iniciar deveria se apresentar a um funcionário sacerdotal através de um ateniense já iniciado. Este funcionário assumiria então a condição de mistagogo (professor) perante o candidato. Aceito, participaria então o candidato dos Pequenos Mistérios, em Agra, que começavam por uma purificação no rio Ilyssos. Ao logo dos seis meses seguintes os candidatos iam
ELEUSINION
se tornando mystai (iniciados). No outono, tinha início a segunda fase, a dos Grandes Mistérios, que começava em meados de setembro, segundo o nosso calendário. No dia determinado, alguns efebos iam a Eleusis buscar os hiera, objetos sagrados (de composição ignorada para nós), que, no dia seguinte, deveriam ser levados em procissão a um templo de Atenas, o Eleusinion, em procissão com muita pompa.  

No dia seguinte, chamado ogyrmos (reunião), todos se reuniam sob um pórtico de Atenas e o arconte-rei, numa oração, conclamava a que se afastassem dali todos aqueles que, por qualquer razão, estavam impuros, manchados por um crime qualquer, ou marcados pela atimia (privação dos direitos de cidadania), Depois, iam todos
ASCLÉPIO
ao mar para outra purificação, sacrificando-se em seguida uma leitoa ainda em fase de aleitamento (khoiros, nome também do órgão genital feminino). Nos dois dias seguintes realizavam-se as festas em honra a Asclépio, dentro do calendário eleusino. No dia 19 de setembro, à noite, tinha lugar a grande procissão noturna que levava os hiera de volta a Elêusis, tudo sob a tutela de Dioniso, o deus das metamorfoses. A saída de Atenas se dava pelo cemitério da cidade, chamado 
Cerâmico (bairro onde viviam e trabalhavam oleiros, ceramistas etc.). 


CERÂMICO

Pela região de Agra, fora dos limites de Atenas, território pequeno, mas muito rico (plantações de trigo e centeio), seguindo a Via Sacra, atingia-se ao cair da noite, depois de muitas paradas, com danças e sacrifícios, o território sagrado eleusino, atravessando-se a ponte do rio Cefiso, que separava o profano do sagrado. Essa travessia era marcada por gritos e expressões chamadas geferismos (gephyra, ponte) que incitavam os mystai a atravessar o rio Cefiso, que, como se disse, separava o mundo profano do mundo sagrado, o do santuário.  

As cerimônias que se realizavam estão constituíam a primeira fase dos Grandes Mistérios, a chamada teleté (tele, em grego, é longe; uma referência aos que tinham feito a viagem). Era o primeiro grau da iniciação. Sob a tutela de Dioniso, esta fase se compunha de uma orgia (cantos, danças e bebida, o kykeon), através da qual se atingia um êxtase (sair de si) e se chegava finalmente ao entusiasmo (deus em nós).

Os depoimentos sobre estas experiências afirmam unanimemente que elas lembravam o caminho titubeante das almas nas trevas, presas de inúmeros terrores. Subitamente, porém, como que atingidas por uma intensa luz as almas se sentiam livres, passando a descortinar paisagens maravilhosas, campos férteis. Essas concepções têm forte conotação órfica ou egípcia, segundo seus costumes funerários, conforme Platão notou. 

PERSÉFONE
A segunda fase dos Grandes Mistérios, realizada no interior do templo (Telesterion), tinha o nome de epopteia (a grande visão). Lá, na obscuridade, representava-se uma pequena encenação teatral, a procura de Koré por Deméter e o retorno da primeira à luz, uma simulação dos desencontros da alma e o seu retorno. Aparecia na encenação, segundo depoimentos, uma enorme figura feminina (Perséfone), com ramos de trigo nas mãos, e carregando num dos braços uma criança, Brimo, o puer aeternus, a vida que sempre renascia, mas sempre de outro modo. Nestes espetáculo os sacerdotes conclamavam os mystai a se abrirem para uma outra forma de vida pois “agora eles haviam visto”, isto é, haviam se tornado epoptes.

sábado, 8 de julho de 2017

LEÃO (4)



SISTEMA   SOLAR

Lembremos que Netuno, no século XX, entrou em Leão no mês de junho de 1.916 e nele permaneceu até 1.929. O mundo dos investimentos (ações, financiamentos, hipotecas, commodities, empréstimos para a aquisição de bens suntuários) é leonino e foi construído nesse período com base nas ilusões e nas fantasias netunianas de riqueza e poder, em várias formas de ganhos repentinos (ganância). Netuno em Leão trouxe muito talento musical e artístico, mas, por outro lado, através do cinema (governado por Netuno) criou-se o star system e a chamada Usina de Sonhos, nome pelo qual Hollywood passou a ser conhecida como produtora de expressões artísticas inferiores relacionadas
GRANDE   DEPRESSÃO
com um romantismo exagerado, um idealismo carregado de sentimentalismo, de superficialidade, de fantasias sobre o poder, tudo saturado de extravagâncias, luxo e prazer de gosto profundamente discutível. Na economia, tivemos desastres, implosão, começo daquilo que tomou o nome de a “Grande Depressão” (o crack de 1.929). Quando Netuno transitou por Leão tivemos também o primeiro concurso feminino de beleza em trajes de banho, o rádio se firmou como meio de comunicação ligado à massificação (alienação, divertimento). Durante esse período, denominado pela expressão Roaring Twenties, em cima de descontrolada especulação, se alimentou a fantasia de uma riqueza ilimitada. 

Mais: lembremos que durante da década de 20, Urano transitou por Peixes, de 1.920 a 1.927, e que hoje ele (séc. XXI) voltou a transitar por esse signo (2.003-2011). Netuno entrou em Aquário em 1.999, juntando-se catastroficamente nos céus tendências humanitárias, salvadoras (Netuno) com tecnologia (Urano), ficando o homem desde então aprisionando pelo complexo de Ícaro, tomando o nome de globalização, através da sigla WWW, o sonho da fraternidade universal.


A   QUEDA   DE   ÍCARO  ( P.P. RUBENS , 1636 )

Ícaro era filho de Dédalo, o famoso inventor. Ele e o pai estavam presos no palácio de Minos, em Creta. Dédalo fabricou para o filho um par de asas, que foram  presas aos ombros do jovem com uma cera especial por ele inventada, com a  recomendação de que ele, evadindo-se da prisão, não se aproxime demais do Sol, que procurasse manter uma altura média entre o astro solar e a Terra. Nada lhe aconteceria se observasse o metron recomendado. Apesar de todos os conselhos de prudência, o jovem afoitamente lançou-se nos céus, elevando-se cada vez mais. A cera foi se derretendo, as asas se soltaram. Resultado: queda, catástrofe e morte. 

Ícaro desde então deu nome ás ingênuas aspirações humanas de se atingir a vida espiritual, o Sol, no exemplo, através de meios técnicos. O complexo se configurou: ambição desmedida, exaltação vaidosa e megalomania. Uma dupla perversão, pois, em Ícaro: julgamento errado e coragem idiota. As asas de cera de Ícaro tornaram-se o símbolo da tecnologia moderna. A conclusão se impõe: não é com elas que chegaremos a uma vida espiritualmente orientada. 


A tradição astrológica que incorpora aproximações com o Tarot costuma associar o arcano 11, A Força, ao signo do Leão. Afirma essa tradição, a meu ver erradamente, que a figura da lâmina traduz uma ideia de controle das forças instintivas pelo lado feminino da personalidade masculina, a chamada anima. A vida instintiva domada pelo eu solar. Alguns atribuem este controle a uma sabedoria, representada pelo chapéu que a figura feminina leva sobre a cabeça, a que chamam de lemniscata.

A figura feminina do arcano 11 tem tudo a ver com a das grandes-mães, figuras típicas do mundo matriarcal, poderoso símbolo que, mesmo depois da vitória do mundo patriarcal, continua presente na vida masculina. A figura me lembra mais a ilustração de uma relação mãe-filho em que ela, invadindo o território da quinta casa astrológica (o da conquista de um eu autônomo), continua a exercer a sua função tutelar. A suavidade da figura feminina, sugerindo compreensão e benevolência, é desmentida pelo seu gesto. Ela força o leão a abrir a sua mandíbula. A mandíbula, lembre-se, é o maxilar inferior, o único osso móvel da cabeça, em forma de ferradura e que se articula com o osso temporal de cada lado do crânio. A boca, dos humanos ou dos

animais, é antes a abertura inicial do tubo digestivo. Entretanto, ela é mais que um orifício por onde passa o alimento, ela permite o ato de falar e é por ela que passa também o sopro vital. A boca, sob muitos aspectos, tem também relação com o seio materno. O que a figura evidencia não é a força do ego. Ao contrário, o que ela demonstra claramente é o poder da grande-mãe, das figuras como Cibele, Ishtar, Isis, Durga e outras. 

Quanto ao chapéu, ele é sempre um símbolo de poder, de soberania e também de uma função, de uma posição social ou de uma atividade. O chapéu que está na cabeça da figura feminina em questão faz parte, ao que parece, de indumentárias femininas
LEMNISCUS
europeias do séc.XVII/XVIII. A palavra lemniscata usada como símbolo da sabedoria me parece despropositada. Lemniscus, em latim, é faixa, fita, galão, atadura. A palavra é um cultismo que entrou em circulação a partir do séc.XIX, designando formas feitas com fitas,  arrumadas na forma de um oito. As fitas, como se sabe, participam normalmente do simbolismo dos nós, prendem, atam, submetem de algum modo. 

Lembremos ainda que o número 11 é um símbolo da desmedida, de excessos, de incontinência, de violência, na medida em que aparece depois do 10, que simboliza um ciclo fechado, completo. Santo Agostinho, por exemplo, o associa ao pecado pela razão apontada (excesso), ligando-o ao perigo, ao conflito e à rebelião. Em antigas tradições, era conhecido como a “dúzia do Diabo”. O número aparece na expressão “ser salvo na undécima hora” (eleventh hour, em inglês), uma alusão à parábola de Cristo sobre os trabalhadores que recebiam salário diário mesmo que tivessem sido contratados à última hora do dia de trabalho. 


SANTO   AGOSTINHO ( PHILIPPE  DE  CHAMPAGNE , 1650 )

Às vezes, o número adquire o significado de início de um novo ciclo, uma renovação, como ruptura do número 10. Algumas tradições judaicas falam em daath, a undécima sephirot, a do conhecimento. Analogicamente, o 11 tem a ver com o 2, mas considerada a experiência da trajetória indicada pelos números precedentes. São muito conhecidos os ciclos de atividade magnética do Sol, num período de 11 anos, que dão origem às manchas solares e cuja influência sócio-psicossomática foi comprovada (em 2.006 um novo ciclo começou).    



Muito mais apropriado ver no arcano 18, o Sol, através das duas figuras infantis, a caminhada do ego que acaba de nascer na quinta casa astrológica. Elas indicam um começo, algo ainda “a ser”, como em Áries, mas, agora, já presentes os dois lados a integrar nessa caminhada, o lado masculino e o feminino da personalidade humana. As imagens das duas crianças são diferentes, uma é mais esguia, a outra é um pouco mais cheia de corpo, tem, levemente, formas um pouco mais arredondadas. É verão, elas pisam a terra, lugar da trajetória humana.

As duas figuras devem ser entendidas, evidentemente, em planos que não o biológico. São crianças (no Tarot de Marselha), ainda não totalmente desenvolvidas, espontâneas, sendo o jogo uma das maneiras privilegiadas  destas formas ainda embrionárias se desenvolverem. Há que se vê-las, sobretudo, animicamente, pensando-se numa combinação dos dois princípios que atuam em todos os seres humanos e também segundo o entendimento que o homem e a mulher não são totalmente masculinos ou femininos. Todo símbolo masculino ou feminino participa do seu oposto. Como a figura sugere, em Leão ainda estamos na “infância” do ego. Há um muro atrás das duas crianças. Muros, de um lado, indicam proteção, segurança, defesa, mas podem significar também, de outro, prisão, fechamento. O valor simbólico desse obstáculo deve ficar subordinado à sua altura. Transpô-lo não será difícil, é baixo. A opção de permanecer ou de ultrapassá-lo terá também a ver, conforme entendo, com os dois pequenos pães, um ao lado de cada uma das crianças, produtos das origens, símbolos do mundo familiar, que deverão ser “ingeridos” antes da partida. O pequeno tamanho dos pães indica, numa leitura astrológica, a proporção e de que modo a quarta casa deve participar na caminhada. Sempre, porém, uma ideia de se incorporá-la, fazer dela algo integrado ao ser que vai buscar o seu caminho. 

O número 19 é também um número solar, tendo a ver com o ciclo dos saros, período compreendido entre a repetição dos eclipses do Sol e da Lua, que totaliza 18 anos, 11 dias e 8 horas. A palavra saros nos veio da Babilônia e lá  queria dizer repetição. Esse ciclo é também conhecido como ciclo metônico. Quem deu nome a ele foi um astrônomo ateniense, Meton (séc.V aC). Ele, certamente com base em informações recebidas dos babilônicos, inventou uma regra de sete intercalações de um mês em dezenove anos no calendário lunar. Esse ciclo tem por base o fato de que dezenove anos lunares, aos quais são acrescidos sete meses, correspondem a dezenove anos solares. Na prática, astrológica isto quer dizer: registrar os contactos das Luas novas a cada mês no mapa, tendo em vista que cada contacto se repetirá dezenove anos mais tarde. Estas Luas novas medirão as oportunidades para se empreender algo de novo no que diz respeito ao ponto que no mapa é tocado. Cada empreendimento deverá se relacionar com o contacto similar dezenove anos antes e será condicionado pelo que nesse período se tenha realizado. Esses contactos de eclipse poderão se constituir em momentos particularmente importantes no ciclo geral da Lua nova com relação ao mapa natal.  



A constelação do Leão estende-se hoje entre 12º de Leão e 22º de Virgem. Ptolomeu atribuiu às duas estrelas da cabeça influências como as de Saturno e Marte, esta parcial. As três estrelas do pescoço atuam como Saturno, com discreta participação de Mercúrio. As que estão no lombo lembram influências de Saturno e Vênus. As das coxas atuam como Vênus e, menos, como Mercúrio. 


CONSTELAÇÃO   DE   LEÃO

A estrela alfa de Leão é Regulus, de 1ª magnitude, hoje a 29º08´, conhecida como Cor Leonis, atuando como Marte e Júpiter. Esta estrela, como já foi dito, era uma das quatro estrelas reais dos
AHRIMAN
persas. Eles a consideravam como a “guardiã do Norte”, ligada ao todo-poderoso rei mítico Feridum. 


A história deste rei merece que nos detenhamos nela um pouco mais porque ela é arquetípica. Na eterna luta entre o Bem (Ahura Mazda) e o Mal (Ahriman), este último conseguiu se apoderar, através da magia, da personalidade de Zohak, príncipe do deserto, que, com isso, obteve muitas vitórias. Uma noite, Zohak teve um sonho: um jovem príncipe o derrotava. Interpretado o acontecimento pelos sábios, Zohak ficou sabendo que esse futuro príncipe de nome Feridum, acabara de nascer e que herdaria o seu trono. Zohak mandou então assassinar todas as crianças recém-nascidas do seu reino. 


AHURA   MAZDA

A mãe de Feridum, uma jovem e sábia mulher, conseguiu contudo salvá-lo. Ela o confiou a um jardineiro que cuidava de um terreno ajardinado onde vivia uma vaca maravilhosa, que alimentou a criança. Jovem, Feridum foi levado.as escondidas, pela mãe, às montanhas do Hindustão, onde passou a viver sob a tutela de piedoso mestre. Tornando-se adulto, Feridum soube pela mãe dos desmandos e crimes do rei Zohak. Depois de muitas peripécias, inclusive participação de seres angelicais, Feridum acabou vencendo Zohak, ajudado por um pequeno grupo de descontentes. Instalando-se no poder, Faridum reinou por muito e muitos anos, sempre proporcionando muita felicidade aos seus súditos. Morrendo muito velho, deixou, forçado, a coroa para seus descendentes, que disputarão desastradamente entre si o reino.

Desde de tempos muito remotos, Regulus sempre apareceu associada a sucesso em posições de mando, honras militares, altos postos em comando, podendo, contundo, atrair agressões e complôs. Regulus, em latim, é diminutivo de Rex, rei, isto é, rei ainda criança ou muito jovem. Às vezes, a palavra toma o sentido de chefe de pouca importância (reinos da África), mas de temperamento tirânico. Em Ptolomeu, Regulus é o equivalente de
CLAUDE   DEBUSSY
( H. DE GROUX, 1909 )
Basilikos


Na Índia, a estrela tem o nome de Magha, a Poderosa, dona da 8ª mansão lunar. Entre os árabes é Malikiy. Entre os romanos, é Basilica Stela. No ascendente a estrela reveste a personalidade de realeza, empurra para o sucesso, para o brilho, mas pode trazer problemas, uma grande (hiper)sensibilidade quando esta realeza não é reverenciada, reconhecida. Um mapa para estudo de Regulus é, por exemplo, o do compositor francês Claude Debussy.

A estrela beta de Leão é Denebola, situada na cauda da figura celeste, hoje a 20º 55´ de Virgem. O nome vem do árabe, Dhanab al Asad. Costuma ser chamada de Deneb. Para Ptolomeu, apresenta características de Saturno e Vênus. Esta estrela tem um forte componente aquariano, podendo levar a pessoa a viver fora dos padrões sociais, afrontando-os, um traço não conformista. Pode colocar por isso a pessoa adiante do seu tempo. 

A estrela gama de Leão é Algeiba, “escondida” na juba, não usada astrologicamente. A estrela delta é Zosma (a cinta ou a cintura, em grego), perto do cauda, hoje a 10º 37´ de Virgem. É uma estrela
JOHN   KENNEDY
( E. DE KOONING, 1963 )
potencialmente perigosa, podendo, conforme o caso, tornar a pessoa vítima de alguma coisa, algo injusto, mas de caráter inexorável, muitas vezes. Na casa em que está, indica possibilidade de abuso, de algum ataque, de alguma violência. Segundo a tradição mitológica, Zosma foi o ponto do corpo do Leão de Nemeia atacado por Hércules. O mapa do presidente americano John F. Kennedy é um bom exemplo para o estudo de Zosma.  

Uma curiosidade que se liga à constelação do Leão é uma chuva de meteoros, denominados Leônidas, que ocorre a cada ano, entre 9 e 17 de novembro, proveniente da região da cabeça da figura. Tal fenômeno se verifica de modo particularmente espetacular a cada 33 anos, tendo ocorrido o último no ano de 1.999. Há notícias dos Leônidas desde a antiguidade. 


LEÔNIDAS