sábado, 17 de junho de 2017

LEÃO (2)

                              
SIBILA  ( LEONARDO  DA  VINCI - 1452 - 1519 )

Apolo substituiu, como se disse, a mântica por incubação pela profética, de inspiração direta. Nesta condição, a sacerdotisa, chamada de sibila ou pitonisa, tomada por uma espécie de furor, um delírio sagrado, era possuída pelo deus, entrando num estado de loucura. Platão dava a este estado o nome de mania. As sacerdotisas, divinamente inspiradas, tornavam-se entheos, possuídas pelo deus. Era um estado não-racional a que se dava também o nome de enthousiasmos.
  
 DELFOS , GRÉCIA
Python era o antigo nome de Delfos, situada na montanha, no maciço do Parnaso, nome também do dragão que guardava o lugar. Historicamente foi, ao que aparece, ao fim do período miceniano da história grega que o deus Apolo venceu as antigas divindades femininas, Geia e
AGONES
Têmis, donas do oráculo. Registros míticos nos informam que por este “crime” Zeus fez seu filho Apolo viver no exílio por oito anos. Para celebrar a vitória apolínea, os gregos celebravam anualmente cerimônias, jogos, os chamados agones, a que davam o nome de Píticos.


Dos agones,  jogos públicos, no mundo mítico, faziam parte concursos musicais, hípicos e esportivos. Tinham um caráter espetacular e eram muito apreciados, conforma nos conta Homero, na Odisseia, como aqueles organizados pelos feácios. No período histórico, os agones tinham sobretudo um caráter fúnebre ou religioso. Uns eram realizados em algumas cidades apenas. Outros, porém, congregavam várias das principais cidades, tomando, neste caso, o nome de pan-helênicos. Nesta categoria se inscreviam os jogos Píticos, os grandes concursos de Delfos, os mais importantes depois dos jogos Olímpicos. 


JOGOS   PÍTICOS  -  CERÂMICA


AULODIA
Instituídos por Apolo, conforme narram os mitos, para comemorar a vitória sobre o dragão, a cada quatro anos, acabaram por incorporar provas musicais e físicas (ginástica, pedestrianismo e pancrácio, isto é,  luta-livre e pugilato), terminando por uma corrida de carros. A parte musical era muito importante. Dela faziam parte a composição de um hino a Apolo, provas de aulética (solo de flauta), de aulodia (canto acompanhado de flauta) e de cítara. Nesta mesma parte, tínhamos concursos poéticos e dramáticos, inclusive de pintura. Tudo realizado muito solenemente, sendo coroados os seus vencedores com coroas de louro, árvore-símbolo do deus.   


JOGOS   OLÍMPICOS   

Sob a tutela de Apolo, a sibila (sibilar é falar sibilando, isto é, emitir sons agudos, contínuos, silvos, como as cobras e serpentes; acentuar as consoantes sibilantes ao falar), sentava-se sobre o banco forrado com a pele do dragão, o pequeno trono profético, a trípode, na condição de entheos. Com as pernas abertas, recolhendo as emanações que vinham das profundezas, que deslizavam e acariciavam os seus órgãos genitais, tomada pelo delírio divino, desatava os seus cabelos, e de sua boca brotavam palavras enigmáticas que depois eram interpretadas pelo colégio sacerdotal do santuário. Apolo substituiu a mântica ctônica, a incubatio de Geia e de Têmis, pela mântica por inspiração.


MÂNTICA

RAMOS   DE   LOUREIRO
A primeira, incubatio, tinha relação com a palavra delphys, útero em grego, lembrando via subconsciente. A mântica apolínea equivalia a uma penetração, que gerava, como em Dioniso, o êxtase e o entusiasmo. A pítia era escolhida entre as virgens locais e ficava servindo no santuário até poder assumir a condição de pitonisa, o que ocorria quando chegava aos
CAMPO   DE   CEVADA
50 anos de idade. A sessão profética começava quando a pitonisa ingeria a água da fonte Cassotis, que dava o dom da profecia; a seguir, ela se dirigia para a cripta do templo do deus, invadido pelos vapores, perfumados pela combustão de ramos e folhas de loureiro e de farinha de cevada. Mascando folhas de louro, ela se instalava então sobre o banco, conforme acima descrito. 

PLATÃO ( DA  VINCI ,  452 - 1519 )
Lembremos que o deus, símbolo de um mundo masculino, aristocrático, usava o elemento feminino, mediúnico, a pitonisa, para poder se expressar. Em virtude dos problemas interpretativos que as sentenças oraculares ocasionavam, Apolo foi chamado, na condição de deus da mântica profética, de Loxias, um epíteto que quer dizer obscuro ou melhor, oblíquo. Lembremos que ao longo dos séculos muitas investigações foram feitas em Delfos para se tentar analisar se o pneuma délfico existiu realmente. A conclusão foi a de que havia na região de Delfos um khasma gês, uma brecha no solo que se comunicava com profundezas subterrâneas insondáveis. O pneuma, as emanações, era uma manifestação da invisível presença do deus. Estas exalações, segundo depoimentos da época, quando envolvia o corpo da Pitonisa, infundiam nas suas almas um temperamento insólito e estranho, uma dilatação e uma expansão que podia levá-las a captar impressões do futuro. Lembre-se, como foi dito, que Platão (Timeo) apresentava a faculdade divinatória como um modo de percepção do futuro que afasta qualquer tipo de raciocínio. 

Desde tempo pré-helênicos, o santuário de Delfos recebeu visitantes não só do mundo grego como de inúmeros países mediterrâneos e asiáticos, da Espanha à Ásia Menor. Enriquecido pelas oferendas, pelas doações e sobretudo pelas elevadas taxas cobradas quando das consultas, além das guerras e dos tremores de terra que o alcançaram, o santuário de Delfos foi pilhado por imperadores romanos como Sylla e Nero. Ainda ao tempo do imperador Adriano (séc.II dC), o oráculo estava em pleno funcionamento. Quando o último imperador pagão, Juliano, o Apóstata (331-363) mandou interrogar a Pítia ela proferiu o último oráculo do santuário, uma sentença que, àquela altura, para o mundo romano tinha um sentido de epitáfio: Ide dizer ao rei que o belo edifício jaz por terra, Apolo não tem mais o seu tugúrio nem o seu loureiro profético, a fonte secou e a água que falava se calou.

APOLO  E  DAPHNE
( G.L. BERNINI , 1598 - 1680 )
O loureiro é consagrado a Apolo. Perseguida pelo deus, que contra ela investia sexualmente, uma ninfa foi transformada pelos deuses nesse vegetal, recebendo o nome de Daphne. Arrependido do seu ato, Apolo lhe concedeu a imortalidade e o usou, como vegetal, para simbolizar a vitória, tanto pelas armas como pelo espírito. No mito, é considerada também uma planta que lembra expiação. Um loureiro nasceu no lugar em que Orestes matou seu pai, Agamemnon, do mesmo modo que Apolo o havia escolhido para expiações depois da morte do dragão que guardava o oráculo de Delfos. A pítia e os sacerdotes de Apolo usavam coroas de louro não só porque elas tinham um perfume muito agradável mas também porque elas lhes permitiam se comunicar com os “espíritos da profecia”, com a luz e com o entusiasmo poético. 


AS   MUSAS  ( BALDASSARI  PERUZZI , 1481 - 1536 )

As Musas faziam parte do cortejo de Apolo como deusas das artes, da música e da poesia. Fazia parte do mundo délfico um grupo de adivinhos chamados Daphnefagos, que ornavam a sua fronte  com ramos da planta e que comiam as suas folhas. Eles praticavam a daphnomancia, a adivinhação pelo loureiro: jogavam-se ramos ou folhas do loureiro no fogo e se eles estalassem o sinal era de bom agouro. A ausência de ruídos significava sempre maus presságios. O loureiro era um equivalente da oliveira enquanto símbolo da vitória e da paz. 

Como emblema da vitória, o louro passou a ser usado por várias tradições, servindo para coroar heróis, poetas e artistas. O costume se estendeu à Idade Média, usando-se o louro para coroar inclusive
ASCLÉPIO
os sábios e os novos diplomados pelas universidades, originando-se dessa prática a outorga do grau de bacharel aos que se formavam. O bacharelado era o nome do grau recebido, vindo a palavra do latim, bacca laurea (baga, fruto do loureiro). O loureiro era muito usado na medicina grega não só como purificador, mas como protetor de maus espíritos e de doenças. No centro médico de Epidauro era um símbolo do deus Asclépio, filho de Apolo.  

CIRCE  ( WATERHOUSE , 1891 )
Quanto à cevada, também usada, símbolo da riqueza e da abundância, lembremos que este vegetal, no mito, entrou na composição do filtro mágico usado pela maga Circe para transformar os marinheiros de Ulisses em porcos. A farinha de cevada era usada em fumigações, tendo a mesma função que o incenso como um instrumento de comunicação com o divino. A adivinhação com a cevada, praticada em Delfos, tinha o nome de alphitomancia Foi inclusive muito empregada na Idade Média para se descobrir o que um homem “tinha no coração” ou reconhecer entre muitos suspeitos o culpado. Em alguns ritos de natureza xamanística praticados em Delfos a cevada era muito usada, para curas, dores corporais etc.

A princípio, como divindade do mundo patriarcal, Apolo apresenta características  solares muito impregnadas de instintividade, de violência, de vingança, de belicosidade, como o atesta o seu primeiro apelido, o Licogenes, o nascido da loba. Matador de dragões, subjugador do mundo matriarcal, sua crônica inicial é cheia de agressividade e de orgulho. Aos poucos, contudo, Apolo vai se tornando uma personalidade cada vez mais complexa, reunindo várias tendências contraditórias, para se tornar, com o tempo, um ideal de sabedoria, de harmonia, a própria encarnação do esplendor grego. Nessa forma idealizada superior, como deus da aristocracia ateniense, Apolo representa a busca de uma ascese, que coloque as pulsões eróticas do ser humano a serviço do eu racional, tudo orientado no sentido de uma espiritualização progressiva. 


APOLO   E   AS   NINFAS  ( FRANÇOIS GIRARDON , 1675 )

Todavia, nem sempre Apolo assumiu esse papel no mundo grego. Operado politicamente pela aristocracia, foi utilizado como um patrono do colonialismo grego, inspirador de aventuras militares e econômicas que acabaram por levar a polis grega à derrocada. Além do mais, os valores apolíneos acabaram por se banalizar através de formas pomposas, solenes e vazias. Ao invés de uma divindade que encarnasse o poder soberano, a força nobre, o calor, o poder irradiante da luz, Apolo, nos momentos de decadência do mundo grego, não era mais que uma figura aloirada, de cabelos encaracolados, apenas esplêndida fisicamente, que servia de modelo de uma beleza masculina, ou melhor, de uma masculinidade algo efeminada, não muito convincente, devido às ameaças inconscientes narcísicas e homossexuais e à sua forte atração pelos espelhos. É desta imagem que sai o adjetivo apolíneo (e o nome próprio Apolinário), aplicado a jovens belíssimos, mas
NIETZSCHE
vazios de mente e espírito. Nietzsche usará o adjetivo para designar estados interiores em que há contemplação da beleza e da harmonia, geradores tais estados de sentimentos oníricos e de fantasias que podem afastar todo o sofrimento humano. Ou seja, a contemplação do belo, apenas sob o ponto de vista físico, que levava a um êxtase que transfigurava o ser humano, aproximando-o do divino. Um sentimento diferente, oposto até, um sentimento muitas vezes de horror e sofrimento que a presença de Dioniso causava como um agente da destruição de formas.

CULTO  A  DIONISO ( MOSAICO )
Na cultura do período helenístico, o apolíneo, sob a influência dos filósofos do estoicismo, provavelmente, será considerado na escultura como uma imagem da serenidade, do controle das paixões. É neste sentido que os cultos apolíneos e dionisíacos se confrontarão, temas que a catequese cristã usará para a sua maior penetração, considerando ambos, Apolo e Dioniso, como figuras do sofrimento.

Uma inevitável aproximação que temos de fazer ao signo de Leão é a do mito de Narciso. Este nome, como a etimologia indica, vem de narke, entorpecimento, embriaguez, uma origem que encontra explicações no fato de a flor produzir um efeito calmante. A história de Narciso tem várias versões. A mais aceita nos fala de um jovem, ainda sem nome, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. O simbolismo dos rios, como sabemos, está sempre ligado a uma ideia de fluência, de mudança de formas, de transformações constantes, através das quais se aponta para a renovação e, ao final, para uma ideia de retorno à indiferenciação, representada pela imensidão oceânica. Na mitologia grega, os rios eram filhos do deus Oceano e objeto de grande culto, a eles se oferecendo sacrifícios que simbolizam a fertilidade, como cavalos e touros. Fecundantes, podiam, no entanto, os rios, de benéficos, fertilizantes, em destrutivos, ao inundar e matar.


NARCISO  ( CARAVAGGIO , 1571 - 1610 )
A criança que nasceu da relação entre a ninfa e o deus-rio, relação não desejada por aquela, era belíssima, uma beleza jamais vista. Por isso, um excesso, uma hybris, uma desproporção que atemorizava e assustava, já que, se não bem controlada tal beleza chamaria inevitavelmente a ação divina. O menino cresceu chamando a atenção de todos, sendo visto, amado, mas jamais amando. A ninfa Eco, que havia sido privada por Hera da linguagem e do pensamento, caiu de amores pelo jovem, mas impotente para chamar a sua atenção. Foi por isso que, em meio a muito sofrimento, acabou, encostada a um rochedo, por se fundir com ele, transformando-se numa voz desencarnada que não podia senão repetir os últimos sons ou palavras que dos outros lhes chegassem. 

NARCISO  E  ECO
A insensibilidade do jovem provocou a ira de outras ninfas que pediram a intervenção de Nêmesis, a divindade que repunha limites, que combatia os excessos, que curvava os orgulhosos. A deusa condenou o jovem a amar um amor impossível. Um dia, à beira de um lago, ele percebeu a sua imagem nele refletida. Era a primeira vez que isto acontecia. Deslumbrou-se. Nunca se havia visto assim, tão belo. Imediatamente, perdeu-se de incontida paixão pela sua imagem refletida na superfície das águas. Ficou ali por um dia, dois, muitos o viram assim, ali sentado. No terceiro dia, não mais o vendo, alguns se atreveram a se aproximar do lago. Ninguém, as margens estavam vazias, o jovem desaparecera. Procuraram-no. Chegaram mais próximos do lugar onde ele estivera sentado. No lugar, apenas, simplesmente, uma flor, a que deram, desde então o nome de narciso. O jovem havia descido à profundeza das águas do lago. 


ECO   E   NARCISO  ( J.W. WATERHOUSE , 1849 - 1017 )

De início, lembremos que esta mesma ideia de perdição pelo perfume de determinadas flores aparece no mito que descreve o rapto de Kore por Hades. Foi atraída por um campo de narcisos,
NARCISOS
pelo perfume embriagador das flores, criação de Geia, que a jovem se viu atacada por Hades e raptada, indo para as profundezas do mundo ctônico, para a sua “temporada infernal”. Lembremos também que os narcisos eram flores muito usadas na Grécia para coroar a cabeça dos mortos, usadas também pelas Erínias, Moiras e pelo próprio Hades. O narciso era uma flor fúnebre, símbolo da morte. As crianças, na
RAPTO  DE  KORE ( LUCA  GIORDANO , 1634 - 1705 )
antiguidade grega, quando morriam eram enterradas com muitos narcisos à sua volta. Muitas vezes considerado como maléfico em sonhos, o perfume da flor era sempre um sinal de mau augúrio. Seu perfume era perturbador, produzia dores de cabeça, enxaquecas, sendo considerado soporífero, sopitava, fazia dormir, debilitava, tornava dormente, amodorrado, tirando a força e a intensidade. Era, por isso, o narciso muito usada na confecção de filtros mágicos.


RAPTO  DE  KORE  ( SÉCULO  IV  AC )

Entretanto, na medida em que cresce na primavera e em lugares úmidos, o narciso se liga ao simbolismo das águas e dos ritmos das estações, isto é, da fecundidade, advindo daí a sua ambivalência: sono-morte-renascimento. O narciso, com o qual se fabricam poções e xaropes, tinha, para os antigos gregos, o poder de favorecer a fecundidade das mulheres. Dormir num quarto onde houvesse um narciso “era muito bom” para facilitar a concepção. Na Ásia, o narciso, na linguagem das flores, sempre simbolizou a sociabilidade, a cortesia e a amizade, que podem ser atraídas pelo seu uso,  seco, junto ao corpo, encostado na pele. 

No mito de Narciso temos, pois, a ideia central de um desespero amoroso. Incapaz de se destacar da sua imagem refletida, o jovem se tornou escravo do seu próprio encantamento. A psicanálise se
ESTÁGIO  DO  ESPELHO
apoderou do tema para descrever o estágio de desenvolvimento psíquico no qual uma pessoa se apega a si mesma e em cima desse apego constrói uma imagem idealizada de sua personalidade. Os lacanianos chamam esta fase na vida de alguém de o “estágio do espelho”, sempre um momento decisivo para a construção de uma personalidade. 

Para Freud, o narcisismo representa uma etapa no desenvolvimento subjetivo de uma pessoa como o seu próprio resultado. A evolução de uma criança, de um jovem, o levará não só a descobrir o seu corpo como, também, e sobretudo, a tentar se apropriar dele, a descobrir que ele lhe pertence. Isto significa que as pulsões deste ser, em particular as sexuais, tomam o seu corpo como um objeto amoroso. A partir desse momento, há um investimento permanente do sujeito sobre si mesmo, ocorrendo uma espécie de retro-alimentação. 

Freud chamou inicialmente o narcisismo de auto-erotismo. Desdobrando-se, este fenômeno pode também levar o sujeito a investir em objetos externos, somando-se este investimento àqueles feitos no nível egoico. Aos poucos, é possível o surgimento de uma outra forma de narcisismo, quando o sujeito deixa de voltar a sua libido exclusivamente sobre si mesmo, levando-a a se concentrar
MELANCOLIA
em objetos exteriores, nos quais vai buscar o seu prazer. O equilíbrio dos narcisistas é sempre frágil, vê-se constantemente ameaçado, pois a sua construção se baseia sobretudo na ideia de um eu ideal. Freud chegou a apontar certas “doenças” que podem atacar os narcísicos. Uma delas é a melancolia. Outra, muito em moda hoje, é a depressão, não apontada por Freud, mas muito presente, já que uma das grandes molas propulsoras do narcisismo é a mania, a excitação, quadro que faz parte, astrologicamente, do eixo Leão-Aquário. Freud, contudo, deu o nome de narcisismo primário ao modelo que investia acima de tudo no auto-erotismo. À segunda forma, o narcisismo que se dirige para objetos exteriores, ele deu o nome de secundário.

Para Freud, a melancolia é uma afecção profunda do desejo, uma psiconeurose caracterizada por uma perda subjetiva específica do próprio eu. Já a depressão leva o próprio eu a uma auto-depreciação e a um auto- desinvestimento radicais. Sob o ponto de vista astrológico, a excitação, de natureza aquariana, que sempre atua no sentido de criar um hiper-eu leonino (somando-se as fantasias netunianas), por razões diversas (distúrbios da vontade, falta de capacidade mental, física, pressões externas, centradas especialmente nos eixos Asc-VII e IV-MC), sempre de caráter limitador, não pode ser atendida, O início deste processo começa normalmente por uma modificação mais ou menos profunda do humor, do mau humor, melhor, no sentido da tristeza e do sofrimento, que pode acabar em quadros clínicos lamentáveis.


HÉRCULES
Um dos personagens da mitologia grega que melhor nos permite entender o signo de Leão é, sem dúvida, Hércules, herói solar que encarnou as melhores virtudes e os piores defeitos do gênio grego. O mais célebre herói da mitologia clássica, suas histórias, muito populares, nunca deixaram de evoluir e interessar, desde a época pré-helênica até o mundo romano, de Homero a Virgílio. Matador de monstros, vencedor de gigantes, salvador de deuses e de princesas, viajante empedernido, fundador de cidades, guerreiro invencível, herói civilizador, generoso, vingativo, crápula, capaz de ações sublimes e de baixezas inomináveis, suicida, símbolo da virilidade e, por isso mesmo, vítima de ataques “femininos” (disfarces femininos, travestismo, e aptidão para lidar com teares). Hércules é arquétipo do herói (grego) por excelência. 

Filho das forças celestes (Zeus) e das forças terrestres (Alcmena), Hércules é por isso chamado de semi-divino, a imagem do impulso evolutivo de natureza espiritualizante e das suas dificuldades. Vivendo em permanente estado agônico, contraditório, pressionado pela sua desmedida interior (hybris) e pelas suas paixões, procurou sempre conciliar tudo isto de algum modo com suas relações mundanas; representa, por isso, sob o ponto de vista psicanalítico, o conflito permanente do psiquismo humano com as forças da dispersão e da regressão. 


Desde a antiguidade, a figura de Hércules, além presente nas lendas e contos que circulavam entre as camadas populares de vários povos, despertou sempre grande interesse em escritores, filósofos, sábios, artistas, poetas, religiosos. Em Homero, ele é o aristos andron. Sófocles, em As Traquínias, nos deixa os momentos finais da vida do herói, a história da sua morte causada por sua mulher, Djanira, segundo as traquínias (mulheres solteiras de Trakhys, confidentes dela), “a ave sem companheiro”. É nessa tragédia que temos a descrição do suicídio apoteótico do nosso herói. Os pitagóricos, os órficos e os sofistas se apoderarão da figura de Hércules para ilustrar as suas doutrinas. Os dois primeiros grupos vendo-o como um exemplo daquele que precisa “sofrer para compreender”. Os sofistas, numa história de Pródico (séc. V aC), muito interessante, colocarão Hércules numa situação
EURÍPEDES
hamletiana, um ser dividido entre o bem (arete) e o mal (kakia), segundo um texto que tem por título Hercules in Buio (Hércules na encruzilhada). Eurípedes, com o seu teatro das paixões e fazendo inversões cronológicas na vida do herói, usou-o  como tema de sua tragédia Herakles Mainomenos (Hércules furioso). Tendo descido ao Hades (décimo trabalho: captura de Cérbero, o cão infernal), Hércules voltou para encontrar a sua família ameaçada de morte por Lykos, tirano de Tebas. Matou Lykos, mas possuído por Lyssa, a deusa da Raiva, exterminou a mulher e os filhos. Será salvo do desespero por Teseu. Seu sanguinário delírio assassino foi o preço que ele teve de pagar por ter ousado enfrentar as potências infernais. Movido por intensos sentimentos nacionalistas durante os primeiros anos da guerra entre Atenas e Esparta, Eurípedes escreveu Heraclidas, ou Os Filhos de Hércules. Visitou um terreno temático que não era seu. A tragédia, tanto pelas omissões do texto, que nos chegou algo estropiado, como pela falta de propósito artístico é uma das mais fracas do cânone do famoso autor trágico.

HIPÓCRATES  E  GALENO
Hércules sempre se apresentou como um herói paradoxal. De um lado, um campeão do bem, generoso, piedoso, de outro, um ser sempre ameaçado pela loucura, aético muitas vezes, com taras e miasmas inexplicáveis, pois nele tudo é superlativo, grandioso. Hipócrates e Galeno, médico grego o primeiro e o segundo de Pérgamo, da Sicília romana, diante do seu comportamento extravagante, diagnosticaram a epilepsia como o seu principal problema, moléstia que, segundo eles, atacava o corpo e a alma ao mesmo tempo. Outros consideram que o comportamento do herói tem como causa uma forma do paludismo (malária) mediterrâneo. Evidentemente, a corrente médica que defende o diagnóstico da epilepsia é a mais acatada, pois os gregos a consideravam como uma doença sagrada. 

Patrono dos esportes (sua prática favorita era a luta, modalidade olímpica), fundador dos jogos olímpicos e dos jogos nemeanos, deve-se a Hércules a escolha das coroas para premiação dos vencedores, oliveira e aipo, respectivamente. O aipo era usado também nos jogos Ístmicos, lembre-se. Planta aromática, os gregos a usavam o aipo para simbolizar a juventude alegre e triunfante. Nas cerimônias fúnebres, prometia um estado de juventude eterna,
COROA   DE   OLIVEIRA
ao qual o morto devia ter acesso. Já a oliveira, como símbolo, reúne ideias de vitória, força, inteligência, paz, purificação, recompensa, eternidade, consagrada também na Grécia a vários deuses. Passa por ter sido “inventada” por Palas Athena, que, por isso, conquistou o direito de divindade tutelar de Atenas. A oliveira era também de Apolo, na sua condição de deus da Luz. Em algumas versões sobre a sua origem, a oliveira, até então inexistente, teria surgido quando o porrete que Hércules usava (sua arma predileta) foi enterrado, depois de sua morte. 

HÉRCULES  E  LEÃO  DE  CITERON
O leão aparece na história de Hércules em dois momentos. Primeiramente, ele está presente quando da efebia do nosso herói, Aos dezoito anos ele matou o leão de Citeron. Depois de esfolar o animal, Hércules passou a usar a sua pele como proteção, constituindo-se ela, desde então, no  principal signo distintivo de sua iconografia. A cabeça do animal ele a usará como um elmo. O animal aparece também no seu quinto trabalho, cujo cumprimento o levou a enfrentar e matar o famoso leão de Nemeia (Bosque da Lei), que tudo destruía. Por esta razão, para glorificar o seu filho, Zeus colocará o leão entre as constelações do Zodíaco.


HÉRCULES
O ciclo de Hércules se estendeu por toda a Grécia e a leste e a oeste (Ásia e ocidente europeu), seguindo as rotas de expansão do colonialismo e do comércio gregos. Além das significações religiosas, filosóficas, políticas, Hércules, como personagem, é sempre uma figura viva, humana e contraditória moralmente, características que sempre lhe asseguraram uma grande popularidade ao longo dos séculos.








sábado, 20 de maio de 2017

ISAAC & KRONOS

                                                                                                         Geralmente, dá-se o nome de complexo a um lugar de condensação na nossa interioridade onde represamos sentimentos e representações parcial ou totalmente inconscientes, com enorme carga afetiva. São núcleos, agregados, ajuntamentos de conteúdos psíquicos que não chegando ao nosso consciente navegam de modo autônomo na nossa interioridade. Muitos desses núcleos não têm a devida consistência para se fazerem sentidos. Podem, contudo, ganhar corpo, formando uma espécie de segundo eu, dividindo-nos. Um outro eu que pode tomar diversas formas. Adquirem, nesse caso, vida própria, tornando-se bastante ativos, impondo-se muitas vezes à nossa vontade, podendo mesmo destruir nossa noção de identidade.

SANTUÁRIO   DE   EPIDAURO  ,  GRÉCIA

Os gregos antigos, através dos seus mitos, já haviam notado a importância desse fenômeno. Perto de Atenas, no santuário médico de Epidauro, do deus Asclépio, o deus-toupeira, os sacerdotes que lá viviam, dentre outros procedimentos terapêuticos que adotavam
ASCLÉPIO
para dissolver ou descarregar a energia assim represada no psiquismo dos pacientes que os procuravam, praticavam a chamada nooterapia, com o auxílio da oniromancia (interpretação dos sonhos), dentre outras técnicas. Estas terapias tinham não só a finalidade de curar as mentes doentes como de reformar o homem por inteiro, psíquica e fisicamente, através de várias atividades e controles (canto, dança, teatro, esportes, cuidados alimentares etc.). O objetivo último era o de provocar nos que lá se internavam a metanoia, a transformação dos sentimentos represados, que como agentes mórbidos eram não só os causadores de muitas doenças do corpo físico como de muitos distúrbios na vida psíquica. Cura? Só com a destruição ou transformação dos sentimentos. 

A partir de fins  do século XIX, com a retomada das terapias do psiquismo, afastados, ainda que com muita dificuldade, os preconceitos religiosos e da ciência oficial, aos complexos foram sendo nomes de vários personagens do mito, da religião e da literatura. Através desses nomes definiram-se comportamentos, padrões de conduta, formando-se uma espécie de demonologia, que, em grande parte, passou dos confessionários para os consultórios médicos . Os exemplares desse universo estão nos mitos de diversas culturas. Muitos os chamam de arquétipos, modelos de comportamento, há muito forjados, que se impunham. Arche, em grego, é palavra que lembra superioridade, comando, anterioridade, poder, precedência; typos é marca impressa num corpo, em alguma coisa. Arquétipo, numa tradução livre, é o poder do antigo, do que foi forjado há muito tempo.

Os exemplares desse universo estão nos mitos, nas lendas, nos contos, em histórias antiquíssimas, fazendo parte de tradições às vezes esquecidas ou perdidas, encontrados em todas as culturas. Sua origem é muito discutível. Partiram de um tronco único? Ou cada sociedade os fabricou? O que parece mais aceitável é que esses padrões de comportamento aparecem como símbolos a partir de um modelo original. Conforme o contexto social em que aparecem, são atualizados  simbolicamente em cada momento histórico, como se disse, pela arte, pela literatura, pelo teatro, pelo cinema.

O revestimento básico desses padrões de comportamento, na cultura ocidental, é dado, na sua maior parte, pela mitologia grega, não se excluindo deste predomínio o fato de outras tradições e culturas terem colaborado para dar vida a outros modelos. Os complexos constituem um entrave na vida de qualquer pessoa, criando sempre muitos obstáculos para o pleno desenvolvimento de sua personalidade. Sociedades muito rígidas, de características acentuadamente puritanas, por exemplo, favorecem muito o aparecimento de complexos. 

ABRAÃO E SARA
Este é o caso do chamado complexo de Isaac, que aqui abordamos. O nome do filho de Abraão e de Sara, Isaac, deriva do verbo rir. Os pais o tiveram já velhos, daí o riso quando anunciado o seu futuro nascimento. Deus testou a fidelidade de Abraão (10 testes). Um dos testes foi o de que ele deveria oferecer o filho tão aguardado ao sacrifício.

Segundo a tradição bíblica, Abraão era um respeitado patriarca e grande astrólogo em sua terra (Ur, Mesopotâmia). Quando tinha 75 anos foi visitado por Deus. Recebeu ordens para abandonar sua casa e seus pais e partir em direção de uma terra que Deus lhe mostraria. A expressão bíblica que traduz este acontecimento é Lech L´echa (Vai por ti mesmo). Seguindo em direção de Canaã, com sua esposa Sara, seu sobrinho Lot e companheiros convertidos à sua fé monoteísta, Deus lhe prometeu, dentre outras coisas, uma descendência numerosa, tão numerosa quanto as estrelas do céu, como está no texto bíblico.

Quando Abraão chegou aos 99 anos, Deus lhe apareceu novamente
ANÚNCIO DO NASCIMENTO  DE  ISAAC
para ratificar com ele e seu povo sua aliança eterna. Ordenou Deus que ele se circuncidasse, um símbolo da referida aliança, prática a ser mantida por todos os seus descendentes. Como a tradição revela, foi a partir desse acontecimento que Abraão se tornou perfeito, que o nome de sua mulher, também muito idosa, foi mudado de Sarai (minha princesa) para Sarah (princesa de todas as nações), e que se anunciou para breve o nascimento do filho tão desejado. Assim aconteceu, nascendo Isaac.

SACRIFÍCIO DE ISAAC
( REMBRANDT )
Homem cheio de devoção e benevolência, Abraão foi submetido então por Deus a vários testes para que, através deles, desse demonstração de sua fé. O seu último e mais difícil desafio, como a Torá revela, era o do sacrifício de Isaac. Conhecemos os detalhes da viagem do pai e do filho, então com 25 anos, para o local do sacrifício, o monte Moriá. No último momento, porém, quando Abraão estendeu a mão para cortar a garganta de seu amado e dócil filho, surgiu o arcanjo Gabriel e, detendo-o, salvou Isaac. Akedá é como os judeus chamam este teste de obediência, também designado por alguns pelo nome de teste da amarração. No lugar de Isaac foi colocado um cordeiro, animal sacrificial por excelência.
 
PESSACH  ( MARC  CHAGALL )

O carneiro, como se sabe, representa o princípio solar viril, luminoso, ligando-se o seu simbolismo ao ciclo das estações. Na tradição judaica, cristã e muçulmana o animal torna-se a vítima sacrificial do período do Pessach, da Páscoa e do Ramadã, inclusive entre os povos védicos. Adotado especialmente pelos cristãos, o animal representa o Messias, o Verbo divino. Sempre associado a ritos de fertilidade, ele aparece associado à primavera, à chamada festa equinocial da primavera, enquanto a festa do bode tem relação com a festa das colheitas. 


CHOFAR  
Lembremos que bem antes de Abraão, o primeiro patriarca judeu, o carneiro já aparecia como símbolo astrológico-religioso. O chofar, pequena trompa feita com chifre de carneiro, já era empregado em rituais religiosos e ainda é usado em sinagogas ao fim do Yom Kipur (dia do perdão), antes e durante o Rosh ha-Shana (ano novo). 

No cristianismo, o Pessach tomou o nome de Páscoa, comemorativa da ressurreição de Cristo. O concílio de Niceia (325) a fixou no primeiro domingo depois da primeira Lua cheia seguinte ao equinócio da primavera. Esta festa sempre foi celebrada por
LES  PÂQUES  ( MARC  CHAGALL )
todas as tradições, não só judaicas ou católicas. Entre os saxões, por exemplo, foi Eastre, deusa da primavera e do renascimento da natureza, que deu origem à palavra easter, páscoa, em inglês. Esta deusa tinha o coelho por atributo. As fogueiras da Páscoa simbolizam a vitória da luz sobre as trevas (o retorno do Sol). Os antigos germânicos acendiam suas fogueiras em homenagem a Thor, que lhes trazia de volta a primavera. Extintas as fogueiras, as cinzas eram recolhidas e lançadas sobre os campos, a fim de se torná-los férteis. Esta ideia de fertilidade se associa também ao costume da distribuição de ovos na Páscoa, símbolo do renascimento periódico da natureza.

A tradição narra que, como sacrifício alternativo, Abraão colocou no lugar de Isaac um carneiro, animal que aparece como suporte simbólico de numerosos mitos ao representar as forças indomáveis e criadoras da natureza, o instinto de procriação que assegura
SACRIFÍCIO  DE  ISAAC  ( CARAVAGGIO )
continuidade da vida. O que se sabe quanto a Isaac, é que após a traumática experiência da akedá, ele se retirou da vida mundana, mas ficou com sérios problemas nos olhos por ter olhado o céu e visto Deus enquanto estava amarrado no altar de sacrifício. Além disso, seus olhos foram também afetados pelas lágrimas de chorosos anjos, apiedados de sua sorte quando da cerimônia. 

SIGNO DE ÁRIES
Sob o ponto de vista astrológico, não há como se negar que a história de Isaac esta repleta de símbolos arianos. Áries é o signo do Carneiro, marcado pela entrada do Sol, a cada ano (hemisfério norte), a 21 de março, nessa constelação. Áries é o signo que marca o
despertar da natureza, a passagem do frio ao calor, da escuridão à luz. Lembremos, por outro lado, que o carneiro entre os muçulmanos está na relação dos dez animais admitidos por Maomé no paraíso. A divindade védica Kubera, guardiã dos tesouros e das riquezas da Terra, aparece cavalgando um carneiro divino, sua montaria (vahana).  


KUBERA

Só a partir dos 99 anos o patriarca dos judeus teve o seu nome mudado de Abram para Abraham, de ab, pai, e ram, elevado. Isto aconteceu no período de sua vida em que a fertilidade lhe foi prometida. A letra H, introduzida no seu nome significa abundância, enquanto o outro A traz uma ideia de reforço do aspecto criativo. Ambas as letras, sob o ponto de vista do estudo simbólico dos nomes próprios e de suas relações com números, têm o valor de 8 (colheita) e de 1, a unidade, o ponto de partida da criação, que acrescentada ao 8 perfazem o 9, número da procriação. 

Quanto a Isaac, lembre-se, segundo o mesmo estudo acima mencionado, que a letra A é sempre considerada como um ponto de partida da energia que vai ordenar o caos, a dispersão, sendo por isso considerada um atributo divino. Já o radical ish, que aparece em nomes como Ísis, Israel, Ismael, Isaías, Moisés e muitos outros, lembra homem, ish, em hebraico, o homem nas suas relações, tanto por semelhança como por intimidade com o divino. No latim bíblico, Isaac tem origem hebraica, do verbo itshak, ele ri. 


ABRAÃO  EXPULSA  AGAR  E  ISMAEL  ( 1657 ,  IL GUERCINO )

Isaac foi o primeiro judeu a ser circuncidado no tempo certo (oito dias depois do nascimento). Para desfazer boatos sobre seu nascimento, Isaac foi criado de modo a que se parecesse o máximo possível com seu pai. Por exigência de Sara, Ismael (Deus escuta, em hebraico), o filho que Abraão tivera com a escrava Agar, foi expulso da casa juntamente com a mãe. Depois de errarem pelo
BEDUÍNOS
deserto, Agar e Ismael receberam a visita de um anjo que os conduziu a um poço onde o Senhor anunciou a Agar que de seu filho nasceria uma grande nação. Seus descendentes seriam chamados de filhos do vento. Nômades e livres, eles tomaram o nome de beduínos (de badw, deserto) por se considerarem os únicos descendentes diretos de Ismael. Isaac se casou com Rebeca e se tornou pai dos gêmeos Esaú e Jacob, dando-se continuidade à história judaica. Morreu Isaac em Hebron aos 180 anos. Foi sepultado na gruta de Machpelá. Na tradição cabalística, Isaac representa o aspecto do julgamento severo de Deus (lado esquerdo). 

Diante do exposto e das preciosas informações que retiramos da "insólita Bíblia" (tradução francesa e comentários de André Chouraqui, 1917-2007),   o tema do complexo pode ser explicitado. Isaac é o arquétipo dos filhos aos quais os pais transferem os seus problemas para que estes os assumam ou paguem por eles; o filho que passivamente se coloca à mercê do pai, que procura lhe impor uma profissão ou fazê-lo seu herdeiro profissional; caso do descendente que deve assumir deveres ou responsabilidades paternas sem se revoltar. O patriarca hebreu, Abraão, é, nesta perspectiva, um ser cruel, orgulhoso, dominador, um ser da separação que rejeita o amor à posteridade, apesar de tudo o que os textos da ortodoxia judaica defendem contrariamente. 

Alguns textos rabínicos nos informam que Isaac tinha 37 anos quando se submeteu ao pai, deixando-se amarrar no altar do sacrifício. A história da akedá é lida na liturgia como lembrança de
ABRAÃO , 1786
( A. VERONESE )
uma forma de devoção dos patriarcas a Deus e da compaixão divina com relação a Isaac. Em Rosh ha-Shaná (festa de ano novo), além das referências à akedá, sopra-se um chofar como lembrança do carneiro que foi usado por Abraão como sacrifício alternativo. Na Idade Média, Isaac tornou-se o símbolo do martírio judaico. A morte de crianças judias pelos pais por causa da perseguição cristã ou pelo batismo forçado foi inspirada pela akedá de Isaac, acompanhada sempre da esperança da ressurreição. 

Ao longo da história cultural da humanidade, a história de Abraão e de Isaac foi interpretada e usada de diversos modos. Hegel, antes de Freud, viu no Deus dos judeus a imagem da própria natureza de Abraão, um patriarca cruel, egoísta e orgulhoso. Dominador,
TOMAS MANN
Abraão é um ser da separação; seu desprezo pela humanidade leva-o a rejeitar um dos sentimentos mais profundos do ser humano, o amor à posteridade. De um modo geral, inclusive na visão de escritores modernos que se valeram do tema, como Kierkgaard, Marcel Proust, Alfred Döblin e Thomas Mann, Isaac é o exemplo da vítima consentida, escravo do Pai, ser do silêncio e da submissão. 

O complexo de Isaac apresenta variadas nuances. Podemos encontrá-lo no mundo da realeza, nos casos de Luís XV e Luís XVI. No mundo empresarial, temos muitos exemplos de filhos que não têm a mínima vocação para herdar a situação paterna, mas que acabam por aceitá-la (estão diariamente na TV e nos jornais do mundo todo). Na política, os casos abundam e costumam ser
FAMÍLIA   MOZART
lamentáveis, quando não patéticos. Entre os profissionais liberais de sucesso são notáveis os exemplos do complexo de Isaac, isto é, de filhos que herdaram escritórios e clínicas famosos. Um exemplo histórico de como não funcionou o complexo foi o de Mozart, ainda que Leopoldo, o pai tentasse impô-lo ao jovem Wolfgang. O pai pretendeu fazer com que ele, desde a infância, “entrasse” no complexo. Só que Mozart era imensamente maior do que o papel que o pai queria lhe impor. 


EDUARDO  E  MRS.SIMPSON
Há casos, porém, em que o filho parece não aceitar passivamente a imposição do pai, do sistema que ele representa. Um dos maiores exemplos de alguém que parece ter se recusado a “entrar” no complexo foi Eduardo VIII, rei da Inglaterra e da Irlanda. Abandonou o papel, abdicando, para poder se casar (escândalo!) com uma norte-americana divorciada, Mrs. Simpson. A literatura poderá ser também uma boa fonte para o estudo dos casos deste complexo, Eça de Queirós, Balzac, Turgueniev e muitos outros mais.

KAFKA ( WANDY  WARHOL )
Uma das mais interessantes possibilidades de estudo de complexos centrados na figura paterna (de Kronos, do sucessor ou do herdeiro), além do de Isaac, está em Kafka. Aos 36 anos, ele escreveu ao pai, o comerciante judeu Hermann Kafka, uma longa carta (cerca de cem páginas manuscritas, depois transformada em um pequeno livro), jamais enviada. Nela, nosso escritor descreve todo o seu ressentimento com relação à autoridade paterna. Um texto fascinante, no qual o pai é chamado ora de tirano, de regente, de rei e mesmo de Deus (se quiser, veja neste blog o artigo Kafka e a Barata).

O complexo de Isaac, sucintamente descrito, é aquele que  tem como figura central o pai, que nele aparece como símbolo do poder fecundante, da posse (direito de vida e morte) sobre sua descendência e do domínio absoluto sobre o destino dela. Neste sentido, lembra sempre a instância ordenadora dos valores do filho, funcionando como seu censor e juiz. 

SATURNO   DEVORANDO  SEUS  FILHOS
( FRANCISCO  DE  GOYA  Y  LUCIENTES )

A maioria dos poetas, especialmente Hesíodo, sempre considerou a Idade do Ouro, que coincidiu com a reinado de Kronos, como algo muito favorável para os humanos. Na realidade, porém, Kronos foi um soberano incapaz de admitir qualquer modificação nas estruturas e na ordem concebidas por ele. Neste sentido, ele sempre lembrou um conservadorismo cego, obstinado, uma perfeição

estagnante se quisermos, decorrente de suas atitudes com relação à sua necessidade de concentração de poder, da sua rigidez e de eliminar qualquer forma de sucessão. Este é, para mim, o caso de Kafka, que, a seu modo, conseguiu superar o massacre a que o Pai o submeteu. 
Outro caso exemplar, do filho que supera a enorme pressão paterna, é o de Gavino Ledda, cuja história foi transformada pelos irmãos Taviani numa obra-prima cinematográfica: Pai Patrão (ver neste blog artigo sobre este filme).

Resumidamente, o complexo de Kronos pode assim ser descrito: nenhuma possibilidade de independência para o filho. Por outro lado, acomodado às regras do Pai, o filho nunca sabe viver de outro modo. Recusa-se mesmo a perder aquilo que o Pai instituiu. Neste sentido, é que Kronos se torna o poder da tradição, o poder dos mais velhos, da autoridade consagrada pelo tempo. Tudo isto, no mito, atropelou os que viviam na Idade de Ouro, fixando-os num tipo de comportamento que levava a um progressivo apagamento do eu, acorrentados que ficavam a um destino de frieza e de isolamento.

Ao complexo de Kronos damos também o nome de complexo do sucessor ou do herdeiro. A sua outra face. Nos tipos mais comuns, temos os casos dos que jamais se sentem à altura do Pai. Daí a sua defensividade, o seu temor, a dúvida e, o pior, o seu eterno autoquestionamento. É por isto que Saturno, na Astrologia, é representado muitas vezes pela imagem de um velho que carrega uma foice numa das mãos. É por essa razão também que Saturno é conhecido como o planeta da melancolia, um estado mórbido caracterizado por um grande abatimento moral e físico, hoje considerada nos meios técnicos como uma das fases da psicose maníaco-depressiva ou distúrbio bipolar.


SATURNO

O complexo de Kronos, sobretudo com a contribuição astrológica, sugere ideias de frieza, secura, desenxabimento, que sempre aparecerem associadas às figuras do velho (senex negativo), do ancestral, do pai, do órfão e a posturas, atitudes ou características que lembram limitação mortificante, memória incomum, retiro, buscas mentais profundas, erudição, solidão, uma noção permanente de pesos e medidas (pondus et mensura), esterilidade. Com o complexo de Kronos sempre presente também a ideia de canibalização. Isto é, o eu é devorado. Uma das mais perfeitas ilustrações do que aqui se coloca é a tela de Goya, Saturno devorando os seus filhos. Simbolicamente, associa-se o complexo de Cronos a tudo aquilo que lembra apagamento, aniquilação, autocrítica negativa, frustrações afetivas.