domingo, 24 de setembro de 2017

LIBRA (3)

                                           
AS  CÁRITES ( SANDRO BOTTICELLI , 1445 - 1510 )

Integram-se também à constelação de Libra as Cárites, as Graças, divindades inicialmente ligadas ao mundo vegetal e depois aparecendo sempre associadas à convivência harmoniosa entre os humanos. Kharis, em grego, significa graça exterior, beleza, encanto, boas maneiras, disposição para a convivência alegre, harmoniosa, divertimento saudável. Todas estas características encontradas tanto no mundo natural como no mundo dos humanos era delas. Nesta condição, eram as Cárites reverenciadas desde os primeiros momentos do dia. Em várias tradições mediterrâneas são registrados os seus cultos, destacando-se especialmente, por sua antiguidade, os de Creta, os jogos (agones) celebrados em sua honra, desde tempos do rei Minos. Seu mais antigo santuário estava em Orcômenos, antiga cidade da Beócia.


ORCÔMENOS  ,  ANTIGA  BEÓCIA

A beleza da variedade do mundo natural deve-se a elas, que, assim, agiam em comum com as Horas nesta área. Tinham responsabilidade direta pela suavidade primaveril, atenuando o que esta estação trazia de quente e áspero. Os poetas logo se apoderaram desta imagem, fazendo das Cárites as amigas e protetoras de tudo o que aparecia como suave, gracioso e belo. É o caso de Píndaro, gênio da poesia grega, que as considerou sempre como fonte do decoro, da pureza, da felicidade da vida diária e da boa vontade. Lembremos que palavras gregas eukharistia (ação de graças) e eukharistos (agradecido, obrigado) têm relação com as Cárites. O verbo é kharizomai, agradar, dar gosto, mais o prefixo eu, bem, bom.

Eram representadas por três jovens, nuas ou seminuas, sempre dançando, rodopiando, cantando, perto de fontes, usando uma decoração corporal e ambiental muito florida, com especial destaque para as rosas, as flores de Afrodite. Passavam grande parte do seu tempo com as Musas, perto do Olimpo. Na maior parte das versões, as Cárites passam por filhas de Zeus e de Eurínome, uma oceânida, que casada com Ofion administrava o cume nevoso do Olimpo.

CÁRITES
( C. VAN LOO , 1705-1765 ) 
As Cárites eram três: Aglaia (Brilhante, Esplêndida), Talia (Festa) e Eufrosina (Alegria da Alma). Em Atenas eram apenas duas, Kleta (a que causa impressão profunda, emitindo sons) e Phaenna (a que lampeja, a tremulante). Aglaia uniu-se a Hefesto, sendo a responsável, conforme atestado por muitas tradições, pelo elevado padrão estético das obras e peças que saíam das oficinas e forjas do deus. Palas Athena, muito desajeitada nas questões de beleza, recorreu várias vezes às Graças para suavizar o utilitarismo das suas ações e dos produtos que inspirava. O deus Hermes, muito pragmático, se valeu do conselho das Graças para aumentar a capacidade de penetração dos seus discursos.  No mais, as Cárites tanto influenciavam positivamente os trabalhos artísticos e as atividades intelectuais como participavam alegremente dos cortejos de Afrodite, Eros e Dioniso.

Na Grécia, numerosos templos e santuários mantinham com destaque as imagens dessas três divindades. Havia um festival anual que as honrava, chamado Charistesia, do qual faziam parte jogos teatrais, canto e dança. Eram também muito invocadas nos
SYRINX
banquetes e nos simpósios, sendo o primeiro brinde feito sempre em sua homenagem. Tinham como atributo a rosa, o mirtilo e os dados, como símbolos do alegre divertimento. Maçãs, vasos floridos, papoulas, espigas de trigo e instrumentos musicais (lira, flauta e syrinx) faziam parte da decoração dos ambientes em que pontificavam.     

AFRODITE   PANDÊMIA
( CHARLES  GLEYRE, 1806 - 1874 )
Entre os gregos, astrologicamente, o signo de Libra foi entregue à deusa Afrodite, aquela que veio para controlar o deus Eros, ou seja, para colocar as relações divinas e humanas numa perspectiva de reciprocidade, integrando numa justa proporção o amor sob a sua forma física, bem como o desejo e o prazer dos sentidos. O mundo grego enquadrou a deusa Afrodite em vários tipos, sendo os mais conhecidos
AFRODITE  URÂNIA , 1878
( CHRISTIAN GRIEPENKERL ) 
o “popular”, o da chamada Afrodite Pandêmia, e o “elevado”, “celeste”, o da chamada Afrodite Urânia, ou seja, a deusa como símbolo dos amores e das uniões onde podem prevalecer, respectivamente, o aspecto terrestre ou celeste da deusa. O cristianismo, lembremos, procurou construir a imagem da Virgem Maria sob a inspiração de influências egípcias e gregas, isto é, de Ísis, quanto às primeiras,  e da Afrodite Urânia e das Cárites quanto às outras.

Por fazer parte do eixo equinocial, marcando o início do outono, ao signo de Libra sempre foi atribuída grande importância. É nessa condição que ele é a porta de entrada do terceiro quadrante zodiacal, o da vida social, sucedendo o segundo quadrante, o da vida familiar, e preparando para o do coletivo, da humanidade, o quarto e último quadrante. Os hindus sempre associaram está área do Zodíaco, o terceiro quadrante, ao conceito de dharma, palavra que traduz ideias de lei, obrigação, dever e responsabilidade.


Os antigos gregos só muito tardiamente reconheceram o signo da Balança, dando-lhe a forma que tem hoje. Tal aconteceu ao tempo dos grandes astrônomos-astrólogos, Hiparco, Eratóstenes e Ptolomeu, quando, como se disse, as Pinças ou Garras de Escorpião ganharam autonomia. A elas se deu o nome grego de Zygon (Parelha), de onde saiu a palavra zigoto, usada na biologia para indicar o estágio do embrião em que os gametas masculino e feminino (esperma e óvulo) se encontram pela primeira vez no útero materno, ocorrendo então, verdadeiramente, a concepção.

Os romanos chamaram esta constelação de Jugum, palavra que traduz a ideia de algo que conecta, que enlaça, que junge, que atrela, designando ela  também uma espécie de cabresto com o qual desfilavam os prisioneiros. Outros nomes romanos da constelação eram, como se disse, Chelae (Pinças), Libra e muito raramente Noctipares. Este último era a palavra que os romanos usavam para designar pesos ou medidas de um modo geral. Alguns astrólogos gregos, lembremos, com formação mitológica, chegaram a ver na constelação de Libra o carro que levou Koré ao Hades, fazendo-se assim a ligação entre o signo de Virgem e o de Escorpião. Nas tabuinhas caldaicas, esta constelação era chamada de Zibanitu, palavra que parece significar algo como “chifres do escorpião”.

MARCUS   MANILIUS
Há uma tradição greco-romana que coloca a constelação de Libra sob a tutela de Hefesto (Vulcano), que passa por ter sido a divindade que a forjou. O defensor desta tradição é Marcus Manilius, poeta latino do primeiro século da nossa era, contemporâneo dos imperadores Augusto e Tibério, famoso autor de Astronomica, poema em cinco livros. Esta história de Hefesto como regente de Libra tem alguma justificativa mitológica se lembrarmos que Palas Atena chegou a ser considerada por muitos astrólogos gregos como a divindade regente do signo de Áries.

É no mito de Erictônio (o que provoca ruínas, o que despedaça) que encontramos a ligação entre as duas divindades acima referidas. Erictônio tem o seu nascimento ligado a um violento e incontrolável desejo de Hefesto por Palas Atena. Consta que a deusa certo dia procurou o deus metalúrgico para que ele fabricasse algumas armas de que necessitava. Ainda mal refeito do affaire Ares-Afrodite, Hefesto se inflamou quando viu a deusa virgem, tomado por um violento furor erótico. Tentou por todos meios possui-la e, embora coxo, a alcançou na corrida. Atena se defendeu bravamente, repelindo-o. No calor da refrega, entretanto, gotas do sêmen de Hefesto caíram sobre as coxas da deusa. Conseguindo se safar, depois, mais calma, segura de que não voltaria a ser atacada, Atena, horrorizada, com um floco de lã, limpou todo o esperma das suas belas pernas, jogando-o longe, no chão. No lugar em que a lã tocou a terra, uma criança dela brotou, um menino, recolhido de imediato pela deusa, que o chamou de Erictônio, o filho da terra.


GAIA   APRESENTA   ERICTÔNIO   A   PALAS   ATHENA

Sem que ninguém soubesse, nem os deuses, Palas Athena encerrou a criança numa arca, confiando a sua guarda às filhas de Cécrops, antigo fundador e rei mítico de Atenas. Apesar da recomendação de que jamais abrissem a arca, as jovens o fizeram; logo, porém, fugiram apavoradas diante da visão que tiveram: a criança era monstruosa, uma serpente da cintura para baixo. Punidas pela deusa com a loucura, as jovens princesas morreram ao se atirar da acrópole. Educado pela “mãe”, Erictônio, ao chegar à maioridade, recebeu o poder de Cécrops. A ele se deve, como rei de Atenas, a invenção da quadriga, a introdução do dinheiro na Ática e a organização das Panateneias em honra da mãe.   

HEFESTO
O mito de Erictônio une estreitamente Hefesto e Palas Atena na Ática, mais exatamente em Atenas. Homero, como sabemos, sempre exaltou Hefesto por causa de sua grande habilidade como construtor, criador, associando-o a Atena. Não é por outra razão que Platão (Critias) coloca as duas divindades compartilhando a tutela de Atenas, encontrando nelas uma conjugação de duas qualidades; de um lado, por Atena, a

philosophia (a razão guiando a força), e, de outro, por Hefesto, a philotekhnia (o amigo de todas as técnicas e artes). Ambos têm em comum também um grande pendor para tudo o que signifique artesanato, sendo divindades muito honradas pelos artesãos, que viviam no bairro do Cerâmico, onde anualmente se realizava uma grande festa (Khalkheia) em homenagem às duas divindades.

SURYA
Se pensarmos (astrologicamente) no fato de o fogo ariano ser atenuado ou controlado por Libra, talvez seja possível entender melhor esta relação entre Hefesto e Palas Athena e a de ser atribuída ao primeiro a regência do signo. Os mitos que cercam as origens de Hefesto têm, sem dúvida, suas raízes fixadas no mundo das tribos arianas. Lembremos que os primitivos povos árias reverenciavam o fogo através de três divindades.
AGNI
O fogo celeste era representado por Surya, o Sol; as suas emanações radiantes, ou seja, o fogo como intermediário entre o Sol e a Terra, tinha Indra por patrono; o fogo terrestre, o da vida doméstica, dos sacrifícios, das lareiras e das cremações, era de Agni; este último tipo de fogo podia ser preparado ou gerado pelos próprios seres humanos.  Era deste modo que no Rig Veda se faziam referências a Agni:
Tu que és o deus mais próximo de nós, vem nos socorrer, tu o nosso mais doce amigo.

Agni, na terra, podia tomar formas benéficas ou maléficas, como o fogo sacrificial no primeiro caso, promovendo a união terra-céu, ou como fogo dos incêndios, descontrolado, terrível, no segundo caso, quando destrutivamente rugia como um touro bravio ou como as ondas revoltas dos mares. Na língua sânscrita, Yavishtha, um superlativo de yuvan, jovem (juvenis, junior, em latim), é juveníssimo, ou seja, o eternamente jovem, aquele que sempre se renova, que não perde jamais a sua força, uma epiclese do deus Agni.

Chamado pelos gregos de Aphaistos (aph, água, e aistos, acender, produzir fogo), Hefesto, é o fogo celeste nascido das águas. O Hefesto grego adquire o status de artista dos deuses, atividade muito semelhante à de Agni na Índia védica, chamado, nesta condição, de Tvasthar, palavra que quer dizer artífice, o mais operoso dos deuses, criador não só de coisas inanimadas como de animais e homens. No mundo védico, havia um colégio sacerdotal que administrava os cultos relativos ao fogo como Agni, principalmente nos seus aspectos práticos, exercendo seu poder sobre o elemento ígneo como criador de riquezas, produtor de alimentos e gerador de bens temporais.

HEFESTO   E   TÉTIS
Hefesto, como sabemos, segundo uma versão mais aceita, nasceu da união legítima de Zeus e de Hera, mas, segundo Homero, uma união sem amor. Noutra versão, Hera teria gerado Hefesto sozinha em represália ao nascimento de Palas Atena, fruto de um famoso “parto cerebral” de Zeus, tipicamente ariano. Para o defeito físico de Hefesto há também duas versões. A primeira (Ilíada) nos diz que Hera, ao ver o filho coxo e
ZEUS   E   HERA
deformado, o lançou do alto do Olimpo em direção da terra. Caindo no mar, Hefesto foi recolhido por Tétis e Eurínome, divindades marinhas, que o protegeram, levando-o para uma gruta, onde fez a sua longa aprendizagem no trabalho do ferro, do bronze, dos metais e pedras preciosas. Numa outra versão, Hefesto teria nascido hígido. A causa estaria numa discussão entre Zeus e Hera a propósito de Hércules. Ao tomar o partido da mãe, Zeus, irritado, o lançou no espaço, caindo ele na ilha de Lemnos. Devido ao tombo, teria ficado manco, com os pés voltados para trás.   

Mais tarde, admitido no Olimpo, assumiu a condição de mestre do elemento ígneo e patrono de todos os que o utilizam para a produção de bens e utensílios. Para os deuses, fabricou maravilhas, armas terríveis. Temível, violento, atormentado e arrebatado, as indicações que temos nas antigas tabuinhas mesopotâmicas se ajustam porém a nosso ver, muito mais, a alguém nascido sob a influência das Pinças de Escorpião, que iriam mais tarde constituir o signo de Libra.

PALAS   ATHENA
( 1898  ,  KLIMT )
Quanto a Palas Atena, lembremos que Marcus Manilius, ao narrar a sua história, destaca os traços arianos que na deusa encontramos, desde o seu nascimento, da cabeça do pai. Zeus a “concebe” só. O momento do parto é anunciado por uma grande dor de cabeça. Hefesto é o “parteiro”. Abre a cabeça de Zeus e dali arranca a deusa, nascida adulta e armada, soltando gritos de guerra. Mal nascida, a jovem deusa guerreira pôs-se a lutar ao lado do pai e de outros deuses olímpicos no episódio da Gigantomaquia. Tanto as armas que usou como os seus sábios conselhos foram decisivos para a vitória dos olímpicos.

Outra característica ariana de Palas Atena estava no seu grande empenho em participar de competições e concursos. Citemos, dentre eles, a disputa pelo título de “a mais bela”, que teve por cenário o casamento de Peleu e de Tétis, e a disputa que travou com Poseidon, pela tutela da polis ateniense. Sua enorme vocação para ultrapassar a tudo e a todos, levou-a, por exemplo, a assumir a proteção dos lugares elevados, como a deusa das acrópoles. Se numa perspectiva idealizada é a deusa da inteligência, da prudência e da força guiada pela razão, na prática, na realidade, sua história está repleta de passagens em que se mostra rancorosa, impulsiva, violenta, amante das batalhas, das competições, traços que aproximam bastante do mundo ariano.

MARCUS   MANILIUS
Ainda segundo Marcus Manilius, em seu poema, as características do carneiro não devem ser perdidas de vista quando procuramos descrever os tipos do signo, pois o carneiro, cujo rico velo produz lã tão útil, espera renová-lo a cada vez que dela é despojado; situado sempre entre uma fortuna brilhante e uma ruína instantânea, não enriquecerá senão para perder tudo, sendo sua felicidade o prenúncio de sua queda. Nem a própria Palas Atena desdenhou trabalhar com a lã e considerou glorioso e digno o triunfo que obteve sobre Aracné.

Libra é o sétimo signo, oposto polar de Áries, e constitui, como sabemos, no zodíaco, o lugar mais distante do eu. Em qualquer circunstância ou momento em que, como indivíduos, tivermos que
VÊNUS
( BOTTICELLI , 1445 - 1510 )
iniciar um relacionamento  com outras pessoas o simbolismo do equinócio de outono e o de Libra é invocado. Há que se considerar, todavia, que o simbolismo de Libra deixa muito a desejar quando pensamos em amor. A Vênus libriana realmente não empolga; é bela, pode ter padrões estéticos refinados, é diplomática, socialmente agradável, companheira, mas falta-lhe aquilo que a Vênus taurina tem, o lado carnal, terreno, o prazer sensual, onde o erotismo sempre pode entrar, glorificado de algum modo.

Embora eu não seja um defensor da defenestração de Vênus da regência de Libra, julgo que a corregência do signo deva ser compartilhada de um modo mais definido entre ela, Vênus, Palas Atena e Hera, deusas-asteróides que começaram a ocupar o seu espaço no signo e nos assuntos da sétima casa pelo que ambas, com muita propriedade, têm a dizer. Hera, na mitologia grega, era a deusa das justas núpcias e da fidelidade conjugal, a legítima (legal) esposa do Senhor do Olimpo. É, como tal, a protetora das uniões oficiais, estendendo-se o seu domínio por isso aos partos e à educação dos filhos.  Por outro lado, Palas Atena é, sem dúvida, o lado lutador da sétima casa, o seu lado aguerrido  que, às vezes, aparece como a coação da lei, a  espada da justiça. É neste caso, que a balança e a espada se tornam inseparáveis. A primeira como símbolo do julgamento, da medida, da prudência e da medida. A outra, a espada, na sua dupla função, como destruidora da injustiça e restauradora da ordem. 


PALAS , VÊNUS , HERA (HANS VON AACHEN, 1552 - 1615)

Se pensarmos na questão da estética, Hera sempre foi vista como uma mulher de beleza majestosa, embora às vezes irascível e altiva, elegantemente vestida, cabelos impecáveis, classe na gesticulação, corpo rijo, uma presença que impunha respeito e, quem sabe, desejos eróticos mudos naqueles que a viam espetacularmente se movimentando nas reuniões olímpicas. Sendo esposa de Zeus, detinha Hera naturalmente certos atributos de soberania que lhe eram pessoais e intransferíveis, que a distinguiam muito das outras deusas. Exercia inclusive, para reforçar a soberania de sua posição, uma poderosa ação sobre alguns fenômenos atmosféricos. Era reverenciada sobretudo nas alturas celestes, lugar onde se amontoavam as nuvens, de onde vinham as chuvas benéficas, mas de onde também provinham violentas tempestades. As más línguas olímpicas diziam que as querelas entre Zeus e Hera, típicas da sétima casa, eram uma alegoria, representando as perturbações atmosféricas naturais das alturas celestes. Hera seria assim, também, a imagem da atmosfera tantas vezes carregada, agitada, escura, ameaçadora. Quanto a Zeus, se personificava o éter puro, a serenidade do firmamento, podia, muitas vezes, se manifestar através de seus três terríveis atributos, o trovão, o relâmpago e o raio.

ZEUS  E  HERA
O casamento entre Zeus e Hera foi um acontecimento que decorreu sobretudo de acordos e arranjos políticos, econômicos e sociais; uma história de poder e de lutas, como ocorre ainda hoje com muitas uniões no mundo das elites, algo bem distante de uma associação motivada por amor. A aproximação entre o amor e o casamento, na civilização ocidental, só foi feita muito tardiamente, como se sabe.  Nas classes superiores, os casamentos, como sabemos, ainda hoje, são arranjados. Por isso, embora associemos Vênus ao amor, não há dúvida de que ela se relaciona muito mais com o casamento-instituição, como aliás aconteceu com Afrodite, quando do seu casamento com Hefesto. Por uma questão de justiça, seria por isso muito mais apropriado talvez dar um poder maior a Hera sobre as questões de Libra e da sétima casa. Razão maior para isto a encontraremos se pensarmos o quanto as relações de Zeus e Hera tipificam mais adequadamente as relações “normais” da instituição chamada casamento, relações cheia de crises, arrufos, brigas, histórias de infidelidade, acessos de ciúme e vinganças.

A corregência de Palas Atena em Libra, como já foi possível deduzir do que sobre ela se falou acima, encontra a sua justificação principalmente no caso de librianos que tenham em suas cartas uma dominante fogo ou ar, isto é, mais ativos, “legalistas”, “justiceiros” (a espada a serviço da Justiça), ou que, devido ao componente aéreo, sejam mais frios, mais lógicos, menos propensos a se envolver nas confusões afetivas que o signo tradicionalmente costuma apresentar.

HÉCUBA  E  PRÍAMO  
Não podemos esquecer que os gregos sempre aproximaram do signo de Libra uma das figuras mais contraditórias de sua mitologia. Referimo-nos ao príncipe troiano Páris, também chamado Alexandre (o que repele), filho de Príamo e de Hécuba. Antes do seu nascimento, os adivinhos, consultados, anunciaram que a criança causaria um dia a destruição de Troia através do fogo. Por causa dessa predição, Príamo determinou que a criança fosse exposta, abandonada. Hécuba, porém, entregou o menino a uns pastores do monte Ida.

PÁRIS ( 1628 , VAN DYCK )
Se nos primeiros anos de sua juventude e vida adulta Páris demonstrou virtudes afirmativas que o levaram de volta ao palácio do pai, seu comportamento, depois, com a ninfa Enone foi lamentável. Com relação a Helena, então, Páris, outrora arrojado pastor, teve um comportamento pusilânime e só não morreu nas mãos de Menelau por causa da intervenção de Afrodite a seu favor. Ele, como sabemos, terminará a sua vida lamentavelmente na condição de um anti-herói, encarnando as expressões inferiores de Libra, apesar de ter sido o autor indireto da morte de Aquiles, o maior guerreiro dos gregos. 





segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LIBRA (2)

                                                 
AFRODITE  DE  CNIDOS
Para contrabalançar as forças eróticas presentes no universo, os gregos criaram uma deusa, Afrodite, colocando sob sua tutela o prazer, o amor, a beleza, a sexualidade e a sensualidade das mulheres, levando-as a se envolver com funções criativas e procriativas. No mito, Afrodite nasceu no mar, em meio a espumas (aphros, em grego, espuma). Essa imagem de Afrodite, adulta, nua, lindíssima, nascida das águas, será representada por muitos artistas. A deusa, pelo seu nascimento, define que o princípio da vida afetiva e, consequentemente, da vida amorosa estará para sempre ligado ao elemento líquido. Ou seja, amor é umidade. Os secos, os quentes e os frios têm muita dificuldade com relação à vida afetiva, ao amor, que fala de reciprocidade, de permeações e de fusões. Afrodite passou por Chipre, a ilha do cobre, definindo-se a partir de então como “boa condutora de eletricidade”, isto é, constituindo a polaridade passiva, feminina, por oposição à polaridade masculina, ativa. Ou seja, o princípio da água atenuando o princípio do fogo, Afrodite e Eros. 




Deusa de sedutora beleza (enkrateia, sedução), Afrodite era honrada em inúmeros santuários em todo o mundo mediterrâneo e da Asia Menor. A deusa surge no mundo grego para colocar as relações afetivas numa perspectiva de reciprocidade. Ela passa a simbolizar as forças irrefreáveis da fecundidade, não com relação aos frutos, mas com relação ao desejo apaixonado compartilhado. 

A deusa é tanto o amor sob a forma física como o prazer dos sentidos cabendo-lhe o poder da transformação dos seres que nesses processos se envolvem. É neste sentido uma deusa alquímica, consumando relacionamentos, gerando formas novas de existência. Ela é também o impulso que vai além do sexual, apresentando um ímpeto tanto psicológico como espiritual que nos fala de comunicação e de comunhão. Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado por alguém, por um lugar, por uma ideia, por um objeto artístico está lidando com os poderes da deusa. A consciência de Afrodite está presente também em todo trabalho criativo, mesmo aquele feito solitariamente. É a deusa das interações, podendo transformar uma simples conversa numa “obra de arte”. Com a deusa atuando em nós, também podemos nos tornar mais espontâneos, como numa improvisação musical. Onde quer que apareça a consciência de Afrodite, os parceiros irradiam bem-estar, energia intensificada, a conversa fica mais  espirituosa, estimulando-se os pensamentos e sentimentos. 

AFRODITE   CALIPÍGEA
A deusa tem vários nomes, apelidos, Calipígea, Trívia, Urânia, Pandêmia, Citereia, Cípris etc. Toda pessoa que se envolve num processo afetivo, de trocas, a deusa a transforma num ser especial, quase “divino”, como diziam os antigos gregos. Quando Afrodite se apossa da personalidade de uma mulher, ela se abre para o mundo, para os outros, socializando-se também. Ela aumenta o magnetismo pessoal. Quando por razões culturais e religiosas a mulher é rebaixada, satanizada, Afrodite se “ausenta”. O arquétipo pode pôr uma mulher (dependendo do meio) inclusive em divergência com os padrões de moralidade nele vigentes. Por isso, as mulheres “Afrodite” podem ser marginalizadas, consideradas como perigosas, quando não como raptoras do masculino, como acontece com as religiões patriarcais.

Afrodite era muito mal vista em Atenas, a cidade de Palas Athena, deusa virgem, das acrópoles. Nos meios populares da cidade,

Afrodite era muitas vezes chamada de “A Prostituta”. Por causa de sua personalidade, fortemente marcada por traços orientais, sobretudo de Ishtar e de Astarte, aquela mesopotâmica e esta fenícia, Afrodite, para os padrões gregos, era considerada como uma bárbara. Tudo isto transparece, por exemplo, de modo muito claro, na tragédia Medeia, de Eurípedes, nas falas de Jasão, quando ele, num ataque xenófobo, comunicou à princesa da Cólquida que estava se separando dela, uma “bárbara”, para se casar com a filha do rei Creonte.


Quando duas pessoas se apaixonam, a deusa cria um campo de energia fantástico, intensificado. Ambas sentem-se mais bonitas, as impressões sensoriais se ampliam, a música se transforma em
PITAGÓRICOS
linguagem privilegiada, os odores ficam mais penetrantes, o tato passa a ser um dos sentidos mais importantes. Cultivar Afrodite é criar interesses pela arte, pela música, pela poesia, pela dança. É gostar do próprio corpo, cuidar dele, sem exageros, uma decoração corporal contida, harmoniosa. É por essa razão que Afrodite é a deusa da vida cosmética, palavra grega que vem de kosmos, esta significando ordem, o universo como ordem. Os pitagóricos foram os primeiros a usar esta palavra com este sentido porque o universo poderia ser reduzido a proporções matemáticas, devidamente ajustadas. Uma pessoa cosmética seria, pois, aquela que saberia encontrar o seu lugar de forma harmoniosa na ordem cósmica, como os astros souberam fazer. Por extensão, encontrar uma ordem justa na sociedade, sempre um reflexo da ordem cósmica. Para isto, ainda segundo os pitagóricos, deveria ser usada a katharsis, a purificação da alma, palavra que tinha entre eles fortes analogias com a música , a base da virtude maior, a sophrosyne (autodomínio, moderação). 


As mulheres que assumem o arquétipo de que tratamos podem enfrentar muitas dificuldades com outras mulheres, presas a outros
HERA
arquétipos, especialmente as mulheres do tipo Hera. No geral, as mulheres Afrodite têm a capacidade de ver sempre a beleza e de se ligar criativamente a alguma coisa, a alguma atividade, mesmo na velhice. Crescem com grande vitalidade e graça. Na velhice, estão de bem com a vida, são sábias, não vivem se queixando nem são rabugentas. Interessam-se pelos outros, ligam-se ao mundo, interessadas sempre pelo que vem à frente. No geral, a mulher identificada com a deusa é mais extrovertida, sua atenção é sempre sedutora, ainda que muitas vezes possa ser mal interpretada. 



ACROCORINTO

A negação de Afrodite está nos meios repressores que condenam a sexualidade e a sensualidade, que negam o corpo, que criam situações de culpa e de conflito, de ansiedade e depressão, diante do apelo da vida. Por isso, as mulheres Afrodite tendem a viver o presente. A cidade de Afrodite era Corinto, a Opulenta, uma cidade
EPÍSTOLA   AOS   CORÍNTIOS
rica, alegre, de muitas festas. Nas alturas da cidade, na Acrocorinto, a quase oitocentos metros de altura, encontrava-se um famoso templo no qual viviam as hierodulas, as prostitutas sagradas, sacerdotisas da deusa. Foi nessa cidade que o apóstolo Paulo, na era cristã, deu vazão a toda a sua misoginia, escrevendo a Epístola aos Coríntios.


No período clássico da história grega, Corinto era considerada a terceira cidade, depois de Atenas e Esparta. Tinha uma formidável acrópole e uma situação geográfica privilegiada, abrindo-se simultaneamente para a Ásia e para a Europa ocidental, o que parecia justificar seu grande progresso material. Miticamente, histórias nos contam que Corinto foi fundada por Foroneu, filho do deus-rio Ínaco e da ninfa Mélia, e que suas muralhas teriam levantadas por Sísifo, o mais inescrupuloso e inteligente dos mortais. 




Quando abordamos os mitos gregos ou não de modo mais aprofundado,  sabendo ir de modo mais percuciente às suas fontes mais responsáveis e sérias, podemos entender, como tantas vezes já mencionado neste blog, o quanto eles nos permitem entrar no conhecimento do nosso próprio padrão arquetípico. Esse conhecimento nos ajuda a compreender qual é a nossa natureza divina. Quanto às mulheres, imprescindível o conhecimento do culto e dos rituais de Afrodite, o arquétipo que ela representa, que sempre as ajudará, certamente, a “viver” um pouco melhor, a se libertar, principalmente nas sociedades fortemente marcadas por valores patriarcais, da culpa por querem ser o que realmente são e não podem. Isto, no mínimo, as ajudará a se tornarem mais conscientes, fazendo-as cuidar de seus interesses, reconhecidos de modo mais claro os seus limites e os dos outros. 

AFRODITE
Como doadora da graça social, Afrodite se alinha naturalmente com os que lutam a favor da vida, procurando combater não só aqueles que se aniquilam entre si, que promovem guerras estúpidas sob justificativas religiosas (econômicas sempre, no fundo) como os que dizimam os recursos naturais de nossa mãe Terra. Neste sentido, a proposta maior da deusa está certamente no convite que ela nos faz, muitas vezes não muito bem compreendido, no sentido de que saibamos evitar que as tendências destrutivas que estão à solta no mundo acabem, inconscientemente, se voltando contra nós mesmos. Com isto saberemos inclusive evitar as idiotas propostas de políticos, economistas e empresários que, em escala mundial, nos propõem um crescimento contínuo de nossos índices econômicos. 

Não é preciso ser filósofo, psicólogo, médico, advogado ou sacerdote para perceber que o ser humano, ainda que dizendo amar a vida, vem atualmente se matando a si mesmo como nunca aconteceu antes. E o que é pior, pois, como constatamos, a maneira de morrer escolhida pelo próprio ser humano é hoje muito rápida, tão rápida que muitos que já morreram para a vida continuam sobrevivendo por muito, muito tempo, em dolorosos estágios de vida vegetativa, doentes ou não. Vemos isso diariamente diante dos nossos olhos, muitas vezes dentro de nossas casas. Os métodos que as pessoas escolhem para se matar são inúmeros e não devem interessar só a especialistas, já que o ser humano tem que ser considerado como uma totalidade. 


THANATOS   E   EROS  ( 1911 ,  GUSTAV   KLIMT )

Vida é conflito, sabemos, luta. Amor e ódio, produção e consumo, criação e destruição, anabolismo e catabolismo, uma guerra entre tendências opostas que se confunde com a própria dinâmica do universo. As tendências que lutam a favor da vida ou contra a vida não podem ser representadas só por Eros e por Thanatos, como defendeu Freud. É certo que o ser humano carrega dentro de si estas divindades. É certo que Thanatos sempre acabará por se impor, pois somos seres datados. Nossa vida é um hífen entre duas datas. Cabe-nos, na medida do possível, colaborar ao máximo para que as forças eróticas e tanáticas em operação no universo sejam atenuadas pelos valores que Afrodite representa. Isto nos ajudará não só a controlar melhor tanto as forças eróticas como as tanáticas soltas no universo, patrocinadas e incentivadas, como se sabe, pelo grande capital, criador do nefasto sistema de mercado, e pela indústria armamentista nas suas diversas expressões. 

Há, contudo, uma enorme quantidade de seres humanos, nas mais diversas latitudes e longitudes da Terra que desde muito cedo, nas várias camadas sociais, mais altas ou mais baixas, seres inclusive mal entrados na vida, que por razões diversas colaboram com as forças tanáticas. Esse instinto de autodestruição aparece sob diversas formas, muitas toleradas ou mesmo aceitas socialmente. Não falamos aqui do desejo consciente de morrer, mas do desejo inconsciente de morrer. Como formas crônicas inconscientes de autodestruição podemos apontar, por exemplo, muitas inclinações masoquistas de comportamento (submissão à punição) por causa de um sentimento de culpa, criado no mais das vezes desnecessariamente.


CASAMENTO  CAMPONÊS ( PIETER  BRUEGEL, O VELHO, 1525 - 1569 )

Em muitas das chamadas tendências religiosas ou espirituais encontramos também fortes tendências autodestrutivas, tanto no caso de ascetas, de jejuadores (casos de autoflagelação, de martírio etc) como no de pessoas que, temendo a vida, se refugiam em organizações religiosas, seitas etc. Há inclusive, noutras áreas, formas muito disfarçadas de autodestruição. Dentre as muitas, destacamos a curtição gastronômica (a peregrinação pelos restaurantes; o caso de pessoas que se matam pela comida para compensar falta de amor ou de segurança), pelos esportes radicais, pela autoimolação por razões familiares (alguém que abre mão de tudo por problemas de família), pela droga e pelo álcool socialmente consumidos, pela deterioração crescente da qualidade de vida pelo uso inadequado da tecnologia, pela simulação de doenças ou ferimentos etc. 

A automutilação estética é, sem dúvida, uma das formas mais insidiosas de autodestruição inconsciente. Nesta área, podemos exemplificar com as tendências anoréxicas ou com as operações cirúrgicas. Ou seja, embora não nos mutilemos a nós próprios, entregamo-nos a algum cirurgião para que ele o faça (caso de pessoas que não podem passar sem uma ou mais operações plásticas anuais). Ainda nesta área, principalmente no mundo feminino, podemos mencionar o desejo inconsciente que as pessoas têm de se autodestruir quando aderem à moda das roupas, da maquiagem ou da decoração corporal sem perceber o quanto se destroem, ao invés de lutar pela conquista de uma individualidade. No fundo, seguir a moda (puro consumismo) não passa de um desejo de ser como todo mundo, rico ou pobre, isto é, um desejo de não ser nada, ninguém. 

HORÁCIO
Para finalizar, quando pensamos em Afrodite, nada melhor do que lembrar as máximas Carpe Diem, de Horácio (gozemos o momento favorável, aproveitemos com moderação tudo o que se apresente de positivo, mesmo que pouco e transitório) e Utere temporibus (aproveitemos o momento feliz), de Ovídio. Trazendo estas máximas, em nome de Eros
OVÍDIO
e de Afrodite, para o centro de nossas vidas, estaremos, sem dúvida, controlando melhor as forças tanáticas que um dia acabarão por se impor . Viveremos certamente um pouco melhor, pois, afinal, os poetas (os bons, é claro) serão sempre os nossos melhores conselheiros. 





quarta-feira, 23 de agosto de 2017

LIBRA (1)

                                              

LIBRA
Uma das mais antigas referências que temos sobre o signo de Libra (23 de setembro a 22 de outubro) nós a encontramos no antigo Egito, na balança como símbolo do julgamento. A balança era o centro de uma cerimônia religiosa muito importante. Esta cerimônia consistia na pesagem das almas quando, desprendendo-se do corpo, elas iniciavam a sua viagem para o Outro Lado (Duat). Esta pesagem se realizava na sala da deusa Maat, deusa da justiça e da verdade, por meio de uma balança na qual se depositava, no prato da esquerda, o coração (Ib) do morto e no outro prato, o da direita, uma pena branca de avestruz, símbolo da deusa. 


MAAT

Aparecendo sempre em oposição ao carneiro, símbolo do aspecto criador, animal portador da vida, da saúde e da força, a balança é um símbolo do poente, da morte, e abre caminho de para a ressurreição. Enquanto o carneiro transmuta o declínio solar em esplendor, em impulso luminoso, a balança marca os momentos inicias da sua extinção. A balança mantém as forças da luz e das trevas momentaneamente em equilíbrio. Logo, porém, a espada da justiça cortará sem qualquer outra influência o fio deste equilíbrio (equinócio). Este corte introduz os homens “naquilo que deve ser” queiram eles ou não. A matéria, a vida mundana, os corpos, tudo o que tomou forma, enfim, começa a caminhar para o seu fim. O sentido do “que deve ser” é inversamente proporcional ao “que quer (ou acredita) ser”. Pesa-se aqui, rigorosamente, um “tanto” de
AVESTRUZ
construção e um “tanto” de destruição, de modo que os pesos se anulem. Pesava-se, assim, no Egito, o hieróglifo da verdade, a pena que simbolizava a deusa, sendo o contrapeso o coração do morto. As penas do avestruz, porque exatamente iguais, eram símbolos da equidade, e, como tal, da deusa Maat, que personificava a verdade, a justiça e a norma.Ela representava o equilíbrio e a harmonia da criação com relação ao incriado, ao caótico.    

Ao lado dos cultos e de seus objetos, a religião egípcia sempre teve um caráter moral, a que era dado o nome de “maat”. É quase impossível traduzir com exatidão o significado desta palavra, nela se combinando conceitos de ordem, justiça, dever, retidão, responsabilidade, algo muito parecido com a palavra sânscrita dharma. Maat, como conceito, não tinha origem humana. Fora criado pelos deuses e desde o aparecimento do cosmos passou a fazer parte da criação. Antes de qualquer coisa, maat representava a lei divina, imutável e imprescritível, na qual deviam se inspirar as leis humanas, chamem-se elas ética, moral ou princípios de direito. Todos deveriam, desde o faraó ao camponês, se esforçar para viver de acordo com ela, cada um no seu nível social.

Concebida dessa maneira, como obra dos deuses, e não da consciência dos homens, maat sempre se revestiu para os egípcios de imutável perfeição. Isto excluía qualquer possibilidade de crítica ou de mudança da estrutura social. O mundo e o que havia nele tinha sido criado pelos deuses exatamente da forma como queriam. Tudo era, portanto, como deveria ser, fixo, eterno. As guerras, as pestes, as secas significavam simples perturbações temporárias da ordem cósmica estabelecida. Uma vez que o mundo tinha sido criado como deveria ser desde o momento da criação, não era possível por definição ter havido uma época anterior melhor. Na
VALE   DO   NILO
religião egípcia não havia ideias como Jardim do Éden, Idade de Ouro ou Apocalipse. A mesma atitude determinava a concepção que os egípcios tinham da morte e a importância que lhe atribuíam. As suas crenças sobre a vida do além-túmulo, como as que diziam respeito aos deuses, tinham velhas raízes no vale do rio Nilo. Sepulturas da era neolítica revelavam a existência, ao lado dos mortos, de instrumentos, de objetos e de víveres que só podiam mostrar a intenção de serem usados pelo falecido no além. 

No eixo da balança usada na psicostasia ficava sentado o deus Toth, o escriba divino, na sua forma cinocéfala ou com a cabeça de íbis. Ao fundo, sob a presidência do deus supremo, Osíris, quarenta e duas divindades, correspondentes aos quarenta e dois nomos, ou divisões administrativas do país, acompanhavam a cerimônia. Dela participava também o deus-chacal Anúbis, como senhor do mundo dos mortos. Aos pés de Osíris ficava o monstro Ammit, uma figura híbrida, meio crocodilo, meio hipopótamo, peitoral de leão, chamado de O Devorador; aguardava o resultado da pesagem. Este monstro era uma imagem das águas primordiais, lembrando o caos. Se o coração do morto fosse mais pesado que a pena da deusa Maat, ele era entregue ao monstro, que logo o devorava. Com isto, ele voltava à indeterminação para, um dia, quem sabe, passar pela metempsicose (passagem da alma de um corpo a outro). Se o coração fosse mais leve que a pena da deusa, a alma se encaminharia para o Outro Lado, reconstituindo-se o corpo, que então gozaria da imortalidade de Osíris. 


   LIVRO   DOS   MORTOS -  

A alma era pesada em função da sua maior ou menor proximidade com o divino. Quanto mais próxima dele, mais se elevava. Por isso, se ela tivesse se afastado do divino na sua caminhada terrena, perderia as suas asas, a sua leveza. Lembremos que a alma (ba), no Egito, era representada por um pássaro androcéfalo. Na psicostasia, a pena, por isso, simbolizava a elevação da alma. Segundo o prato da balança judicial que se eleve, ela será reconhecida como pura ou corrompida.


MORTE  DE  HÉRCULES , 1634  ( FRANCIS  ZURBARÁN )

A psicostasia é uma cerimônia que lembra elevação, e, portanto, o elemento ar. É, no fundo, um processo pelo qual uma substância
ELIAS  ( ÍCONE RUSSO )
inferior se traduz numa forma superior por um movimento ascendente. Um dos aspectos do simbolismo da ascensão é, como se sabe, o da translação para a eternidade. Exemplos deste aspecto estão no suicídio apoteótico de Hércules, suicídio que o levou para o Olimpo, e o da subida aos céus do profeta Elias, que a ele ascendeu vivo, num remoinho, transportado num carro puxado por cavalos de fogo. 

A origem do simbolismo da translação para os céus, isto é, para a eternidade, encontra, ao que parece, a sua primeira expressão na antiga religião egípcia. Esta forma de translação é chamada, alquimicamente, de sublimatio superior, descrita por várias religiões. Na sua existência temporal, contudo, o ser humano só pode experimentar a chamada sublimação inferior, aquela em que os anseios de altura, de voo ou de ascensão exigem sempre uma volta à terra porque ele não pode, enquanto coagulatio, abrir mão da alternância entre a elevação e a queda, isto é, da circulatio. A sublimatio superior propõe a eternidade, a inferior, traz de volta à terra, tendo um caráter ascendente num primeiro momento e descendente numa segunda fase.

ZIBANITU

Os antigos povos da Babilônia davam ao signo de Libra o nome de Zibanitu, a Balança, e nela viam duas estrelas importantes: Zuben do Sul e Zuben do Norte, os dois extremos polarizados que lembravam a pesagem das almas no julgamento depois da morte (a psicostasia para os egípcios e a querostasia para os gregos). 


HERMES   PSICOPOMPO

A balança, entre os persas, foi colocada nos céus sob a tutela do anjo Rashu, postado junto de Mitra, também com a finalidade da pesagem das almas sobre a ponte do destino. Lembremos que a mesma ideia aparece na Grécia. Num famoso vaso grego, Hermes, na função de deus psicopompo, procede à pesagem das almas de Aquiles e de Pátroclo. Entre os muçulmanos, a balança do julgamento é mencionada no Corão. Num sentido figurado, no Islã, a balança é um grande livro aberto sobre o qual se inscrevem diretamente as boas e as más ações do crente. Na vida cotidiana, ela simboliza o bom julgamento, a apreciação justa, o sentido da discriminação. Há entre os árabes do Magrebe (ocidente, lugar onde o Sol se põe) a expressão que revela a sua importância: Teu olho é a tua balança.


A ILÍADA
Entre os gregos, já em Homero (A Ilíada) a balança era usada para simbolizar o destino como se mostra no episódio em que se narra o combate entre Aquiles e Heitor: Quando, porém, chegaram pela quarta vez, às fontes,  o Pai dos deuses ergueu então a balança de ouro e nela colocou as duas sortes da morte, em um dos pratos a morte de Aquiles e em outro a de Heitor, o domador de cavalos; depois elevou-a, segurando-a pelo meio. O dia fatal de Heitor havia chegado e ele desceu ao Hades. Apolo Febo o havia abandonado.


 MIGUEL  E  JACÓ ( EUGÈNE  DELACROIX , 1798 - 1863 )

No cristianismo, o signo de Libra costuma aparecer associado a São Miguel, o arcanjo do julgamento. Este arcanjo, entre os judeus, é o de mais alta hierarquia, sendo conhecido como o Príncipe da Água e o Anjo de Prata. No período bíblico, Miguel anunciou a Sara que ela daria à luz Isaac; foi ele mesmo que no teste da akedá interveio para que o mesmo Isaac não fosse sacrificado, Miguel lutou com Jacó, ferindo-o; foi Miguel quem disse que ele, Jacó, receberia um novo nome, Israel. Como advogado do povo judaico, Miguel senta-se à direita do Trono da Glória. É Miguel que acompanha os devotos ao céu após a morte e faz a oferenda das suas almas no altar celestial. Assinalemos que no pensamento judaico, os demônios são privados de seu poder diante de tudo o que é equilibrado. 

Na Idade Média, havia a chamada prova da balança ou bibliomancia, que servia para condenar os feiticeiros. Colocava-se o acusado sobre um dos pratos de uma balança e no outro se depositava uma Bíblia. Se o acusado pesasse mais, seria condenado. Consta que muitas feiticeiras, bem mais leves que seus comparsas masculinos, conseguiram escapar da condenação. De um modo geral, porém, a bibliomancia consistia na adivinhação do futuro através da interpretação de uma passagem de um livro aberto ao acaso.


HOKSENWAAG
A cidade holandesa de Oudewater é famosa porque desde o final da alta Idade Média gozava de um privilégio incomum, não possuído por nenhuma outra na Europa. Milhares de pessoas acusadas de feitiçaria a procuravam na esperança de obter um livramento de tal acusação ou suspeita. É que nessa cidade havia um edifício público, conhecido como Hoksenwaag (Casa de Pesagem de Feiticeiros) que expedia certificados para esse fim. Um magistrado verificava primeiramente se o interessado não escondia nada sob suas vestes. Com vestes sumárias, quase nu, descalço, na presença de um conselho da cidade, a pesagem era realizada em público. O certificado expedido, no caso inocência, era muito detalhado, selado, com diversas assinaturas das autoridades, libertando o acusado de qualquer suspeita. Lembremos que na Bíblia (Provérbios) encontramos: A balança enganosa é abominação diante do Senhor; o peso justo é a sua vontade. O objetivo maior da pesagem realizada em Oudewater era o de se constatar se o incriminado havia sido colocado ou não em estado de levitação pelo Diabo. 

JABIR  IBN  HAYYAN
A simbologia da balança foi muito utilizada pela Alquimia. É do mundo árabe que nos vem o Livro das Balanças, de autoria de Jabir Ibn Hayyan (sécs. VIII-IX), chamado de Geber pelos latinos, que viveu perto de Bagdá. Para ele, por exemplo, o ouro representava o equilíbrio perfeito entre os dois princípios opostos e complementares, o enxofre e o mercúrio. Os outros metais seriam manifestações destes mesmos dois princípios, mas através de uniões imperfeitas. 

Os gregos, antes de definir melhor a área zodiacal de Libra, entendiam que ela pertencia às pinças da constelação de Escorpião, as Chelae Arum, segundo os romanos. Os sumérios já conheciam a região como separada de Escorpião, chamando-a de Zibba Anna, a Balança do Céu. Os árabes, apoiando-se nos babilônicos, davam o nome de Zuben el Genubi e Zuben Eschamali às duas principais estrelas de Libra, e também uma tradução dos nomes gregos dados por Ptolomeu. Para o ocidente, a “independência” de Libra só ocorreu por volta de 1.100 aC, quando a constelação começou a marcar o equinócio do outono. Sosígenes, um astrólogo alexandrino, provavelmente ciente das elaborações sumérias e egípcias, deu subsídios para que no calendário Juliano a constelação de Libra ficasse posicionada entre Virgem e Escorpião. Tudo isto explica porque o signo de Libra foi o último a ser introduzido e fixado no Zodíaco. Em sânscrito, Libra é Thula e em grego Zygos.


 LIBRA   E   ESCORPIÃO   

A balança, em todas as tradições, sempre apareceu associada à espada (Áries), unindo os dois símbolos a função administrativa e a função militar. É por essa razão que os celtas viam a espada tanto como um emblema da bravura e do poder guerreiro, sinônimo de
KSHATRIA , RAJPUT
destruição, como símbolo da justiça e da paz, na medida em que a destruição deve ser aplicada à injustiça, à ignorância, àquilo que é malefício, tornando-se por esse fato positiva. É por isso que a espada evoca também a guerra santa. Na Índia, é a casta dos Kshatrias, a segunda, a do poder político e a dos guerreiros, que une os dois símbolos, a balança e a espada, deixando-nos claro esta associação que a espada deve se colocar a serviço da justiça, o que nem sempre, porém, acontece. 

Entre os gregos, a primeira divindade associada ao signo de Libra foi Têmis. Filha de Urano e de Geia, Têmis (etimologicamente, estabelecer como norma) é a deusa das leis imprescritíveis, irrevogáveis e universais de origem divina. Estas leis opõem-se àquelas estabelecidas pelos homens (nomos) e às regras morais, o chamado direito consuetudinário. A ideia de uma lei divina já tinha sido aventada por Heráclito, na filosofia pré-socrática na medida em que o filósofo  vinculou as leis humanas à lei cósmica. 


TÊMIS , ZEUS  E  PALAS
A titânida Têmis foi a segunda esposa de Zeus Todo-Poderoso. Unindo-se a ele, tornou-se mãe das Horas  e das ninfas do rio Erídano (o rio Pó, da Itália), as mesmas que ensinaram a Hércules o caminho que levava ao Jardim das Hespérides (3º trabalho, referente ao signo de Gêmeos). Devido à sua união com Têmis, Zeus assumiu a condição de divindade máxima da qual derivam todas as leis, os ordenamentos e o direito em geral. Em nome de Zeus, os reis da terra deviam exercitar o seu poder, fazendo justiça e defendendo a ordem. É por essa razão que, já em Homero, Têmis é sempre invocada com Zeus para estender a sua proteção ao justo.

A Têmis cabia também o poder sobre os oráculos e os ritos em geral, além de supervisionar as assembleias. Os oráculos são locais onde a divindade pode falar diretamente por meio de um médium que caia em estado de entusiasmos. Os gregos chamavam tal local, onde se buscava um bom conselho (chresmos) de chresterion ou manteion. Os romanos o chamavam de oraculum, de onde veio a palavra para a nossa língua. O mundo oracular é, por excelência, feminino. Mesmo depois que o oráculo de Delfos, de Geia e de Têmis, passou para o mundo patriarcal (conquistado por Apolo), a transmissão das sentenças oraculares não pode deixar de prescindir do feminino, reveladas que eram por mulheres, as pitonisas ou sibilas. Foi Têmis quem passou a Apolo o domínio da mântica usada no referido oráculo. A mântica de Geia e de Têmis era a chamada mântica por incubação, transformada pelo deus em profética.   


GIGANTOMAQUIA  -  PARTENON

Como grande divindade das leis eternas, era Têmis também a dona do bom conselho sob o nome de Euphrone, atributo que dividia com Nix, a deusa da Noite. Têmis aconselhou a Zeus, na Gigantomaquia, a cobrir o seu escudo, que por isso recebeu o nome de égide. Esta palavra vem do grego aigis, cabra, pois foi com a pele da cabra Amalteia que tal escudo foi coberto e depois passado
JARDIM   DAS   HESPÉRIDES
( E. BURNE - JONES , 1833 - 1898 )
para as mãos de Palas Atena. Consta que foi também por conselho de Têmis que a guerra de Troia foi deflagradas como uma forma de equilibrar melhor, ao tempo, o excesso de população da terra. Deve-se também a Têmis, como antiga titular do oráculo délfico, o conselho dado a Zeus e a Poseidon para que não se unissem à nereida Tétis, pois, se o fizessem, ela daria à luz um filho mais poderoso que o pai. Previu ainda Têmis que um dia um filho de Zeus (Hércules) retiraria do Jardim das Hespérides os pomos de ouro, guardados no referido jardim, pelo gigante Atlas.

DIONISO  E  AS  HORAS

Assim como Têmis tem a ver com a constelação de Libra, as suas filhas as Horas também a ele se ligam, integrando-se ao séquito da deusa Afrodite, que assumiria a tutela da referida área zodiacal como o planeta Vênus. As Horas eram filhas de Têmis e de Zeus e eram consideradas as divindades das estações do ano. Eram três, correspondendo à primavera, ao verão e ao outono, pois o inverno não era considerado como uma estação, já que era um período em que a natureza morria. Por isso, o número das Horas se fixou em três, cada uma delas com um atributo: flores (primavera), grãos (verão) e uvas e frutos (outono). Havia uma quarta Hora, a do inverno, representada com despojos de caçadas, mas que nunca teve o realce das irmãs. 

Como divindades das estações, promoviam as Horas o desenvolvimento da natureza, colocando-se porém sob a tutela de divindades maiores. Ligadas à vida da natureza, exerciam elas o controle sobre as mudanças do tempo, abrindo ou fechando os portões do céu, provocando a alternância entre os períodos chuvosos e os ensolarados, tudo para o melhor crescimento da vida vegetal. Gentis e simpáticas, movendo através da dança, usando coroas de ouro enfeitadas com flores, eram sempre benevolentes e protetoras da humanidade. Apesar de às vezes provocarem a impaciência em principalmente em razão de atrasos, sempre acabavam por aparecer, trazendo doçura e beleza, jamais decepcionando.


IRENE ,  EUNOMIA  ,  DIKE 

De divindades do mundo vegetal passaram depois a representar as horas do dia. Seus nomes: Eunômia (disciplina), Dike (justiça) e Irene (paz). Eram chamadas pelos atenienses por outros nomes, respectivamente: Talo (a que faz brotar), Auxo (a que provoca o crescimento) e Carpo (a que prodigaliza os frutos). Aos poucos, a ação das Horas se estendeu ao mundo dos humanos, como divindades que asseguravam o equilíbrio e o ajuste da vida social. Participavam elas também de modo especial da paideia, na medida em que cuidavam da educação das crianças, “umedecendo-as” (no mundo natural, eram as Horas encarregadas de distribuir a umidade) corretamente para que brotassem no tempo certo, crescessem adequadamente e florescem no tempo devido. 

Assim como tinham a ver com a ordem das estações, as Horas participavam da moralidade da vida social, nos seus aspectos quanto à virtude, à honestidade, ao bem, à manutenção da palavra dada etc., o que se tornava ainda mais evidente por serem filhas de Têmis. Assim, neste domínio, Eunômia personificava a legislação de um modo geral; Dike, a justiça; e Irene a paz. Os serviços da primeira voltavam-se sobretudo para a vida política, sendo o resultado de suas intervenções muito celebrados por poetas e pelo Estado de um modo geral. Dike atuava mais na área do chamado Direito Civil, na esfera das relações individuais, passando informações ao Pai de todas as injustiças cometidas. 

IRENE   E   PLUTO
Irene, a mais álacre das irmãs, era muito reverenciada em festivais em que se celebravam a convivência humana. Irene tornou-se mais tarde, segundo algumas versões, mãe de Pluto, a personificação da riqueza, um robusto menino que passou a acompanhar Dioniso e Perséfone, carregando uma cornucópia. As imagens de Pluto o descrevem como cego porque favorecia tanto os justos quanto os injustos. Segundo consta, foi o próprio Zeus quem o cegou, para impedir que socorresse só os bons. Irene era reverenciada também sob o nome de Chloris (em Roma, a deusa Flora), como divindade dos brotos, dos botões e das flores, muito cortejada por Bóreas, o vento do norte, e por Zéfiro, o vendo do oeste. Como dissemos, uniu-se a este último, tornando-se sua fiel esposa. 


ZÉFIRO   E   FLORA
( W. A. BOUGUEREAU , 1825 - 1905 )