terça-feira, 23 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (3)

                  
SAGITÁRIO
VITRAL DA CATEDRAL DE CHARTRES
A flecha sagitariana, em muitas tradições astrológicas, cortada por um pequeno traço de modo a se introduzir no símbolo do signo uma cruz, nos remete a ideias de transcendência e de totalização com relação aos planos terrestres. A cruz, é bom lembrar, se liga, acima de tudo, ao simbolismo do quatro e, como tal, está na base dos quatro pontos cardeais, que determinam as nossas possibilidades de orientação espacial no planeta Terra. Quanto à dimensão temporal, seus braços, ao dividir o círculo em quatro partes, quadrantes, apontam para os eixos equinocial e solsticial, para um tempo circular, o do ciclo anual com os seus quatro sub-ciclos.    


FLECHA   DE   SAGITÁRIO
A cruz na flecha de Sagitário nos indica de modo indiscutível que a transcendência proposta pelo signo será sempre a da ultrapassagem do nível ou do limite existencial em que o homem se encontra. Não sugere este símbolo, ainda que seja Sagitário considerado com o signo das religiões, uma transcendência em “direção do céu”, de uma ordem extraterrena. O homem, na ordem zodiacal, que a perspectiva sagitariana confirma, é sempre um ser a se fazer e a se refazer aqui, na terra, entre os outros homens. Sagitário não propõe uma transcendência em direção de um absoluto que esteja fora do humano, mas de um absoluto sempre entendido com relação ao próprio homem. O homem será, então, sempre, aquele que tem a se fazer a si mesmo constantemente. É em Sagitário que o homem começa aprender a conquistar uma dimensão espiritual, a ir além de si mesmo e da sua vida social, a caminhar em direção da humanidade (de Aquário e de Peixes). Antes, porém, terá que vencer a prova da montanha com relação aos significados de Capricórnio.

ILUMINURA   MEDIEVAL  ,  SÉCULO  XI

O que está acima acredito será suficiente para se entender que o tempo da astrologia deve ser considerado ciclicamente, como o fizeram os antigos astrólogos gregos e   védicos e não linearmente, como o viram os astrólogos medievais. A noção de que  a astrologia e, consequentemente, Sagitário têm a ver com o tempo linear é produto do pensamento judaico-cristão e foi introduzida já no início da Idade Média com a vitória das religiões patriarcais. A
HORÓSCOPO  NA  TORRE  DOS  MOUROS , VENEZA
concepção linear do tempo o entende como uma sequência irrepetível e irreversível de eventos que vão se encaminhando para um determinado fim, em direção de uma divindade transcendente. Transcendente, neste sentido, refere-se a uma realidade que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão ao apontar para um criador distinto da sua criação.  A concepção circular zodiacal nos indica claramente que no universo tudo está em permanente devenir e sujeito a um eterno retorno.   


CENTAURO   KIRON   ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 ) 

O fogo sagitariano não se liga tanto à ação (Áries) ou à individuação (Leão) mas, sim, estando já o mundo natural no seu declínio (outono, quase inverno), liga-se a uma ideia de que, com ele, o homem poderá ir além de si mesmo. Esta transcendência, pelo lado da flecha, sempre significará, nos tipos evoluídos, uma espécie de transporte espiritual, um fogo que tanto fale de purificação como de iluminação e sagração. Lembremos que o terceiro signo do terceiro quadrante indica que o social está chegando ao fim e que o coletivo está para começar (quarto quadrante). Nesta etapa, o distante começa a triunfar sobre o próximo. Com Sagitário chegamos ao fim da trindade do fogo. Se em Áries, ele é movimento visceral, se em Leão ele é a expansão do eu e a sua magnificência, em Sagitário ele será a decantação espiritual, a iluminação do espírito, pela qual o instinto e o ego devem ser ultrapassados. 


KIRON
Para uma melhor compreensão do signo de Sagitário, no cenário acima descrito, importante será não se perder de vista a polaridade entre Kiron e Ixion. Essa polaridade permite que, para fins práticos, seja possível definir os dois tipos humanos básicos do signo, consideradas as dominantes elementares de cada caso: do lado do primeiro, Kiron, temos ideais de sabedoria, de luz interior, o que lembra uma certa nobreza no trato das questões práticas; presente muitas vezes um espírito idealista,
SUPLÍCIO  DE  IXION, 330 aC
embora, pelo lado ígneo do signo, o entusiasmo e a falta de paciência com detalhes possa ocasionar até problemas mais sérios quanto à continuidade da ação. Do lado do segundo, Ixion, de início, uma observação que me parece muito adequada aos sagitarianos “ixiônicos”. Há neles, no eu visível, em maior ou menor grau, um certo teriomorfismo equino, muitas vezes visível por um rosto impregnado de tristeza, a refletir a grande pressão da vida instintiva, animal, sobre possíveis aspirações à transcendência. 




BELEROFONTE   E   A   QUIMERA  ( MOSAICO )

Além disso, há a considerar que o tipo “ixiônico” parece guardar muitas marcas do signo anterior, nele predominando um lado animal, mais “escuro”, menos consciente, enquanto no primeiro tipo, inspirado por Kiron, o aspecto humano, mais iluminado, costuma se revestir de impulsos ascensionais mais firmes. Da história dos centauros é que vêm para os do signo, onde o lado animal prevalece, traços como a irracionalidade, a insolência, a falta de domínio dos sentidos. Para aqueles que muitas vezes  julgam ter alcançado o terceiro nível do signo, comuns a falsa autoconfiança, a presunção, que a história do herói Belerofonte talvez descreva melhor do que qualquer outra.

É a partir deste ponto que podemos também definir, de outro modo, como fizemos com relação a Ixion e Kiron, dois grandes tipos do signo, complementares àqueles: o introvertido, que enxerga longe, e o extrovertido, que tem a paixão dos caminhos, a necessidades dos largos horizontes. Um é vertical (angulação de 45º), o outro se projeta só no horizontal. O que fica claro para nós, a partir destas cogitações, qualquer que seja o tipo sagitariano, é que as conexões próximas com o mundo, estabelecidas através de Gêmeos (signo oposto ao de Sagitário, que governa o mental inferior e as pequenas viagens), se ampliam na direção das conexões de longo alcance (grandes viagens) ou com a finalidade de integrar o social e o espiritual. Com relação a estes, supera-se a individualidade, sendo possível chegar-se ao metafísico. O ser se unifica pela correta compreensão dos seus três níveis: o animal (instinto) se submete ao racional e este se põe a serviço do espiritual, como já foi dito.


KIRON , MESTRE  DE  AQUILES
As cinco grandes artes ensinadas por Kiron a seus discípulos foram a Hípica, a Cinegética, a Mântica, a Agonística e a Iátrica, entendidas tanto literalmente como metaforicamente. A Hípica é, numa palavra, a arte de dominar cavalos. Metaforicamente, como se disse, será a arte do domínio do psiquismo inconsciente, das forças obscuras que “vivem” na interioridade do homem, que o animal simboliza. Se o cavaleiro não for mestre da montaria, ele será “conduzido” pela besta,  cavalgado pelo seu psiquismo inconsciente, se transformando num “cavalo”.


MISTÉRIOS  DE  ELÊUSIS
Nos cultos dionisíacos, como nos mistérios de Elêusis, dizia-se que os seus adeptos eram cavalgados pelo deus, sendo essa uma das razões pela qual há nas religiões de mistério e nos cultos das Grandes-Mães tantas figuras hipomorfas. Os sátiros, os silenos, as mênades, as figuras e personagens ligados a cultos orgiásticos ou nos quais a vida inconsciente domina a consciente, costumam ter nomes em cuja composição entra frequentemente o radical hipo ou hip: Hipólito (filho de Teseu e de Antíope, amazona); Hipe (filha de Kiron, raptada por Éolo); Hipo (jovem beócia, filha de Cédaso); Alcipe (filha do deus Ares); Melanipo (filho do deus Ares), Hipocoonte (envolvido em lutas pelo trono de Esparta), Hipodamia (princesa de Pisa, na Elida), Hipóloco (filho de Belerofonte) etc. 



BATALHA   DAS   AMAZONAS

Uma das histórias da mitologia grega mais ligadas a cavalos é a das Amazonas. Certas passagens da crônica dessas guerreiras deixaram lembrança na vida dos povos. A de Pentesileia (a que luta e sofre por seu povo, etimologicamente), filha do deus Ares, rainha das
AQUILES E PENTESILEIA
J.H.W. TISHBEIN, 1751-1829
mulheres guerreiras, é uma das mais notáveis. Depois da morte de Heitor, ela seguiu para Troia para lutar ao lado dos troianos contra os aqueus. Muito corajosa, excepcional guerreira, sempre deu demonstrações de muita bravura nos campos de batalha. Enfrentou Aquiles de igual para igual, mas morreu ao ter o herói aqueu trespassado o seu seio com uma lança. Diante da bravura de Pentesileia e de sua beleza, Aquiles se comoveu muito, chegando às lágrimas. Um de seus companheiros, Tersites, covarde e atrevido, ao tentar ridicularizá-lo pelas lágrimas derramadas diante do corpo de Pentesileia e além do mais tendo procurando desfigurá-la, foi morto a socos pelo nosso herói.

Outro exemplo, é o de Antíope, irmã de Hipólita, rainha das amazonas. Vencida por Teseu (sexto trabalho de Hércules), por ele será desposada, da união nascendo Hipólito (etimologicamente,
STRABON
aquele que libera os cavalos), mais tarde enteado de Fedra, iniciado nos cultos de Ártemis. Digno de registro é o fato de que todos os heróis gregos que lutaram contra essas guerreiras se impressionarem muito com elas, pela sua capacidade de luta, pela sua beleza, inclusive a elas se unindo muitas vezes. O famoso geógrafo Strabon (58 aC-25 dC), que muito estudou a origem dos povos da antiguidade, deixou registros sobre elas. Fala de várias gerações de mulheres belicosas que lutavam a cavalo, vivendo ao norte da África, na Líbia. Abandonando a vida nômade, passaram a viver na ilha da Samotrácia, ilha grega do mar Egeu.

Com efeito, as amazonas sempre foram consideradas como as primeiras cavaleiras da História. Extremamente hábeis, elas pareciam fazer um só corpo com as suas montarias, percorrendo as estepes ao norte do mundo grego, embriagadas de liberdade. Traços dessas mulheres podem ser encontrados na Europa, na região do Cáucaso e na Cítia, na Ásia Menor, e principalmente nas margens do mar Negro. 


AMAZONA  ( ESCULTURA  EM  MÁRMORE )
Grandes caçadoras, vivendo da pilhagem, habilíssimas no arco e na lança, uma vez por ano “encontravam-se” com homens, por elas raptados, a fim de garantir sua sobrevivência. As meninas que nasciam desses relacionamentos eram educadas para se tornarem futuras amazonas. Os meninos eram devolvidos ao mundo masculino ou mortos, raramente sobrevivendo. Atribuem-se a elas a fundação de muitas cidades e de templos, especialmente o de Éfeso, na costa da Ásia Menor, dedicado a Ártemis, deusa muito cultuada por elas, templo considerado uma das sete maravilhas do mundo, incendiado por Erostrato em 365 aC. Há registros de que elas teriam invadido e se apoderado da cidade de Troia, perecendo nos combates então travados a sua rainha, Marpessa.

CAVALARIA  MEDIEVAL
Como afirmamos em Sagitário (2), desde a antiguidade grega  que o aspecto noturno do cavalo, como símbolo do psiquismo descontrolado do homem, veio sendo atenuado, suavizado. Um grande esforço aconteceu nesse sentido já nos primeiros séculos da Idade Média quando a cavalaria medieval passou a ser considerada como um código de honra de uma aristocracia marcialmente orientada. Floresceu mais esse entendimento entre meados do sécs. XII e XVI. Seu estudo à luz da astrologia é muito importante para uma compreensão mais rica e abrangente dos valores sagitarianos.

A influência religiosa da Igreja católica foi muito grande sobre o mundo da cavalaria. Com sua ação, a Igreja católica procurou mudar a noção do chamado comportamento cavaleiresco. Procurou ela conter de algum modo o ímpeto guerreiro, dando um outro sentido às virtudes da bravura e da coragem, tornando o cavaleiro mais gentil, menos violento, trazendo ideias de respeito pela vida e da dignidade humana, até mesmo em ocasiões de envolvimento com inimigos mortais.


TORNEIO   MEDIEVAL

Nesse período, outro elemento que se inseriu fortemente na história cavaleiresca foi o feminino. As mulheres passaram a frequentar como espectadoras os torneios, as justas que começaram a se realizar. As ideias do cavaleiro servir à sua dama se firmam, ganhando elas uma expressão literária, as chamadas produções do amor cortês, do qual passa a fazer parte uma grande quantidade de símbolos, lembranças e emblemas femininos que o cavaleiro levava consigo ao partir para as suas viagens e aventuras. O ideário cavaleiresco da época (séc.XIII) procurou fixar, dentre as obrigações do cavaleiro,  quatro principais: a) repudiar o falso julgamento e a traição; b) honrar as mulheres; c) assistir à missa diariamente; d) jejuar às sextas-feiras.


LA   DAME   À   LA   LICORNE

Um dos documentos básicos medievais, de grande expressão artística, no qual o cavalo e a mulher aparecem associados é a famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne, já mencionada. Essa peça é formada por seis tapeçarias confeccionadas entre os sécs. XV e XVI, para Jean Le Viste, um importante magistrado da época. Em cada uma das seis grandes partes do conjunto, sob um fundo azul de millefleurs e de animais, uma jovem mulher é representada, cercada por emblemas heráldicos, notadamente um leão e um licorne (unicórnio). O conjunto, hoje no Museu de Cluny, forma uma a alegoria sobre os cinco sentidos, apresentando a sexta parte a inscrição à mon seul désir, que podemos traduzir como segundo meu livre arbítrio, ou seja, sem submissão aos sentidos.

O licorne é um animal fabuloso, que possui o corpo de um pequeno cavalo branco, com um chifre, a cujo simbolismo sua imagem parece se ligar de modo especial. Símbolo fálico, o chifre evoca aqui ideias de fecundação espiritual no plano humano, no plano da matéria. Ctônico e infernal na origem, o cavalo se torna branco, solar, passando ele a simbolizar aqui o controle dos sentidos pela intervenção do feminino. A inspiração é grega, como a encontramos na história do corno da abundância, criado por Zeus, a partir dos chifres da cabra Amalteia). A Igreja católica, na Idade Média, encampou a lenda do unicórnio com a conotação de que esse animal fabuloso só poderia ser capturado por uma virgem, o que deu à história e às suas representações um sentido religioso, enaltecendo-se sempre o mundo feminino e a sua pureza. 

O cavalo, como vimos, na figura do centauro, simboliza a parte
KIRON  ( VASO  GREGO )
instintiva, o potencial energético, que deverá ser encaminhado para fins elevados. Toda esta simbologia transforma, sem dúvida, a figura do centauro Kiron numa das mais belas imagens criadas para representar a trajetória evolutiva do animal ao homem superior. O grande alcance desta representação se amplia se lembrarmos que, segundo a astrologia, as partes do corpo humano têm relação com os signos. As coxas (região coxo-femural) são exatamente o lugar onde se concentra a energia dos nativos do signo de Sagitário, área corporal de extrema importância para os cavaleiros, na medida em que envolvem as ilhargas do animal, região do abdome e das costelas.

A mitologia grega nos deixou várias histórias de heróis e de suas montarias, histórias que, se interpretadas à luz da astrologia, nos oferecem muitas ilustrações sobre o mundo sagitariano. Uma delas, muito instrutiva, é a de Belerofonte, acima mencionado. Como ocorre com muitos heróis gregos, Belerofonte tinha dois pais, um divino e um humano. Seu pai divino era Poseidon, deus dos oceanos e dos mares. A mãe chamava-se Eurínome, uma princesa, filha do rei de Mégara. Seu pai humano era Glauco, este por sua vez filho Sísifo, o inteligente e esperto rei de Corinto, conhecido como o mais inescrupuloso dos mortais, um herói que se transformou num dos maiores  criminosos da mitologia.



PÉGASO, PALAS  ATHENA  E  BELEROFONTE ( J. BOECKHORST , C.1680 )  

Da casa real de Corinto, Belerofonte, depois de inúmeras aventuras, feitos e malfeitos, conseguiu, com o auxílio de Palas Athena, domar Pégaso, o que lhe deu condições de praticar excepcionais atos heroicos como o de matar a Quimera, pavoroso monstro, de vencer  um povo selvagem, os Solymos, filhos de Ares, e suas aliadas, as Amazonas, e de eliminar os piratas que infestavam as costas da Cária.  Casado, com filhos, reconhecido como herói, tudo parecia ir bem, vivendo nosso herói, reverenciado por todos. Sem que ninguem explicasse, um certo dia, tomado por imensa e incontrolável hybris, tentou Belerofonte, montado no Pégaso, invadir o Olimpo, na esperança de conquistar a imortalidade. Desconhecendo o seu metron, tentou ultrapassar limites que nunca deveria ter rompido. Fulminado por Zeus, foi devolvido à Terra. Zeus não o matou, porém. Fez com que sobrevivesse, rebaixado, humilhado e esquecido por todos, perdido, a perambular pelos caminho da Terra. Sua morte não é registrada pelo mito. 

CONSTELAÇÃO
Quanto a Pégaso, foi ele colocado nos céus na forma de uma constelação boreal, numa região situada entre o final de Aquário e o início de Áries. Influencia essa constelação os humanos principalmente através de sua estrela alfa, Markab, predispondo-os a um comportamento ambicioso, vaidoso, entusiasta, caprichoso, mas falho quanto às suas avaliações. Os gregos, como se sabe, têm um ditado: Os deuses enlouquecem aqueles a quem querem perder. Tomar um lugar entre os olímpicos, torna-se imortal, desposar Hera? Mais outro: Quanto maior a ambição, maior a queda. Belerofonte sonhou alto demais, foi além do seu metron, um dos maiores pecados sagitarianos. 

Evidentemente, os discípulos de Kiron eram exímios cavaleiros. No entanto, pelas lições do centauro-mestre, aprenderam também que a Hípica por ele ensinada dizia mais respeito ao controle da sua vida interior do que propriamente à sua habilidade com os animais. Foi a partir destas lições de Kiron que Asclépio, como deus médico, pode desenvolver no seu santuário de Epidauro conceitos como o  de nooterapia (terapia da mente), que levava à metanoia  (transformação de sentimentos), conceitos sempre associados, por exemplo, dentre outras práticas, à oniromancia (interpretação dos sonhos).

Inseparável do homem como montaria por milhares de anos, esta dialética noturna e diurna do cavalo, lunar e solar, se quisermos, se fixou simbolicamente no funcionamento da sua vida psíquica. Para que o animal se tornasse solar, celeste, cabia ao cavaleiro assumir o seu controle, adquirindo uma técnica ensinada por Kiron. Na antiga
USHAS
índia, lembre-se, este cavalo solar era chamado de asha, palavra que significa percuciente, perspicaz, penetrante, numa referência ao poder que tem a luz de penetrar e clarear tudo. Asha era palavra usada também com o significado de desejo e espaço. É por essa razão que os Ashwins (nome do signo de Gêmeos), os Dioscuros védicos, mestres cavaleiros, na astrologia hindu, vêm montados a cavalo, trazendo consigo, Ushas, a deusa da aurora, uma ilustração da transição das trevas para a luz. 

Outra arte ensinada por Kiron aos seus discípulos era a cinegética, a arte de caçar com cães. Participando de um rico universo simbólico, o cão, dentre as suas múltiplas funções, trouxe da pré-história para o mito a de guia psicopompo, guia do homem na noite da morte depois de tê-lo acompanhado à luz do dia. Temos registros em muitas tradições de cães que quando da morte de seu dono foram sacrificados para ajudá-lo a encontrar o bom caminho na vida depois da morte. O dom de clarividência que o cão tem, a sua familiaridade com as forças invisíveis, fez dele um companheiro inseparável do caçador, um farejador, um indicador de trilhas que levam à boa caça. 

TAROT
A moderna psicologia liga o cão ao processo da individuação do ser humano considerando-o como representante do primeiro estágio da sua evolução psíquica. Na astrologia e no Tarot encontramos estas mesmas ideias, já abordadas neste blog, no item constelações austrais, nos tópicos referentes às constelações do Cão Maior e do Cão Menor. A arte cinegética que Kiron ensinava aos seus discípulos é, se a iluminamos com a astrologia, metaforicamente evidente: é a arte de caçar oportunidades de crescimento. 

A cinegética de Kiron tinha por objetivo maior, além de elevar as pressões do lado animal, possibilitar ao discípulo a aquisição de um mental superior que o pusesse em contacto com o mundo espiritual. Um mental  que tanto o ajudasse a discriminar como decidir quanto  ao rumo de suas ações, de modo que cada uma delas pudesse beneficiá-lo, mas que isto não significasse a perda da perspectiva espiritual, ou seja, a de que o Todo (as pessoas e o mundo natural) fosse igualmente ou até mais favorecido. O ensinamento de Kiron respondia a objetivos que valorizassem a vida espiritual, interesses muito diferentes daqueles a que se entregava a humanidade, sempre desejosa de satisfações passageiras, presa a insaciáveis prazeres sensíveis. 


DHANUS
Crescer no sentido aqui colocado tanto poderá significar progresso material, conquista de posições mundanas como, sobretudo, se quisermos melhorar realmente o mundo em que vivemos, buscar conhecimentos moralmente orientados para inspirar nossas ações. É neste sentido que a cinegética de Kiron se aproxima muito da visão que os antigos povos védicos tinham de Dhanus (Sagitário). 

Para tanto será preciso considerar que conhecimento deve ser informação processada e transformada em experiência pelo indivíduo. Como atividade intelectual, a aquisição de conhecimentos é processo através do qual, em função da informação recebida, questionamos, indagamos, relacionamos e comparamos as coisas do mundo. Só assim o conhecimento poderá ser acrescentado a um repertório individual que tanto eleve intelectualmente o homem como o espiritualize.  

Onde obter conhecimentos hoje? Lembremos que atualmente, se nos restringirmos aos conceitos urano-geminianos vigentes, baseados sobretudo na renovação constante das informações em função de critérios de obsolescência  programados pelo Mercado,  com um instrumental tecnológico adrede preparado, pouco ou nenhum tempo teremos para criticar e assentar as informações, a fim de transformá-las em conhecimento, e muito menos distribuí-las como sabedoria. Este é hoje um perigo que, como nunca aconteceu antes historicamente, ronda o homem moderno, incentivando-o a passar os seus dias e noites digitando computadores, tablets, notebooks e smarts etc sem nenhuma noção de quem seja Kiron com as suas flechas.

É preciso lembrar que Sagitário propõe um estágio de desenvolvimento através do qual podemos ativar nossas energias vitais num grau máximo de expansão e mobilidade. Visão ampla,
CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO
alargamento de níveis de consciência, pulsações criativas, viagens físicas, mentais ou espirituais, exploração de novos meios de expressão. Tudo isto nos é indicado nos céus se sabemos olhar para  a constelação do centauro Kiron, que parece apontar a flecha para a estrela Antares, o coração vermelho de Escorpião, ao mesmo tempo em que parece, com as suas estrelas, se abrir para uma enorme nuvem estelar, composta de milhões de sóis, a nuvem mais luminosa da Via-Láctea, e também para gigantescas nebulosas e massas escuras de poeira cósmica.






segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (2)

                                                  

KIRON  E  A  MÚSICA
O mito que melhor explica o signo de Sagitário para a cultura ocidental é o do centauro Kiron,  como os antigos gregos o elaboraram, com base certamente nas influências recebidas dos mesopotâmicos. Antes, porém, é preciso entender que Kiron, como tantos outros monstros, faz parte da galeria de estranhos seres bicorpóreos produzidos pela imaginação humana,  que encontramos em todas as culturas. Monstros são sempre símbolos das dificuldades e dos obstáculos que o homem deve vencer para ter acesso a certos bens e/ou a níveis superiores de vida, seja material ou espiritualmente. Sempre
MONSTROS , ILUMINURA   MEDIEVAL ,  SÉCULO XIV
associados à vida primordial na Terra, os monstros míticos são seres de um mundo que antecedeu a organização do cosmos, um tempo em que a ordem ainda não se impusera aos seus elementos constitutivos, um tempo anterior ao da História. Nesse sentido é que os monstros, onde aparecem, lembram sempre regressão, indiferenciação, indeterminação, confusão,  como agentes do caos. Significam sempre uma perturbação, uma perversão, uma resistência à ordem, um desejo de voltar a um estado que antecedia o mundo conhecido como obra dos deuses e dos homens. 

O SONHO DA RAZÃO PRODUZ MONSTROS
( FRANCISCO  DE  GOYA , 1746 - 1828 )
Produzidos pelos excessos e descontroles da imaginação criadora dos homens, a faculdade que que eles têm de representar seres ou coisas ausentes, os monstros “vivem” no psiquismo dos homens, invadem a sua consciência, anulando ou distorcendo o que se entende por vida racional. Seja pela memória, pelo hábito, pelos sonhos, por  desejos recalcados ou por complexos, essas entidades vêm, ao longo de  milênios, dando provas de seu poder, da sua ineludível presença na vida dos seres humanos.

Todas as sociedades humanas sempre procuraram estabelecer o que devia ser entendido por seus membros como essencial para a sua sobrevivência, principalmente sob o ponto de vista moral, das suas relações, do seu convívio, em termos de sentimentos, ação e razão. Conceitos como humano, humanidade, humanismo, vida comunitária, por exemplo, pedem limites  bem definidos. Comportamentos que afrontam ou que contrariam esses conceitos, baseados em práticas e valores diferentes, devem ser desestimulados, condenados, proibidos. 

Na história da humanidade, um dos meios mais eficazes para falar de comportamentos socialmente nefastos, condenáveis, que atentem contra a ordem estabelecida, foi o de compará-los com exemplos retirados do reino animal, considerados totalmente contrários àqueles que são esperados de um ser humano normal. Daí se caracterizar, de uma maneira no geral muito simplista  até, como animal, bestial, esses comportamentos, como se houvesse uma fronteira perfeitamente definida entre a vida instintiva e a vida racional.


CAPITEL  ROMÂNICO  FRANCÊS
IGREJA  DE  ST. PATRICE, NIÈVRE
O comportamento animal diz respeito ao que se denomina vida instintiva. Instinto é impulso para agir que independe da razão. No animal, tem caráter compulsivo e nele costumamos distinguir três características: é inato, uniforme e específico a cada espécie. Já quanto ao ser humano, a vida instintiva apresenta bem maior complexidade: depende do temperamento de cada um, da sua inteligência, do seu nível de consciência, e da maior ou menor pressão por ele sentida com relação às regras sociais.

É preciso lembrar que nenhuma outra fonte iconográfica proporcionou ao homem tantas possibilidades para ele estabelecer o seu universo simbólico como o animal. Poucas são as qualidades e peculiaridades humanas que não podem ser representadas pelo mundo animal. Os mitos, as religiões e mais perto de nós a psicologia sempre procuraram representar o simbolismo da vida instintiva, do inconsciente, da libido e das emoções valendo-se sobretudo de exemplos colhidos no mundo animal. 


MONSTROS   DE   BESTIÁRIO   MEDIEVAL


CENTAURO
Na mitologia grega, os centauros fazem parte de um grupo de monstros bicorpóreos, formados por uma parte humana e por uma parte animal. Representam assim a permanente ameaça da vida instintiva à vida racional. Na sua parte superior, pelo ser humano, possuem cabeça, tronco e dois braços; na parte inferior, pelo cavalo, possuem a genitália animal, quatro pernas e patas.  Concupiscentes, lúbricos, os centauros mais conhecidos, viviam em bandos, alimentavam-se de carne crua, eram barulhentos e gostavam do vinho, embriagando-se facilmente, entregues sempre às mais baixas paixões.


POSEIDON   E   ANFITRITE 
O cavalo, na mitologia grega, foi “inventado” pelo deus Poseidon quando disputou com Palas Athena a tutela da polis ateniense. Conta o mito que o povo da cidade optou pela “invenção” que a deusa lhe ofereceu, a oliveira, rejeitando a oferta do deus dos oceanos. Dentre as várias possibilidades significativas que o cavalo adquiriu, uma das mais importantes foi a de se considerá-lo como um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas, a sexual sobretudo, paixões que se não controladas podem levar o homem à destruição. É com este sentido, por exemplo, que ele aparece nos bestiários medievais como um ser da impulsividade, da impetuosidade dos desejos, das pulsões instintivas que acometem o homem. Esta associação do cavalo com as forças obscuras que atuam no psiquismo do ser humano, visualiza-o sempre como uma encarnação da libido negativa que se opõe a qualquer tentativa de controle. 

É de se lembrar que algumas línguas, como a francesa e a inglesa, encerraram  na designação que deram a sonhos angustiantes, os pesadelos, essa relação entre o cavalo e as forças obscuras do inconsciente. O pesadelo, como se sabe, é um sonho  aflitivo que nos oprime, como se algo (a pata de um cavalo) pressionasse o nosso peito, podendo afetar a nossa respiração, causando inclusive perturbações respiratórias, dispneia. Em francês, pesadelo é cauchemar, palavra formada pelo verbo cauchier (calcar, oprimir; calcare, em latim) e por mare, palavra oriunda de antigas línguas europeias nas quais tinha tanto o sentido de besta, animal, cavalo como de fantasma noturno). Para os ingleses, a mesma coisa: pesadelo é nightmare, que podemos traduzir como a opressão noturna do cavalo. 


PÉGASO  ( JAN  BOECKHORST , 1604 - 1668 )

Apesar desta visão negativa do cavalo aparecer com muito ênfase nas tradições mítico-religiosas e artísticas, não podemos esquecer que foram os próprios gregos que também viram o animal positivamente. Esta versão positiva do animal, que recebeu o nome de Pégaso (nome que lembra fonte, em grego), tem na sua origem uma história na qual aparece o  próprio deus Poseidon, que o gerou ao se unir à Medusa. Aparecendo como um animal em tudo diferente dos centauros, Pégaso é, no mito, tanto montaria de heróis como um símbolo de elevação, da imaginação criadora e fonte da inspiração poética. 


HIPOCRENE ( JOOS  DE  MOMPER , O JOVEM , 1564 - 1635 )

Branco e alado, rápido como o vento, só poderia ser montado por heróis. Ao escoicear o flanco do monte Helicon, fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), de cuja água podiam se beneficiar os artistas para a sua inspiração. Para que isto acontecesse, porém, os artistas, como os heróis, deveriam ter o domínio completo da sua montaria, isto é, ser donos de uma tekhne (técnica) perfeita. Sem esta, Pégaso lançava ao solo tanto cavaleiros como artistas despreparados. 


LA  DAME  À  LA  LICORNE, 1484 -1538
Em muitas tradições, depois, lembre-se, na esteira da grega, temos o registro da transformação do cavalo num símbolo positivo, como, por exemplo, o encontramos na famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne. No início da Idade Média, o cavalo adquiriu um status de nobreza, uma aura solar. Apesar de continuar trabalhando nos campos e de simbolizar a impetuosidade dos desejos, associado à vida inconsciente, sua imagem consagrada neste período é a que o considera como a montaria do guerreiro, do cavaleiro, do caçador, sempre valorizado positivamente pelas ordens de cavalaria que se fundam em vários países da Europa.      

Agrupam-se os centauros na mitologia grega em duas famílias. Uma delas está relacionada com a história de Ixion, filho do deus Ares, rei dos lápitas, um povo da Tessália. Insolente e falastrão, para se casar com a bela Dia, Ixion prometeu ao pai da jovem, Dioneu, que o cumularia de presentes, uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, nada de presentes, porém. Ao reclamá-los ao genro, Dioneu foi assassinado por ele, que lançou o corpo do sogro num poço cheio de carvões em brasa. Ocultando o acontecido, falso e hipócrita, Ixion passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram rudes criadores de cavalos e mercenários. Violentos e cruéis, viviam nos maciços montanhosos ao norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos de seus personagens, do deus-rio Pneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), de Mopso e de muitos outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.


O assassinato de Dioneu acabou sendo descoberto e levou os lápitas a investigar outros crimes cometidos por seu rei, todos desvendados. Ixion foi afastado do trono e expulso do seu reino.Tornou-se um ser errante, um nômade, por todos amaldiçoado. Zeus, que do alto tudo via, compadeceu-se inexplicavelmente de seu neto, chamando-o para viver no Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por imensa hybris, ousou Ixion cometer um crime muito mais grave do que aqueles que cometera em sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor. 

ZEUS  E  HERA ( PETER - PAUL RUBENS , 1577 - 1640 )

Cientificado do fato por Hera, Zeus mandou confeccionar com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, chamando Nephele (nuvem, em grego). Ixion caiu no engodo. Unindo-se sexualmente com o simulacro da deusa, tornou-se pai de uma grande ninhada de centauros, machos e fêmeas, despachados para viver na Terra, chamados desde então de ixiônidas. Para castigar o insolente Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois o mandou para o Tártaro, o mais profundo do mundo infernal, para que, até o final dos tempos, ficasse amarrado com serpentes a uma roda incandescente ali a girar. Alguns poucos mortais que visitaram o Hades, contam que Ixion, preso à roda, grita dia e noite: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão. 

KRONOS    E   FILIRA
( PARMIGIANINO , 1503 - 1540 )
O outro grupo familiar onde encontramos centauros é o que tem por origem a relação que Kronos manteve com uma jovem e belíssima oceânida, que passou à história com o nome de Filira (nome grego da tília, árvore-símbolo da amizade). Kronos uniu-se à jovem sob a forma de esplêndido garanhão, já que ela, para fugir dele, tomara a forma de uma égua. Dessa união, nasceram vários centauros, totalmente diferentes dos ixiônidas. Gentis, pacíficos, eram amigos dos deuses e dos humanos. Dentre todos, porém, destacava-se um, inteligentíssimo, ao qual foi dado o nome de Kiron (do grego, kheir, mão), “o que trabalha com as mãos”.

Além dos dois grupos familiares mencionados acima, temos que fazer referência também a um outro centauro, pela sua participação indireta na morte de Kiron. De nome Folo, filho único de um sileno e de uma ninfa melíade, este ser, nascido como centauro, era
NINFAS   E   SÁTIRO
pacífico. Silenos participam do mito como companheiros envelhecidos do deus Dioniso, fazendo parte de seu séquito. As melíades, nascidas do sangue derramado de Urano, quando de sua castração por Kronos, são ninfas dos freixos, árvores que fornecem uma madeira especial pela qual os heróis gregos têm especial predileção para a confecção dos cabos de suas lanças. Vivendo na Arcádia,  Folo recebeu Hércules quando nosso herói para lá se dirigiu para dar cumprimento ao seu sétimo trabalho, a captura do javali de Erimanto. 

Certa vez, quando em visita à Terra, o deus Dioniso, hospedado por Folo, deu-lhe uma botija de precioso vinho, recomenando que só a abrisse quando Hércules passasse pela região. Lembrando-se da recomendação do deus, mas, ao mesmo tempo, sabendo que se abrisse a botija os centauros ixiônidas que por ali viviam  invadiriam a sua gruta, relutava em fazê-lo. Precipitando-se, Hércules rompeu o lacre da botija; imediatamente, os ixiônidas, com grande algazarra, invadiram a gruta, tentando arrancá-la das mãos do nosso herói. Reagindo, Hércules matou alguns, pondo-se a perseguir outros que fugiram. Ao retornar, Hércules encontrou Folo agonizante. Ao sepultar diligentemente os centauros que nosso herói matara, uma das flechas, que eram envenenadas, acidentalmente desprendeu-se e o atingiu na perna. Hércules esperou que Folo morresse, preparando-lhe um funeral magnífico.

Pesarosa, diante dos monstruosos filhos que tivera, a jovem oceânida rejeitou-os e pediu aos deuses que a metamorfoseassem, sendo ela então transforma
POTNIA   THERON
da numa tília. Kronos, por seu lado, entregou Kiron a Ártemis e a Apolo, os deuses da Lua e do Sol, respectivamente, para que eles se encarregassem de sua educação. Como preceptora do infante Kiron, Ártemis assumiu diante dele o seu aspecto “oriental”, o de Potnia Theron, a Senhora das Feras, divindade protetora de todas as crias, filhotes e rebentos do mundo animal, protetora de tudo o que entrava na vida, mas que devia aprender que vida pede desapegos, como um passar, um fluir, um devenir constante.


ÁRTEMIS
Embora a corça seja o seu animal predileto, que está sempre ao seu lado, Ártemis nos lembra que em razão de seus imutáveis condicionamentos instintivos, a corça não “sabe passar”, não sabe adaptar-se a situações novas que tem de enfrentar. É, nesse sentido, instinto puro e, como tal, tem que ser sacrificada. Não é preciso se fazer muito esforço para perceber o quanto dessa educação pode ser aplicável aos seres humanos que não sabem construir uma personalidade autônoma nem nela integrar hábitos, atavismos e os comportamentos herdados, de modo a transformá-los  em algo seu. É por isso que a Lua, como se sabe, sob o ponto de vista aqui expresso,  encarna astrologicamente a anima, o princípio feminino, maternal, passivo, as trevas do inconsciente. Rege, por isso, os temperamentos linfáticos, digestivos, receptivos, marcados por forte instinto de conservação, sempre voltados para a calma, para vida protegida, a ser vivida dentro de fronteiras seguras.

A Ártemis de que falamos aqui nada tem a ver com aquela que os creto-micênicos veneraram como deusa da fertilidade do solo e da fecundidade humana. Esta deusa que aqui relacionamos com Kiron é chamada de Elafieia, a que massacrava corças e veados, no festival de Elafebolion, realizado anualmente em março, no qual, em alguns lugares da Grécia, se praticavam os ritos do diasparagmos (despedaçamento das vítimas ainda vivas) e da omophagia (consumo da carne e do sangue do animal sacrificado).


APOLO , KIRON , ASCLÉPIO

Quanto a Apolo, como deus da luz e da harmonia, transmitiu ele a Kiron que um ideal de sabedoria que só poderia se realizar pelo controle das pulsões, dos desejos humanos, pela via racional, e por sua progressiva orientação a caminho, sempre, de uma crescente espiritualidade. Faziam parte desse ideal apolíneo também os ensinamentos complementares referentes à ética, à mântica profética, à medicina, à leitura do céu e às artes em geral, com destaque especial para a música,  

Apolo explicou a Kiron, sob o conceito de inteligência, todo um conjunto de funções (sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, razão e consciência) que lhe permitiram racionalmente compreender todas as relações entre os seres e as
KIRON , TAPEÇARIA  MEDIEVAL
coisas do mundo. Assim o fazendo, incutiu-lhe Apolo todo um ideal de sabedoria que, no homem, se realizaria por sua caminhada em direção de uma espiritualização progressiva pelo alargamento cada vez maior do campo da sua consciência. Um ideal de sabedoria no qual a vida instintiva e a razão, aquela devidamente iluminada por esta, se ajustariam para que ambas, cada uma no seu nível, se tornassem servidoras da vida espiritual, uma concepção ternária que o próprio Kiron emblematizava com o seu corpo híbrido e com o arco e a flecha que Apolo lhe pusera nas mãos. 

Aqueles que não sabiam “passar, que continuavam apegados às influências das suas origens, inteiramente presos à vida instintiva, não sabendo integrá-las a um eu novo que teriam que construir na sua caminhada,  Ártemis os “matava” impiedosamente. Era nesta condição que a deusa aparecia como cruel, sanguinária, bárbara, em vários cultos como o do Elaphebolion. 


APOLO   E   MUSAS

Como aconteceu também com relação à dupla personalidade de Ártemis, a personalidade apolínea que se relacionou com Kiron foi a do deus como venerada na Ática, a de uma magnífica figura, representada pelo Sol e pela luz civilizadora, sendo neste papel conhecido ele pelo nome de Apolo Musagetes (condutor das Musas), divindade tutelar de todas as artes. Não foi como uma divindade dórica, ligada à vida castrense e às aventuras colonialistas, honrado nos acampamentos militares, o violento, vingativo e temível Toxoforo (Arqueiro), que Apolo assumiu a educação de Kiron. Foi como um deus ático, ateniense, que ele transmitiu a Kiron um conhecimento que refletia um ideal de beleza e de progresso, representado pelo arco e pela flecha, por ele oferecido ao centauro, um símbolo complexo, do qual fazem parte, na perspectiva apolínea, ideais de separação e de libertação por um domínio em que se harmonizassem, uma servindo à outra, a vida instintiva, a vida racional e a vida espiritual. 

Kiron, do grego kheir, mão,  o que trabalha com as mãos, com os ensinamentos recebeidos de Ártemis e de Apolo, tornou-se um ser muito diferente dos seus congêneres ixiônidas. Sábio e prudente, amigo dos deuses e benfeitor dos humanos, era muito conhecido como médico, cirurgião, herborista e terapeuta, além de profundo conhecedor de todas as artes. Logo se tornou o tutor de um grande número de filhos de deuses e de futuros heróis. Vivendo num gruta do monte Pelion, casado com Cáriclo (a de grande beleza e renomada, etimologicente), oceânida, foi pai de três filhas, Hipe, Endeis e Ocírroe,  e de um filho, Caristo.

Passaram pela gruta de Kiron, como seus discípulos, além de  outros, os Discuros (Castor e Polideuces); Aquiles, o fremente; Hércules, cuja amizade lhe seria fatal; Jasão, o chefe da expedição dos argonautas; Ulisses, o polimetis; Meleagro; Acteon; Amphiaraos, o duplamente maldito; Diomedes. Dentre seus discípulos, merece referência especial Asclépio, filho de Apolo, que se tornaria a maior divindade médica da Grécia no grande santuário de Epidauro.


PELEU , AQUILES  E KIRON
Foi Kiron, por exemplo, quem deu sábios conselhos a Peleu para que ele cortejasse e se unisse a Tétis,para que dessa união nascesse Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. Foi Kiron quem preparou o calendário de que se serviram os argonautas para a sua viagem à Cólquida, além de orientá-los com relação à posição dos astros no céu. Consta que Kiron, com os acordes de sua lira, curava muitas doenças e que pelo conhecimento da influência dos corpos celestes prevenia os homens quanto às suas influências nefastas. Muito se poderia dizer sobre a vida de Kiron e do quanto ajudou mortais, heróis e deuses. As informações mais detalhadas que temos sobre ele estão registradas em Apolodoro (Biblioteca Mitológica) e Apolônio de Rodes (Argonáutica).

A morte de Kiron se deve a uma fatalidade, ligada diretamente à  morte do centauro Folo, acima relatada. Hércules,  ao perseguir  os brutais e selvagens centauros que fugiram da gruta de Folo, disparou uma flecha que, trespassando o coração de um deles, de nome Elato, atingiu acidentalmente Kiron na coxa. O sangue dos centauros, como se sabe, é um veneno contra o qual não havia antídotos. A flecha envenenada não matou Kiron, pois tinha em seu corpo um lado imortal, como filho de Kronos. Isto não impediu entretanto que as dores o atingissem, causando-lhe  muito sofrimento ao seu lado mortal. Diante dessa aflitiva situação, Hércules propôs um acordo a seu pai divino, Zeus: que Kiron cedesse o seu lado imortal ao titã Prometeu, condenado a padecer eternamente por ter roubado o fogo dos céus e tê-lo entregue aos humanos. 

Acorrentado nas montanhas do Cáucaso por ordem de Zeus, um abutre gigantesco destruía diariamente o fígado do titã, que se recompunha à noite quando a monstruosa ave se afastava. Zeus afirmara que só o libertaria se um imortal cedesse a sua imortalidade a ele e fosse para o Hades, o reino dos mortos. Aceita a proposta, Kiron foi liberado de seu sofrimento e pode assim morrer tranquilamente. Para homenagear o desprendimento de Kiron e para que o seu exemplo jamais fosse esquecido pela humanidade, Zeus colocou o centauro-mestre nos céus, com o arco e a flecha nas mãos, como a constelação de Sagitário, a nona do círculo zodiacal.


CONSTELAÇÃO   DE   SAGITÁRIO

Desde então a constelação de Sagitário é representada pela mítica imagem do centauro, com um arco e uma flecha a ser disparada nas mãos. Muitas vezes, porém, ao invés da imagem do centauro, em algumas tradições astrológicas, já na antiguidade, a constelação era representada apenas por uma flecha, disposta de modo a formar um ângulo de 45º com a base da figura, o melhor ângulo para se atingir a máxima distância.  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (1)


SAGITÁRIO  ( BOLONHA, SÉCULO XIII )
                                          
Nas antigas tradições astrológicas da Ásia, o signo de Sagitário sempre foi representado por uma flecha ou por uma flecha e um arco. Nomes que o designavam, nomes como Kaman (Pérsia), Yai (Turquia), Kertko /Caldeia), Al Kaus (Arábia), todos, têm relação com a flecha. Há registros de que no antigo Egito a constelação era representada por um cisne ou um íbis, embora o zodíaco de Denderah nos mostre um arqueiro bifronte, uma parte humana e outra leonina. Na Mesopotâmia, a constelação era representada também por uma figura híbrida, um ser muito especial, parecido com um sátiro grego.  Inscrições cuneiformes designam a constelação por nomes como O Forte e O Gigante Rei da Guerra, personificando o arqueiro deus da guerra, Nergal, depois deus dos infernos, confundido às vezes com o planeta Marte. 

Os hindus, há mais de 3.000 anos aC, já representavam Sagitário por um cavalo, por uma cabeça de cavalo ou por um cavaleiro. O nome sânscrito desta constelação que se fixou para nós foi

entretanto o de Dhanus (arco). Na tradição dos Upanishads, o signo de Dhanus propõe a identificação com a flecha, representando o conhecimento que liberta do karma e do ciclo dos renascimentos. No antigo mundo védico, a sílaba sagrada AUM (OM) era o arco, atma, a alma, a flecha, sendo o Brahman, o Todo, o alvo, tudo isto sugerindo a saída da multiplicidade e do samsara pela volta à unidade. 

Nos tempos védicos, os astrólogos davam o nome de Brihaspati a uma dividade que tutelava o planeta Guru, Júpiter na astrologia ocidental, regente de Dhanus. Com o tempo, essa distinção acabou desaparecendo, sendo Brihaspati, denominado como “pai dos deuses” ou “preceptor dos deuses” citado astrologicamente como o próprio regente do signo. Brh é um prefixo sânscrito que significa grande, traduzindo ideias de desenvolvimento, crescimento, expansão. Pati significa senhor. Brihaspati é, assim, aquele que governa porque é grande, porque tem poder  e porque se expande. 

BRIHASPATI
Brihaspati, entre os hindus age como a inteligência e a palavra dos deuses, sendo identificado como a divindade que permite ao ser humano ter acesso a um nível de conhecimento que lhe possibilita ultrapassar o que o mental comum, inconstante e instável, lhe fornece através de budha (o planeta Mercúrio) e das condicionantes impregnações lunares (manas). É o conhecimento proporcionado por Brihaspati (Júpiter), como buddhi, que põe o hindu não só em contacto com o testemunho de grandes sábios do passado como lhe possibilita o acesso a um tipo de conhecimento superior, libertador, estabelecendo uma ligação com o Brahman.

Ao se identificar com a flecha, conforme proposta do nono signo astrológico, Dhanus, o homem adquire o conhecimento que o liberta do ciclo dos renascimentos (samsara), transformando o que nele há de animal e racional em espiritual, liquidando-se, assim, os seus débitos kármicos.  A filosofia vedantina, como sabemos, distingue quatro tipos de karma. O primeiro é o sanchita-karma, a totalidade das sementes (efeitos) acumuladas, provenientes de encarnações anteriores, que ainda não começaram a germinar, encontrado na quarta casa astrológica. 

O segundo é o prarabdha-karma, a parte do anterior que numa encarnação será vivida, colhida, constituindo a nossa presente biografia; são os efeitos que repercutem numa encarnação presente, que estão no Meio do Céu. O terceiro é o kriyamana-karma, a nossa capacidade de discernir quanto às ações do presente que poderão continuar abastecendo o sanchita-karma e que, como tal, deverão ser evitadas; este conhecimento é encontrado (ou não) na nona casa. Finalmente, o agama-karma, a nossa capacidade de prever o resultado futuro de nossas ações, realizemo-las ou não; confunde-se com o nosso livre-arbítrio. Chama-se upaya (método) o conjunto de recursos encontrados (ou não) na nona casa que podem ser usados para nos ajudar a trabalhar com o kriyamana-karma e o  agama-karma. Para os antigos astrólogos hindus, o prarabdha-karma, o kriyamana-karma e o agami-karma, na vida de alguém, seriam explicados por Jyotish. As mudanças e as transformações que alguém desejasse realizar em sua vida só ocorreriam através do conhecimento que ele tivesse do seu kriyamana-karma e do seu agama-karma, isto é, do que astrologicamente significam o signo de Sagitário (Dhanus), a sua nona casa. 


JYOTISH

Além disso, a transformação desejada só se viabilizaria se conhecido como o seu prarabdha-karma (a sua décima casa), no qual está o karma a ser colhido numa presente encarnação, estaria afetando a sua vida em função da  qualidade, da intensidade e das características que apresenta, segundo os seus níveis: 1) karma não-fixo (adridha); 2) karma fixo/não fixo (dridha-adridha); 3) karma fixo (dridha). No primeiro caso, temos o karma que pode ser removido sem grandes problemas, com algum esforço, porém. Um karma leve. No segundo caso, temos o caso de débitos kármicos, de intensidade média, só removidos com muito esforço. No terceiro caso, temos os débitos kármicos muito pesados, severos, que exigirão  esforços constantes por uma vida inteira, jamais removíveis. 

Dhanus encerrava na astrologia védica o terceiro quadrante zodiacal, conhecido pelo nome de Dharma, antecedido pelo segundo e pelo primeiro, designados respectivamente pelos nomes de Kama e de Artha. O quarto quadrante zodiacal tinha o nome de Moksha. Os nomes destes quadrantes designavam as quatro etapas pelas quais todo o hindu deveria passar, quatro metas de vida, sendo a primeira uma preparação para a segunda e assim por diante.



A primeira meta, Artha, tinha a ver com ideias de afirmação e de conquistas materiais. Nessa primeira meta prevalece matsya nyaya, a lei do peixe, da qual se diz que peixes grandes comem peixes pequenos. Grande parte da humanidade vive segundo esta lei, explicada na filosofia ocidental por pensadores como Machiavel, Hobbes e por correntes filosóficas que defendem o pragmatismo e o utilitarismo. Na segunda
THOMAS  HOBBES , 1588 - 1679
meta, temos Kama,  na qual também grande parte da humanidade está fixada: a vida como busca do prazer. Kama é o nome de uma divindade muito parecida com o Eros grego. Kama, com seu arco, dispara flechas que provocam os desejos humanos. Possui cinco flechas, uma para cada um dos sentidos humanos. É Kama a própria encarnação do desejo. 

Na terceira meta, temos Dharma, conceito que lembra ao mesmo tempo responsabilidade, dever e obrigação. É o quadrante da vida social e, neste sentido, se opõe ao primeiro, o da individualidade. Com Dharma, entramos na vida social, que pede uma noção clara dos direitos e dos deveres dos seres humanos. Este quadrante, astrologicamente, é encerrado por Dhanus, signo que nos fala de conhecimentos superiores que nos levam a uma vida espiritual, transindividual e transsocial, que nos põe em relação com a humanidade como um todo. Com as influências de Dhanus, vividas superiormente, deixamos de agir só em função da nossa individualidade e/ou da nossa vida social. 

Para Jyotish, se Dhanus é o signo do conhecimento, o da sabedoria será o de Peixes (Meena), o da doação, onde o conhecimento que leva ao Brahman será passado aos outros, compartilhado, sem nenhuma ideia de reciprocidade. Doar simplesmente com o objetivo de que a vida do Todo, a humanidade e o mundo natural melhorem. É por isso que o signo de Meena, Peixes, fechava o quarto quadrante na astrologia védica, dando-se o nome de Moksha à última etapa da vida no Hinduísmo. Moksha é palavra que etimologicamente nos remete a ideias de desatar, abrir mão, largar, emancipar, terminar. Moksha é conceito que afasta por isso a noção de ego. É em moksha que se vive plenamente uma das máximas hinduístas, a do desapego do resultado das ações praticadas. É através de Moksha que o homem, o chamado liberto em vida, como parte do Todo, do Brahman, pode se projetar além de si mesmo, em direção do mundo natural e dos outros outros homens.


CORRESPONDÊNCIAS   ZODIACAIS

A esta caminhada em direção do Brahman, que na astrologia é orientada a partir de Dhanus, tanto o Hinduísmo como o Budismo dão o nome nirvana marga. Nirvana é palavra que etimologicamente tem relação com um verbo (nirva) que  significa acalmar, extinguir diminuir, atenuar, apagar, mas que, muitas vezes, pode tomar o sentido de ir-se, de atravessar. Todo este campo semântico diz respeito obviamente ao controle do ego, dos seus desejos, dos seus apegos, da sua ignorância. O nirvana é um estado a ser conquistado, um modo de ser que deve ser confirmado pela própria vida daquele que o busca. A via para esse fim é a que tanto a astrologia como as doutrinas filosófico-religiosas chamam de gnana marga ou jñana marga, o caminho do conhecimento.


MESOPOTÂMIA
Ao que parece, dentre os povos da Mesopotâmia, foram os babilônicos os primeiros a estabelecer a ligação entre determinadas constelações com os meses do ano. Sabe-se que por volta do ano 1.000 aC eles já tinham definido  o círculo zodiacal com dezoito constelações, reduzidas depois para doze. Esta redução possibilitou que não só a noção da eclíptica (via solis) se estabelecesse como também a fixação dos eixos equinociais e solsticiais. Foi a partir das definições acima que a eclíptica foi dividade em doze partes iguais, dando-se a elas, como signos, os seus respectivos nomes (traduzidos): O Mercenário (Áries), O Touro e As Estrelas (Touro com as Plêiades), Os Grandes Gêmeos (Gêmeos), O Caranguejo (Câncer), O Leão (Leão), A Balança (Libra), A Espiga (Virgem), O Escorpião (Escorpião), Pabilsag (Sagitário), A Cabra-Peixe (Capricórnio), O Grande (Aquário) e As Caudas (Peixes). Pabilsag (Sagitário) era uma divindade conhecida desde a mais remota antiguidade mesopotâmica. Era filho de Enlil (Grande Montanha), sendo sua esposa a deusa Ninisina, padroeira de Isin, divindade ligada às doenças e às curas. 

Embora os sumérios tinham iniciado na Mesopotâmia a leitura do céu, pelo reconhecimento de algumas constelações e de planetas, foram os babilônicos, mais tarde, por volta de 2.000 aC que deram a esta leitura um sentido diferente, utilizando-a para fazer previsões
ENUMA   ANU   ENLIL
(presságios) quanto aos seres humanos, geralmente pessoas de elevado status, e quanto a acontecimentos relacionados com a vida do país, conflitos, guerras, epidemias, catástrofes. Ficaram famosas as  tabuletas em argila cozida de uma série intitulada Enuma Anu Enlil que registram, desde o período assírio até o babilônico, a posição aparente dos planetas, principalmente Marte e Vênus. O primeiro representa Nergal, deus da guerra, do inferno e da pestilência, e o segundo, associado a Ishtar, relacionado com o amor, a fertilidade e a paz.   


TIAMAT   E   MARDUK

No mundo mesopotâmico, quando a Babilônia se tornou o maior centro político do país, quem passou a reinar absoluto sobre todos os planetas foi o deus Marduk. Uma descrição dos seus feitos pode ser encontrada na quinta tabla da Epopeia de Gilgamés: Ele
ENLIL
construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou
EA
adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era um astro masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa “Casa da Água”, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, lembre-se, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza. Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


UTUKKU

As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukku, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukku chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga, enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz. 

SIN  

Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit. Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, “Fortuna Maior”. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk na Mesopotâmia,  Zeus e Júpiter, no mundo greco-romano, associados ao maior planeta  do nosso zodíaco, representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a
MICHEL   GAUQUELIN  ,  1928 - 1991
ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema astrológico de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

Participando do simbolismo do raio de luz e da chuva fertilizante como ligação entre dois estados, o celeste e o terrestre, a flecha lembra passagens rápidas e penetração como união mística. É neste sentido, na tradição hinduísta, que a flecha é sinônimo de celeridade intuitiva fulgurante, do chamado saber rápido. Esta relação da flecha com esse tipo de conhecimento  explica-se melhor na medida em que soubermos que sagitta, flecha, em latim, tem
KIRON
relação com  o verbo sagire, perceber rapidamente e também ter faro. Dentro deste verbo encontramos o radical sag, que, em latim, aparece em palavras como sagus (o que pressagia), sagax (que tem o odor sutil como o cão), sagacitas (que tem os sentidos finos), praesagus (que pressente), sagaciter (saber com penetração). É por esta razão que Sagitário é considerado tradicionalmente como o signo da profecia. Saga, sagae era o nome que os antigos romanos davam às suas bruxas, feiticeiras, as que “sabiam antes.” É de todo esse contexto que sai a palavra cinegética, uma das artes ensinadas pelo centauro Kiron aos seus pupilos, como veremos.

Tudo o que se expôs acima poderá ser melhor entendido se compreendermos que Gêmeos é o signo da informação e que Virgo é o da crítica e da aplicação desta informação para que ela se transforme em conhecimento. É neste sentido que Sagitário se torna
o signo das grandes viagens espirituais e intelectuais através das religiões e dos seus códigos, dos textos legais, da filosofia, do estudo e do ensino superior, da vida universitária, do estudo das línguas e dos costumes dos povos etc.  São representantes de Sagitário, de um modo geral, os religiosos, os catedráticos, os magistrados, os professores, os pregadores, os embaixadores, os exploradores, os viajante etc.