segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (2)

                                                     

O mito que melhor explica o signo de Sagitário para a cultura ocidental é o do centauro Kiron,  como os antigos gregos o elaboraram, com base certamente nas influências recebidas dos mesopotâmicos. Antes, porém, é preciso entender que Kiron, como tantos outros monstros, faz parte da galeria de estranhos seres bicorpóreos produzidos pela imaginação humana,  que encontramos em todas as culturas. Monstros são sempre símbolos das dificuldades e dos obstáculos que o homem deve vencer para ter acesso a certos bens e/ou a níveis superiores de vida, seja material ou espiritualmente. Sempre associados à vida primordial na Terra, os monstros míticos são seres de um mundo que antecedeu a organização do cosmos, um tempo em que a ordem ainda não se impusera aos seus elementos constitutivos, um tempo anterior ao da História. Nesse sentido é que os monstros, onde aparecem, lembram sempre regressão, indiferenciação, indeterminação, confusão,  como agentes do caos. Significam sempre uma perturbação, uma perversão, uma resistência à ordem, um desejo de voltar a um estado que antecedia o mundo conhecido como obra dos deuses e dos homens. 

Produzidos pelos excessos e descontroles da imaginação criadora dos homens, a faculdade que que eles têm de representar seres ou coisas ausentes, os monstros “vivem” no psiquismo dos homens, invadem a sua consciência, anulando ou distorcendo o que se entende por vida racional. Seja pela memória, pelo hábito, pelos sonhos, por  desejos recalcados ou por complexos, essas entidades vêm, ao longo de  milênios, dando provas de seu poder, da sua ineludível presença na vida dos seres humanos.

Todas as sociedades humanas sempre procuraram estabelecer o que devia ser entendido por seus membros como essencial para a sua sobrevivência, principalmente sob o ponto de vista moral, das suas relações, do seu convívio, em termos de sentimentos, ação e razão. Conceitos como humano, humanidade, humanismo, vida comunitária, por exemplo, pedem limites  bem definidos. Comportamentos que afrontam ou que contrariam esses conceitos, baseados em práticas e valores diferentes, devem ser desestimulados, condenados, proibidos. 

Na história da humanidade, um dos meios mais eficazes para falar de comportamentos socialmente nefastos, condenáveis, que atentem contra a ordem estabelecida, foi o de compará-los com exemplos retirados do reino animal, considerados totalmente contrários àqueles que são esperados de um ser humano normal. Daí se caracterizar, de uma maneira no geral muito simplista  até, como animal, bestial, esses comportamentos, como se houvesse uma fronteira perfeitamente definida entre a vida instintiva e a vida racional.

O comportamento animal diz respeito ao que se denomina vida instintiva. Instinto é impulso para agir que independe da razão. No animal, tem caráter compulsivo e nele costumamos distinguir três características: é inato, uniforme e específico a cada espécie. Já quanto ao ser humano, a vida instintiva apresenta bem maior complexidade: depende do temperamento de cada um, da sua inteligência, do seu nível de consciência, e da maior ou menor pressão por ele sentida com relação às regras sociais.

É preciso lembrar que nenhuma outra fonte iconográfica proporcionou ao homem tantas possibilidades para ele estabelecer o seu universo simbólico como o animal. Poucas são as qualidades e peculiaridades humanas que não podem ser representadas pelo mundo animal. Os mitos, as religiões e mais perto de nós a psicologia sempre procuraram representar o simbolismo da vida instintiva, do inconsciente, da libido e das emoções valendo-se sobretudo de exemplos colhidos no mundo animal. 

Na mitologia grega, os centauros fazem parte de um grupo de monstros bicorpóreos, formados por uma parte humana e por uma parte animal. Representam assim a permanente ameaça da vida instintiva à vida racional. Na sua parte superior, pelo ser humano, possuem cabeça, tronco e dois braços; na parte inferior, pelo cavalo, possuem a genitália animal, quatro pernas e patas.  Concupiscentes, lúbricos, os centauros mais conhecidos, viviam em bandos, alimentavam-se de carne crua, eram barulhentos e gostavam do vinho, embriagando-se facilmente, entregues sempre às mais baixas paixões.

O cavalo, na mitologia grega, foi “inventado” pelo deus Poseidon quando disputou com Palas Athena a tutela da polis ateniense. Conta o mito que o povo da cidade optou pela “invenção” que a deusa lhe ofereceu, a oliveira, rejeitando a oferta do deus dos oceanos. Dentre as várias possibilidades significativas que o cavalo adquiriu, uma das mais importantes foi a de se sonsiderá-lo como um símbolo universal da energia psíquica colocada a serviço das paixões humanas, a sexual sobretudo, paixões que se não controladas podem levar o homem à destruição. É com este sentido, por exemplo, que ele aparece nos bestiários medievais como um ser da impulsividade, da impetuosidade dos desejos, das pulsões instintivas que acometem o homem. Esta associação do cavalo com as forças obscuras que atuam no psiquismo do ser humano, visualiza-o sempre como uma encarnação da libido negativa que se opõe a qualquer tentativa de controle. 

É de se lembrar que algumas línguas, como a francesa e a inglesa, encerraram  na designação que deram a sonhos angustiantes, os pesadelos, essa relação entre o cavalo e as forças obscuras do inconsciente. O pesadelo, como se sabe, é um sonho  aflitivo que nos oprime, como se algo (a pata de um cavalo) pressionasse o nosso peito, podendo afetar a nossa respiração, causando inclusive perturbações respiratórias, dispneia. Em francês, pesadelo é cauchemar, palavra formada pelo verbo cauchier (calcar, oprimir; calcare, em latim) e por mare, palavra oriunda de antigas línguas europeias nas quais tinha tanto o sentido de besta, animal, cavalo como de fantasma noturno). Para os ingleses, a mesma coisa: pesadelo é nightmare, que podemos traduzir como a opressão noturna do cavalo. 

Apesar desta visão negativa do cavalo aparecer com muito ênfase nas tradições mítico-religiosas e artísticas, não podemos esquecer que foram os próprios gregos que também viram o animal positivamente. Esta versão positiva do animal, que recebeu o nome de Pégaso (nome que lmbra fonte, em grego), tem na sua origem uma história na qual aparece o  próprio deus Poseidon, que o gerou ao se unir à Medusa. Aparecendo como um animal em tudo diferente dos centauros, Pégaso é, no mito, tanto montaria de heróis como um símbolo de elevação, da imaginação criadora e fonte da inspiração poética. 

Branco e alado, rápido como o vento, só poderia ser montado por heróis. Ao escoicear o flanco do monte Helicon, fez brotar a fonte de Hipocrene (Fonte do Cavalo), de cuja água podiam se beneficiar os artistas para a sua inspiração. Para que isto acontecesse, porém, os artistas, como os heróis, deveriam ter o domínio completo da sua montaria, isto é, ser donos de uma tekhne (técnica) perfeita. Sem esta, Pégaso lançava ao solo tanto cavaleiros como artistas despreparados. 

Em muitas tradições, depois, lembre-se, na esteira da grega, temos o registro da transformação do cavalo num símbolo positivo, como, por exemplo, o encontramos na famosa tapeçaria de La Dame à La Licorne. No início da Idade Média, o cavalo adquiriu um status de nobreza, uma aura solar. Apesar de continuar trabalhando nos campos e de simbolizar a impetuosidade dos desejos, associado à vida inconsciente, sua imagem consagrada neste período é a que o considera como a montaria do guerreiro, do cavaleiro, do caçador, sempre valorizado positivamente pelas ordens de cavalaria que se fundam em vários países da Europa.      

Agrupam-se os centauros na mitologia grega em duas famílias. Uma delas está relacionada com a história de Ixion, filho do deus Ares, rei dos lápitas, um povo da Tessália. Insolente e falastrão, para se casar com a bela Dia, Ixion prometeu ao pai da jovem, Dioneu, que o cumularia de presentes, uns cavalos maravilhosos. Realizado o casamento, nada de presentes, porém. Ao reclamá-los ao genro, Dioneu foi assassinado por ele, que lançou o corpo do sogro num poço cheio de carvões em brasa. Ocultando o acontecido, falso e hipócrita, Ixion passou a cultuar a memória do sogro em cerimônias que Dia realizava.

Historicamente, os lápitas eram rudes criadores de cavalos e mercenários. Violentos e cruéis, viviam nos maciços montanhosos ao norte da Grécia. Úmida e fria no inverno, muito quente no verão, a Tessália se integrou ao mito pelas histórias de muitos de seus personagens, do deus-rio Pneu, da ninfa Filira, de Lápites (filho de Apolo), de Mopso e de muitos outros, alguns inclusive participantes da expedição dos argonautas.

O assassinato de Dioneu acabou sendo descoberto e levou os lápitas a investigar outros crimes cometidos por seu rei, todos desvendados. Ixion foi afastado do trono e expulso do seu reino.Tornou-se um ser errante, um nômade, por todos amaldiçoado. Zeus, que do alto tudo via, compadeceu-se inexplicavelmente de seu neto, chamando-o para viver no Olimpo. Mal instalado na mansão dos deuses, atacado por imensa hybris, ousou Ixion cometer um crime muito mais grave do que aqueles que cometera em sua vida terrena. Tentou violentar a deusa Hera, esposa imperial de Zeus, seu protetor. 

Cientificado do fato por Hera, Zeus mandou confeccionar com nuvens um simulacro de sua esposa, em tudo idêntico a ela, chahamdo Nephele (nuvem, em grego). Ixion caiu no engodo. Unindo-se sexualmente com o simulacro da deusa, tornou-se pai de uma grande ninhada de centauros, machos e fêmeas, despachados para viver na Terra, chamados desde então de ixiônidas. Para castigar o insolente Ixion, Zeus lhe deu ambrósia, tornando-o imortal, e depois o mandou para oTártaro, o mais profundo do mundo infernal, para que, até o final dos tempos, ficasse amarrado com serpentes a uma roda incandescente ali a girar. Alguns poucos mortais que visitaram o Hades, contam que Ixion, preso à roda, grita dia e noite: Honrai vosso benfeitor pelo tributo da gratidão. 

O outro grupo familiar onde encontramos centauros é o que tem por origem a relação que Kronos manteve com uma jovem e belíssima oceânida, que passou à história com o nome de Filira (nome grego da tília, árvore-símbolo da amizade). Kronos uniu-se à jovem sob a forma de esplêndido garanhão, já que ela, para fugir dele, tomara a forma de uma égua. Dessa união, nasceram vários centauros, totalmente diferentes dos ixiônidas. Gentis, pacíficos, eram amigos dos deuses e dos humanos. Dentre todos, porém, destacava-se um, inteligentíssimo, ao qual foi dado o nome de Kiron (do grego, kheir, mão), “o que trabalha com as mãos”.

Além dos dois grupos familiares mecionados acima, temos que fazer referência também a um outro centauro, pela sua participação indireta na morte de Kiron. De nome Folo, filho único de um sileno e de uma ninfa melíade, este ser, nascido como centauro, era pacífico. Silenos participam do mito como companheiros envelhecidos do deus Dioniso, fazendo parte de seu séquito. As melíades, nascidas do sangue derramado de Urano, quando de sua castração por Kronos, são ninfas dos freixos, árvores que fornecem uma madeira especial pela qual os heróis gregos têm especial predileção para a confecção dos cabos de suas lanças. Vivendo na Arcádia, recebeu Hércules quando nosso herói para lá se dirigiu para dar cumprimento ao seu sétimo trabalho, a captura do javali de Erimanto. 

Certa vez, quando em visita à Terra, o deus Dioniso, hospedado por Folo, deu-lhe uma botija de precioso vinho, recomenando que só a abrisse quando Hércules passasse pela região. Lembrando-se da recomendação do deus, mas, ao mesmo tempo, sabendo que se abrisse a botija os centauros ixiônidas que por ali viviam  invadiriam a sua gruta, relutava em fazê-lo. Precipitando-se, Hércules rompeu o lacre da botija; imediatamente, os ixiônidas, com grande algazarra, invadiram a gruta, tentando arrancá-la das mãos do nosso herói. Reagindo, Hércules matou alguns, pondo-se a perseguir outros que fugiram. Ao retornar, Hércules encontrou Folo agonizante. Ao sepultar diligentemente os centauros que nosso herói matara, uma das flechas, que eram envenenadas, acidentalmente desprendeu-se e o atingiu na perna. Hércules esperou que Folo morresse, preparando-lhe um funeral magnífico.

Pesarosa, diante dos monstruosos filhos que tivera, a jovem oceânida rejeitou-os e pediu aos deuses que a metamorfoseassem, sendo ela então transformanda numa tília. Kronos, por seu lado, entregou Kiron a Ártemis e a Apolo, os deuses da Lua e do Sol, respectivamente, para que eles se encarregassem de sua educação. Como preceptora do infante Kiron, Ártemis assumiu diante dele o seu aspecto “oriental”, o de Potnia Theron, a Senhora das Feras, divindade protetora de todas as crias, filhotes e rebentos do mundo animal, protetora de tudo o que entrava na vida, mas que devia aprender que vida pede desapegos, como um passar, um fluir, um devenir constante.

Embora a corça seja o seu animal predileto, que está sempre ao seu lado, Ártemis nos lembra que em razão de seus imutáveis condicionamentos instintivos, a corça não “sabe passar”, não sabe adaptar-se a situações novas que tem de enfrentar. É, nesse sentido, instinto puro e, como tal, tem que ser sacrificada. Não é preciso se fazer muito esforço para perceber o quanto dessa educação pode ser aplicável aos seres humanos que não sabem construir uma personalidade autônoma nem nela integrar hábitos, atavismos e os comportamentos herdados, de modo a transformá-los  em algo seu. É por isso que a Lua, como se sabe, sob o ponto de vista aqui expresso,  encarna astrologicamente a anima, o princípio feminino, maternal, passivo, as trevas do inconsciente. Rege, por isso, os temperamentos linfáticos, digestivos, receptivos, marcados por forte instinto de conservação, sempre voltados para a calma, para vida protegida, a ser vivida dentro de fronteiras seguras.

A Ártemis de que falamos aqui nada tem a ver com aquela que os creto-micênicos veneraram como deusa da fertilidade do solo e da fecundidade humana. Esta deusa que aqui relacionamos com Kiron é chamada de Elafieia, a que massacrava corças e veados, no festival de Elafebolion, realizado anualmente em março, no qual, em alguns lugares da Grécia, se praticavam os ritos do diasparagmos (despedaçamento das vítimas ainda vivas) e da omophagia (consumo da carne e do sangue do animal sacrificado).

Quanto a Apolo, como deus da luz e da harmonia, transmitiu ele a Kiron que um ideal de sabedoria que só poderia se realizar pelo controle das pulsões, dos desejos humanos, pela via racional, e por sua progressiva orientação a caminho, sempre, de uma crescente espiritualidade. Faziam parte desse ideal apolíneo também os ensinamentos complementares referentes à ética, à mântica profética, à medicina, à leitura do céu e às artes em geral, com destaque especial para a música,  

Apolo explicou a Kiron, sob o conceito de inteligência, todo um conjunto de funções (sensação, associação, memória, imaginação, entendimento, razão e consciência) que lhe permitiram racionalmente compreender todas as relações entre os seres e as coisas do mundo. Assim o fazendo, incutiu-lhe Apolo todo um ideal de sabedoria que, no homem, se realizaria por sua caminhada em direção de uma espiritualização progressiva pelo alargamento cada vez maior do campo da sua consciência. Um ideal de sabedoria no qual a vida instintiva e a razão, aquela devidamente iluminada por esta, se ajustariam para que ambas, cada uma no seu nível, se tornassem servidoras da vida espiritual, uma concepção ternária que o próprio Kiron emblematizava com o seu corpo híbrido e com o arco e a flecha que Apolo lhe pusera nas mãos. 

Aqueles que não sabiam “passar, que continuavam apegados às influências das suas origens, inteiramente presos à vida instintiva, não sabendo integrá-las a um eu novo que teriam que construir na sua caminhada,  Ártemis os “matava” impiedosamente. Era nesta condição que a deusa aparecia como cruel, sanguinária, bárbara, em vários cultos como o do Elaphebolion. 

Como aconteceu também com relação à dupla personalidade de Ártemis, a personalidade apolínea que se relacionou com Kiron foi a do deus como venerada na Ática, a de uma magnífica figura, representada pelo Sol e pela luz civilizadora, sendo neste papel conhecido ele pelo nome de Apolo Musagetes (condutor das Musas), divindade tutelar de todas as artes. Não foi como uma divindade dórica, ligada à vida castrense e às aventuras colonialistas, honrado nos acampamentos militares, o violento, vingativo e temível Toxoforo (Arqueiro), que Apolo assumiu a educação de Kiron. Foi como um deus ático, ateniense, que ele transmitiu a Kiron um conhecimento que refletia um ideal de beleza e de progresso, representado pelo arco e pela flecha, por ele oferecido ao centauro, um símbolo complexo, do qual fazem parte, na perspectiva apolínea, ideais de separação e de libertação por um domínio em que se harmonizassem, uma servindo à outra, a vida instintiva, a vida racional e a vida espiritual. 

Kiron, do grego kheir, mão,  o que trabalha com as mãos, com os ensinamentos recebeidos de Ártemis e de Apolo, tornou-se um ser muito diferente dos seus congêneres ixiônidas. Sábio e prudente, amigo dos deuses e benfeitor dos humanos, era muito conhecido como médico, cirurgião, herborista e terapeuta, além de profundo conhecedor de todas as artes. Logo se tornou o tutor de um grande número de filhos de deuses e de futuros heróis. Vivendo num gruta do monte Pelion, casado com Cáriclo (a de grande beleza e renomada, etimologicente), oceânida, foi pai de três filhas, Hipe, Endeis e Ocírroe,  e de um filho, Caristo.

Passaram pela gruta de Kiron, como seus discípulos, além de  outros, os Discuros (Castor e Polideuces); Aquiles, o fremente; Hércules, cuja amizade lhe seria fatal; Jasão, o chefe da expedição dos argonautas; Ulisses, o polimetis; Meleagro; Acteon; Amphiaraos, o duplamente maldito; Diomedes. Dentre seus discípulos, merece referência especial Asclépio, filho de Apolo, que se tornaria a maior divindade médica da Grécia no grande santuário de Epidauro.

Foi Kiron, por exemplo, quem deu sábios conselhos a Peleu para que ele cortejasse e se unisse a Tetis,para que dessa união nascesse Aqquiles, o maior guerreiro dos gregos. Foi Kiron quem preparou o calendário de que se serviram os arganautos para a sua viagem à Cólquida, além de orientá-los com relação à posição dos astros no céu. Consta que Kiron, com os acordes de sua lira, curava muitas doenças e que pelo conhecimento da influência dos corpos celestes prevenia os homens quanto às suas influências nefastas. Muito se poderia dizer sobre a vida de Kiron e do quanto ajudou mortais, heróis e deuses. As informações mais detalhadas que temos sobre ele estão registradas em Apolodoro (Biblioteca Mitológica) e Apolônio de Rodes (Argonáutica).

A morte de Kiron se deve a uma fatalidade, ligada diretamente à  morte do centauro Folo, acima relatada. Hércules,  ao perseguir  os brutais e selvagens centauros que fugiram da gruta de Folo, disparou uma flecha que, trespassando o coração de um deles, de nome Elato, atingiu acidentalmente Kiron na coxa. O sangue dos centauros, como se sabe, é um veneno contra o qual não havia antídotos. A flecha envenenada não matou Kiron, pois tinha em seu corpo um lado imortal, como filho de Kronos. Isto não impediu entretanto que as dores o atingissem, causando-lhe  muito sofrimento ao seu mortal. Diante dessa aflitiva situação, Hércules propôs um acordo a seu pai divino, Zeus: que Kiron cedesse o seu lado imortal ao titã Prometeu, condenado a padecer eternamente por ter roubado o fogo dos céus e tê-lo entregue aos humanos. 

Acorrentado nas montanhas do Cáucaso por ordem de Zeus, um abutre gigantesco destruía diariamente o fígado do titã, que se recompunha à noite quando a monstruosa ave se afastava. Zeus afirmara que só o libertaria se um imortal cedesse a sua imortalidade a ele e fosse para o Hades, o reino dos mortos. Aceita a proposta, Kiron foi liberado de seu sofrimento e pode assim morrer tranquilamente. Para homenagear o desprendimento de Kiron e para que o seu exemplo jamais fosse esquecido pela humanidade, Zeus colocou o centauro-mestre nos céus, com o arco e a flecha nas mãos, como a constelação de Sagitário, a nona do círculo zodiacal.

Desde então a constelação de Sagitário é representada pela mítica imagem do centauro, com um arco e uma flecha a ser disparada nas mãos. Muitas vezes, porém, ao invés da imagem do centauro, em algumas tradições astrológicas, já na antiguidade, a constelação era representada apenas por uma flecha, disposta de modo a formar um ângulo de 45º com a base da figura, o melhor ângulo para se atingir a máxima distância.  

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SAGITÁRIO (1)


SAGITÁRIO  ( BOLONHA, SÉCULO XIII )
                                          
Nas antigas tradições astrológicas da Ásia, o signo de Sagitário sempre foi representado por uma flecha ou por uma flecha e um arco. Nomes que o designavam, nomes como Kaman (Pérsia), Yai (Turquia), Kertko /Caldeia), Al Kaus (Arábia), todos, têm relação com a flecha. Há registros de que no antigo Egito a constelação era representada por um cisne ou um íbis, embora o zodíaco de Denderah nos mostre um arqueiro bifronte, uma parte humana e outra leonina. Na Mesopotâmia, a constelação era representada também por uma figura híbrida, um ser muito especial, parecido com um sátiro grego.  Inscrições cuneiformes designam a constelação por nomes como O Forte e O Gigante Rei da Guerra, personificando o arqueiro deus da guerra, Nergal, depois deus dos infernos, confundido às vezes com o planeta Marte. 

Os hindus, há mais de 3.000 anos aC, já representavam Sagitário por um cavalo, por uma cabeça de cavalo ou por um cavaleiro. O nome sânscrito desta constelação que se fixou para nós foi

entretanto o de Dhanus (arco). Na tradição dos Upanishads, o signo de Dhanus propõe a identificação com a flecha, representando o conhecimento que liberta do karma e do ciclo dos renascimentos. No antigo mundo védico, a sílaba sagrada AUM (OM) era o arco, atma, a alma, a flecha, sendo o Brahman, o Todo, o alvo, tudo isto sugerindo a saída da multiplicidade e do samsara pela volta à unidade. 

Nos tempos védicos, os astrólogos davam o nome de Brihaspati a uma dividade que tutelava o planeta Guru, Júpiter na astrologia ocidental, regente de Dhanus. Com o tempo, essa distinção acabou desaparecendo, sendo Brihaspati, denominado como “pai dos deuses” ou “preceptor dos deuses” citado astrologicamente como o próprio regente do signo. Brh é um prefixo sânscrito que significa grande, traduzindo ideias de desenvolvimento, crescimento, expansão. Pati significa senhor. Brihaspati é, assim, aquele que governa porque é grande, porque tem poder  e porque se expande. 

BRIHASPATI
Brihaspati, entre os hindus age como a inteligência e a palavra dos deuses, sendo identificado como a divindade que permite ao ser humano ter acesso a um nível de conhecimento que lhe possibilita ultrapassar o que o mental comum, inconstante e instável, lhe fornece através de budha (o planeta Mercúrio) e das condicionantes impregnações lunares (manas). É o conhecimento proporcionado por Brihaspati (Júpiter), como buddhi, que põe o hindu não só em contacto com o testemunho de grandes sábios do passado como lhe possibilita o acesso a um tipo de conhecimento superior, libertador, estabelecendo uma ligação com o Brahman.

Ao se identificar com a flecha, conforme proposta do nono signo astrológico, Dhanus, o homem adquire o conhecimento que o liberta do ciclo dos renascimentos (samsara), transformando o que nele há de animal e racional em espiritual, liquidando-se, assim, os seus débitos kármicos.  A filosofia vedantina, como sabemos, distingue quatro tipos de karma. O primeiro é o sanchita-karma, a totalidade das sementes (efeitos) acumuladas, provenientes de encarnações anteriores, que ainda não começaram a germinar, encontrado na quarta casa astrológica. 

O segundo é o prarabdha-karma, a parte do anterior que numa encarnação será vivida, colhida, constituindo a nossa presente biografia; são os efeitos que repercutem numa encarnação presente, que estão no Meio do Céu. O terceiro é o kriyamana-karma, a nossa capacidade de discernir quanto às ações do presente que poderão continuar abastecendo o sanchita-karma e que, como tal, deverão ser evitadas; este conhecimento é encontrado (ou não) na nona casa. Finalmente, o agama-karma, a nossa capacidade de prever o resultado futuro de nossas ações, realizemo-las ou não; confunde-se com o nosso livre-arbítrio. Chama-se upaya (método) o conjunto de recursos encontrados (ou não) na nona casa que podem ser usados para nos ajudar a trabalhar com o kriyamana-karma e o  agama-karma. Para os antigos astrólogos hindus, o prarabdha-karma, o kriyamana-karma e o agami-karma, na vida de alguém, seriam explicados por Jyotish. As mudanças e as transformações que alguém desejasse realizar em sua vida só ocorreriam através do conhecimento que ele tivesse do seu kriyamana-karma e do seu agama-karma, isto é, do que astrologicamente significam o signo de Sagitário (Dhanus), a sua nona casa. 


JYOTISH

Além disso, a transformação desejada só se viabilizaria se conhecido como o seu prarabdha-karma (a sua décima casa), no qual está o karma a ser colhido numa presente encarnação, estaria afetando a sua vida em função da  qualidade, da intensidade e das características que apresenta, segundo os seus níveis: 1) karma não-fixo (adridha); 2) karma fixo/não fixo (dridha-adridha); 3) karma fixo (dridha). No primeiro caso, temos o karma que pode ser removido sem grandes problemas, com algum esforço, porém. Um karma leve. No segundo caso, temos o caso de débitos kármicos, de intensidade média, só removidos com muito esforço. No terceiro caso, temos os débitos kármicos muito pesados, severos, que exigirão  esforços constantes por uma vida inteira, jamais removíveis. 

Dhanus encerrava na astrologia védica o terceiro quadrante zodiacal, conhecido pelo nome de Dharma, antecedido pelo segundo e pelo primeiro, designados respectivamente pelos nomes de Kama e de Artha. O quarto quadrante zodiacal tinha o nome de Moksha. Os nomes destes quadrantes designavam as quatro etapas pelas quais todo o hindu deveria passar, quatro metas de vida, sendo a primeira uma preparação para a segunda e assim por diante.



A primeira meta, Artha, tinha a ver com ideias de afirmação e de conquistas materiais. Nessa primeira meta prevalece matsya nyaya, a lei do peixe, da qual se diz que peixes grandes comem peixes pequenos. Grande parte da humanidade vive segundo esta lei, explicada na filosofia ocidental por pensadores como Machiavel, Hobbes e por correntes filosóficas que defendem o pragmatismo e o utilitarismo. Na segunda
THOMAS  HOBBES , 1588 - 1679
meta, temos Kama,  na qual também grande parte da humanidade está fixada: a vida como busca do prazer. Kama é o nome de uma divindade muito parecida com o Eros grego. Kama, com seu arco, dispara flechas que provocam os desejos humanos. Possui cinco flechas, uma para cada um dos sentidos humanos. É Kama a própria encarnação do desejo. 

Na terceira meta, temos Dharma, conceito que lembra ao mesmo tempo responsabilidade, dever e obrigação. É o quadrante da vida social e, neste sentido, se opõe ao primeiro, o da individualidade. Com Dharma, entramos na vida social, que pede uma noção clara dos direitos e dos deveres dos seres humanos. Este quadrante, astrologicamente, é encerrado por Dhanus, signo que nos fala de conhecimentos superiores que nos levam a uma vida espiritual, transindividual e transsocial, que nos põe em relação com a humanidade como um todo. Com as influências de Dhanus, vividas superiormente, deixamos de agir só em função da nossa individualidade e/ou da nossa vida social. 

Para Jyotish, se Dhanus é o signo do conhecimento, o da sabedoria será o de Peixes (Meena), o da doação, onde o conhecimento que leva ao Brahman será passado aos outros, compartilhado, sem nenhuma ideia de reciprocidade. Doar simplesmente com o objetivo de que a vida do Todo, a humanidade e o mundo natural melhorem. É por isso que o signo de Meena, Peixes, fechava o quarto quadrante na astrologia védica, dando-se o nome de Moksha à última etapa da vida no Hinduísmo. Moksha é palavra que etimologicamente nos remete a ideias de desatar, abrir mão, largar, emancipar, terminar. Moksha é conceito que afasta por isso a noção de ego. É em moksha que se vive plenamente uma das máximas hinduístas, a do desapego do resultado das ações praticadas. É através de Moksha que o homem, o chamado liberto em vida, como parte do Todo, do Brahman, pode se projetar além de si mesmo, em direção do mundo natural e dos outros outros homens.


CORRESPONDÊNCIAS   ZODIACAIS

A esta caminhada em direção do Brahman, que na astrologia é orientada a partir de Dhanus, tanto o Hinduísmo como o Budismo dão o nome nirvana marga. Nirvana é palavra que etimologicamente tem relação com um verbo (nirva) que  significa acalmar, extinguir diminuir, atenuar, apagar, mas que, muitas vezes, pode tomar o sentido de ir-se, de atravessar. Todo este campo semântico diz respeito obviamente ao controle do ego, dos seus desejos, dos seus apegos, da sua ignorância. O nirvana é um estado a ser conquistado, um modo de ser que deve ser confirmado pela própria vida daquele que o busca. A via para esse fim é a que tanto a astrologia como as doutrinas filosófico-religiosas chamam de gnana marga ou jñana marga, o caminho do conhecimento.


MESOPOTÂMIA
Ao que parece, dentre os povos da Mesopotâmia, foram os babilônicos os primeiros a estabelecer a ligação entre determinadas constelações com os meses do ano. Sabe-se que por volta do ano 1.000 aC eles já tinham definido  o círculo zodiacal com dezoito constelações, reduzidas depois para doze. Esta redução possibilitou que não só a noção da eclíptica (via solis) se estabelecesse como também a fixação dos eixos equinociais e solsticiais. Foi a partir das definições acima que a eclíptica foi dividade em doze partes iguais, dando-se a elas, como signos, os seus respectivos nomes (traduzidos): O Mercenário (Áries), O Touro e As Estrelas (Touro com as Plêiades), Os Grandes Gêmeos (Gêmeos), O Caranguejo (Câncer), O Leão (Leão), A Balança (Libra), A Espiga (Virgem), O Escorpião (Escorpião), Pabilsag (Sagitário), A Cabra-Peixe (Capricórnio), O Grande (Aquário) e As Caudas (Peixes). Pabilsag (Sagitário) era uma divindade conhecida desde a mais remota antiguidade mesopotâmica. Era filho de Enlil (Grande Montanha), sendo sua esposa a deusa Ninisina, padroeira de Isin, divindade ligada às doenças e às curas. 

Embora os sumérios tinham iniciado na Mesopotâmia a leitura do céu, pelo reconhecimento de algumas constelações e de planetas, foram os babilônicos, mais tarde, por volta de 2.000 aC que deram a esta leitura um sentido diferente, utilizando-a para fazer previsões
ENUMA   ANU   ENLIL
(presságios) quanto aos seres humanos, geralmente pessoas de elevado status, e quanto a acontecimentos relacionados com a vida do país, conflitos, guerras, epidemias, catástrofes. Ficaram famosas as  tabuletas em argila cozida de uma série intitulada Enuma Anu Enlil que registram, desde o período assírio até o babilônico, a posição aparente dos planetas, principalmente Marte e Vênus. O primeiro representa Nergal, deus da guerra, do inferno e da pestilência, e o segundo, associado a Ishtar, relacionado com o amor, a fertilidade e a paz.   


TIAMAT   E   MARDUK

No mundo mesopotâmico, quando a Babilônia se tornou o maior centro político do país, quem passou a reinar absoluto sobre todos os planetas foi o deus Marduk. Uma descrição dos seus feitos pode ser encontrada na quinta tabla da Epopeia de Gilgamés: Ele
ENLIL
construiu as residências dos grandes deuses. Fixou as estrelas feitas à sua imagem, inclusive os lumasi. Calculou o ano e designou os signos do zodíaco. Atribuiu três estrelas a cada um dos doze meses. Depois de definir os signos e dias do ano (meses), determinou a posição de Nibiru para que cada um tivesse o seu lugar e ninguém se atrasasse ou
EA
adiantasse. Pôs a seu lado Enlil e Ea. Abriu portas de cada lado e levantou sólidos muros à esquerda e à direita. Colocou as alturas no ventre de Ea e fez resplandecer a nova Lua, a quem confiou a noite. Fez dele (a Lua era um astro masculino) um ser da noite, a fim de que os dias se fixassem.


Marduk era o filho mais velho de Ea, cujo nome significa “Casa da Água”, divindade muito semelhante ao Poseidon dos gregos. Na cosmologia mesopotâmica, lembre-se, o elemento primordial era a água. Foi da fusão da água doce, Apsu, e da água salgada, Tiamat, que tudo nasceu, os deuses e os seres da natureza. Tiamat personificava a imensidão oceânica, representando o elemento feminino, que deu nascimento ao mundo. Tiamat lembra o caos, a indiferenciação. Foi de Apsu que saíram as fontes que apareceram na superfície da terra, origem dos rios. De Apsu e Tiamat nasceram as primeiras divindades, um par de serpentes monstruosas, mal definidas. Imediatamente, geraram elas os dois princípios básicos do universo, Anshar, masculino, e Kishar, feminino, representando o primeiro o céu e o segundo a terra, algo assim como Urano e Geia dos gregos.


UTUKKU

As batalhas de Marduk foram muitas. Uma, que serviu para consolidar a sua posição como o maior dos deuses, foi a que travou contra os utukku, gênios do Mal, que atacaram o deus Sin (Lua), cuja vigilância noturna não lhes dava trégua. Com a cumplicidade de Shamash (Sol), de Ishtar (deusa do amor) e de Adad (deus dos relâmpagos e das tempestades), os utukku chegaram mesmo a eclipsar a luz de Sin. Pondo-os em fuga, enquadrando as três referidas divindades, Marduk restabeleceu a ordem celeste e devolveu a Sin a sua luz. 

SIN  

Marduk era representado como um grande senhor, armado com uma cimitarra, submetendo um monstruoso dragão de chifres, uma lembrança da sua vitória contra Tiamat. Esta imagem ocupava uma posição de grande destaque no seu templo babilônico, onde, ao seu lado, aparecia a sua esposa, Sarpanit. Como vencedor de Tiamat, o caos, Marduk criou a ordem cósmica. Ao mesmo tempo que se manifestava como divindade benéfica, ele podia se mostrar violento, atrabiliário, muito agressivo até, demonstrando muitas características que o aproximavam bastante do deus Nergal (Marte). Tal ambiguidade, para os que astrologicamente compreendem bem as influências de Júpiter, não deve causar admiração, apesar de, há muito, desde Ptolomeu, ele ser tradicionalmente considerado como, dentre os planetas, “Fortuna Maior”. 

Não podemos nos esquecer que se divindades como Marduk na Mesopotâmia,  Zeus e Júpiter, no mundo greco-romano, associados ao maior planeta  do nosso zodíaco, representam a soberania suprema, a expansão, a vida espiritual, a iluminação, a dilatação e a
MICHEL   GAUQUELIN  ,  1928 - 1991
ordem, elas podem também, negativamente, simbolizar autoritarismo, autossuficiência exagerada e presunção. Não é por acaso, aliás, conforme os estudos clássicos de Michel Gauquelin, que Júpiter é planeta ascendente ou culminante no tema astrológico de um grande número de altos dignatários nazistas ou que pode ser encontrado, também dominante, em temas de falsos líderes religiosos e profetas.

Participando do simbolismo do raio de luz e da chuva fertilizante como ligação entre dois estados, o celeste e o terrestre, a flecha lembra passagens rápidas e penetração como união mística. É neste sentido, na tradição hinduísta, que a flecha é sinônimo de celeridade intuitiva fulgurante, do chamado saber rápido. Esta relação da flecha com esse tipo de conhecimento  explica-se melhor na medida em que soubermos que sagitta, flecha, em latim, tem
KIRON
relação com  o verbo sagire, perceber rapidamente e também ter faro. Dentro deste verbo encontramos o radical sag, que, em latim, aparece em palavras como sagus (o que pressagia), sagax (que tem o odor sutil como o cão), sagacitas (que tem os sentidos finos), praesagus (que pressente), sagaciter (saber com penetração). É por esta razão que Sagitário é considerado tradicionalmente como o signo da profecia. Saga, sagae era o nome que os antigos romanos davam às suas bruxas, feiticeiras, as que “sabiam antes.” É de todo esse contexto que sai a palavra cinegética, uma das artes ensinadas pelo centauro Kiron aos seus pupilos, como veremos.

Tudo o que se expôs acima poderá ser melhor entendido se compreendermos que Gêmeos é o signo da informação e que Virgo é o da crítica e da aplicação desta informação para que ela se transforme em conhecimento. É neste sentido que Sagitário se torna
o signo das grandes viagens espirituais e intelectuais através das religiões e dos seus códigos, dos textos legais, da filosofia, do estudo e do ensino superior, da vida universitária, do estudo das línguas e dos costumes dos povos etc.  São representantes de Sagitário, de um modo geral, os religiosos, os catedráticos, os magistrados, os professores, os pregadores, os embaixadores, os exploradores, os viajante etc.

domingo, 24 de dezembro de 2017

ESCORPIÃO (6)

                                          
CANAAN
As tribos mesopotâmicas que se instalaram a leste da península do Sinai, deram o nome de Canaan (etimologicamente, país baixo), também chamada de Terra Prometida, à região compreendida entre a atual Síria e a Palestina.  Canaan era o nome de um filho de Cham, o segundo dos três filhos de Noé. Para ali se fixarem, precisaram essas tribos criar um regime político forte a fim  manter entre elas uma necessária união interna a fim de enfrentar não só a hostilidade das tribos locais às quais haviam se imposto como, externamente, fazer frente à ação de invasores.


ABRAÃO  ,  ISAAC  E  JACÓ
Ao primeiro período da história dessas tribos reunidas como nação, deu-se o nome de “período dos patriarcas”, que teve como nomes inaugurais Abraão, Isaac e Jacob. Este último, o terceiro dos patriarcas,  a quem o próprio Deus deu o nome de Israel (etimologicamente, combatente de Deus), foi o pai dos fundadores das doze tribos que constituiriam Israel como nação.  As doze tribos eram subdivididas em famílias, clãs e unidades menores, cada uma delas tendo por chefe um patriarca, que detinha o poder absoluto sobre  os seus filhos, descendentes e as propriedades. 

Foi a organização tribal e, principalmente, a percepção que Jacob teve de Deus que permitiu as essas tribos se tornarem uma nação forte e poderosa, tudo consolidado por uma singularidade religiosa única ao tempo. Esta singularidade  única, se a relacionamos com a concepção religiosa dos vizinhos, tinha por base o monoteísmo, a crença num só Deus, conforme a Bíblia estabeleceu. Esta crença entendia Deus como uma entidade suprema, infinita e perfeita, autogerada, eterna, onisciente e onipotente. Este Deus, apesar de profundamente justo e bom, podia, entretanto, mostrar-se ameaçador e vingativo, atuando como a grande divindade dos exércitos. O objetivo era o de transformar aquele aglomerado de tribos tanto numa poderosa nação como em algo bem maior, transformá-la numa congregação, numa “assembleia permanente do Senhor”. 


ANJO , ABRAÃO  E  SARA ( JAN  PROVOOST , 1465 - 1529 )


No plano político interno, isto significava acabar com as divindades tribais e com cultos regionais, sempre fatores de divisão e de enfraquecimento. Foi com base numa experiência monoteísta egípcia patrocinada pelo faraó Akhenaton (cerca de 1370 aC), que os primeiros patriarcas judeus montaram o seu projeto religioso. Os historiadores que tomam o texto bíblico por base de suas afirmações nos dizem que Abraão com a sua tribo, emigrado de Ur, na Mesopotâmia, com a sua mulher Sara, por volta de 2.000 aC, deve ser considerado como o primeiro dos patriarcas e verdadeiro fundador do monoteísmo dos hebreus. 

As “casas do povo”, muito semelhantes às chamadas “casas de vida” dos egípcios, foram se instalando pelos judeus como lugares de reunião, logo se transformando elas em “casas de assembleia”, isto é, sinagogas, com a finalidade de educar o povo no temor de
MOISÉS RECEBE A TORÁ
(REMBRANDT, 1606-1666)
Deus. Nessas “casas”, a Torá (a lei e a tradição), recebida por Moisés diretamente de Deus, era lida e explicada, ao mesmo tempo em que se criava uma literatura de comentários bíblicos, com interpretação de homilias, salmos etc. Ensinar não só o temor de Deus, mas também preservar toda a sabedoria dos ancestrais. Montou-se, enfim, um sistema em que os homens passaram a manter o poder religioso, político e econômico, controlando a propriedade e exercendo funções de autoridade moral em todos os sentidos, inclusive sobre as mulheres e crianças. A esse sistema deu-se, no seu todo, o nome de Judaísmo, que tem por base uma religião na qual Deus fala aos homens través dos seus profetas.


ARCA   DA   ALIANÇA
( CATEDRAL DE AUCH, FRANÇA )
A esse sistema, sob um outro viés, psicológico, se quisermos, se deu o nome de poder masculino, dele fazendo parte símbolos que o enaltecem como tal. O símbolo maior da relação de Deus com o povo de Israel era a Arca da Aliança, destruída, juntamente com o templo de Jerusalém, onde se encontrava, em 587 aC quando da invasão  comandada por Nabucodonosor. Da Bíblia, fazem parte do seu universo simbólico, para a melhor compreensão da Torá, não só objetos e imagens como textos, sonhos, milagres e outras manifestações enviadas por Deus, símbolos sempre recebidos por profetas e patriarcas.  

Nesse universo simbólico, que tem a finalidade de confirmar a aliança estabelecida entre o povo de Israel e Deus, introduziram-se  símbolos que rebaixaram ou satanizaram o mundo feminino. Na nova ordem, como está no Antigo Testamento (Gênese), a mulher, por determinação de Deus, teve que se submeter totalmente ao homem, tornando-se, ao casar,  propriedade de seu marido, só podendo herdar se não houvesse filhos. Casada, os seus direitos jurídicos, bem como suas possibilidades quanto a atividades religiosas, sociais e culturais, foram bastante limitados. O papel essencial da mulher, desde então, foi o de gerar filhos machos para garantir a continuidade da família. Apesar deste cenário negativo para a mulher, há que se lembrar que algumas delas, como Judite e Esther, por exemplo, desempenharam papéis muito diferentes, como grandes sedutoras (veja neste blog Os (Des)Caminhos da Sedução.  

CATEDRAL  DE  NOTRE  DAME
PARIS
Por ter dado ouvidos à serpente e induzido Adão a comer dos frutos da árvore do conhecimento, Eva, a mulher, e a serpente tornaram-se indissociáveis no mundo judaico-cristão desde que as religiões patriarcais se impuseram . A serpente se transformou num animal ctônico por excelência. Como está no Gênese (3.14) foi condenada a rastejar na poeira por ordem de Deus. 

Nada a estranhar que em todas as tradições e culturas, os seus diferentes aspectos,  seja como kundalini, midgard, boiúna, áspide, boitatá basilisco, angícia, équidna ou leviatã sejam sempre utilizados para representar diferentes estados da consciência do ser humano. É neste sentido também que a serpente passou simbolicamente a ser uma ilustração do universo sensível e manifesto, o ilusório mundo material, o mundo de maya dos hindus.

Foi a tradição judaica, mais do que qualquer outra, talvez, na antiguidade, a que mais tenha se aproximado da relação simbólica entre o feminino, a serpente e a vida inconsciente. A começar pela palavra que os antigos patriarcas usaram para designar a serpente bíblica, nachash, palavra que provém de um verbo que significa adivinhar, prever, vaticinar, pressagiar. Lembremos que os antigos gregos fizeram algo semelhante ao que aqui se diz: deram, no mito, a um animal construído a partir da serpente e do lagarto, o nome de drakon (dragão), palavra que, em grego, vem do verbo derkomai, que significa olhar terrível, um verbo de ação reflexiva. Em derkomai  a ação é devolvida, se volta para o agente, para o que olha. O dragão nos devolve o olhar: Que queres saber? Ao invés de me olhares, interroga-te. O dragão pede que nos enfrentemos, que olhemos dentro de nós. A ideia aqui é de interiorização, descida. Vida recôndita, profunda, secreta, abismo, queda e, quem sabe, renascimento.


DRAGÃO  ( GUSTAVE  DORÉ , 1832 - 1883 )

O dragão, basicamente, como se sabe, animal fabuloso, possui um corpo de dragão com terminação ofídica, asas de águia e garras de leão. Na Bíblia é animal que representa o mal e as trevas, o caos das origens, sempre atuando no sentido contrário de Deus e dos seres angelicais. No Novo Testamento,  no Apocalipse, segundo João, se revela que o dragão reinará sobre o mundo, mas, no final, será vencido pelo reino de Deus. 

Ao final, com a expulsão do paraíso, feita a avaliação, o que temos é que ao invés de terem baixado a cabeça e obedecido, Adão e Eva optaram, ao comer do fruto proibido, pela angústia, pelo livre-arbítrio. Ouviram a serpente:  Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal, este o final do discurso da serpente ouvido por Eva, que o transmitiu a Adão. Orgulho, desejo de poder? Uma conduta não pensada, irrefletida, que exprimia uma reação espontânea (emotiva, passional, reflexa), não procedente de uma decisão voluntária amadurecida? Ao deixar de obedecer a Deus, Adão e Eva caíram na dualidade. Foram expulsos do paraíso, um lugar idílico onde, segundo a vontade divina, deveriam viver pacificamente, felizes e em harmonia. Nada disto parece ter interessado aos dois.


EXPULSÃO   DO   PARAÍSO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1564 )

Cometeram um pecado aos olhos de Deus, isto é, diante do sistema político-religioso institucionalizado, montado pelo patriarcas, que, para se impor, precisava que os que dele participassem não pensassem, mas que tivessem simplesmente fé e aceitassem o dogma, este fundamentado na autoridade religiosa de quem o proclamava. No projeto religioso instituído, profundamente misógino, os antigos patriarcas judeus jamais consideraram Eva  como um complemento de Adão e muito menos como uma iniciadora, uma instrutora, sem a qual ele jamais poderia
HÉRCULES CONQUISTA O CINTURÃO
ter acesso a níveis superiores de consciência. Em várias tradições, esta intermediação da mulher aparece, como se sabe, mas é sempre ignorada ou recusada. Para não me alongar neste particular, basta lembrar, para ficar com o mais conhecido e próximo, que vários mitos gregos nos falam disto. As histórias de Teseu e Ariadne, do sexto trabalho de Hércules (A conquista do cinturão da rainha Hipólita) e do gigante Orion são, dentre outras, exemplares. 

Os patriarcas judeus, orgulhosamente, não só negaram à primeira mulher condições de igualdade, mas, como está no Gênese, no 2º capítulo, a fizeram, como se disse, “nascer” do masculino. Culpada pela perda do paraíso, dele expulsa com Adão, a segunda mulher recebeu o nome de Hawwah, em hebraico, nome que, em antigas línguas semitas, se aproxima muito daquele pelo qual se denominava a serpente. O que também ficou para nós desse episódio é o quão facilmente, na vida psíquica, o feminino se impõe com facilidade ao masculino. 

LILITH  ( WILLIAM  BLAKE , 1757 - 1827 )

O lado feminino ao qual Adão, com o beneplácito de Deus, não deu igualdade se rebelou contra ele e contra o próprio Deus. A Bíblia nada fala do que aconteceu com este lado feminino, de nome desconhecido, a primeira mulher. Sabe-se por textos cabalísticos que este lado feminino, que, segundo alguns, teria inclusive precedido Adão na criação, rebelando-se, tomou o caminho do Mar Vermelho, transformando-se, com o nome de Lilith, na rainha das forças noturnas. Ela foi para o deserto, tornando-se lá a noiva de Samael, o senhor das forças do mal, que os judeus chamam de Sitra Achra. Como um demônio feminino, Lilith transformou-se desde então na própria sedução encarnada. Segundo o mito babilônico, Lilith tem o seu habitat natural no deserto e só encontra a paz nas terras de Edom (etimologicamente, vermelho). 

Lilith, segundo a tradição cabalística, foi criada ao mesmo tempo que Adão, criada a partir da terra, portanto, como ele. O nome Lilith têm relação com prenomes femininos que indicam poder e libertação; Leila, Lélia, Eulália, Eliane, Ella (inglês) e outros são exemplos. Lilith, porém, neste grupo de prenomes, representa o lado demoníaco e rebelde da mulher. Para os judeus, é ela quem diante de Adão proclama que o desejo de conhecer é bom e  é capaz de pronunciar o “nome indizível” de Deus. Eva, como esposa submissa e obediente às leis do casamento e da maternidade, só “nascerá” no segundo capítulo da Bíblia.   

Os judeus designam o pecado pela palavra chet, palavra que lembra desvio, falha de conduta, com relação ao caminho certo, o da Torá. O arrependimento, retorno ao caminho certo, a Deus, é admitido.
TALMUD
Segundo o Talmud, no homem há duas inclinações, uma para o Bem (Deus) e outra para o Mal (Satã-Lilith), tendo ele o poder de escolher entre uma e outra. A esse poder foi dado o nome de livre-arbítrio, a possibilidade de decisão, de escolha, em função da própria vontade humana, isenta de qualquer condicionamento, motivo ou causa determinante. Mais: segundo o judaísmo, o homem tem uma índole, uma natureza fraca, que o inclina para o Mal. Misericordioso, Deus permitiu que, tendo optado pelo Mal, vitimado pelos seus condicionamentos, o homem, desde que arrependido, possa voltar ao Bem. O homem, para o judaísmo, nasce em pecado em consequência do pecado original, de Adão e de Eva, que recai sobre toda a humanidade.



SANTO AGOSTINHO
No catolicismo, Santo Agostinho foi pelo mesmo caminho dos judeus, dizendo-nos que pecado é qualquer ato ou desejo contrário a Deus, ou seja, contrário a tudo o que está expresso nos dez mandamentos. Outros antigos padres da Igreja católica sempre insistiram num ponto:qualquer pecado é um abuso de liberdade. Do pecado adâmico participam, desde então, todos os seres humanos devido à sua origem. A expulsão do paraíso definiu desde então a natureza humana, tornando-a ignorante, voltada para o sofrimento, inclinada ao pecado e destinada à morte.

SITRA ACHRA
A doutrina judaica, especialmente o Talmud, defende a ideia de que todo homem é dotado de livre arbítrio, o que o habilita a escolher corretamente o que é do Bem (vida consciente, Adão) e o que é do Mal (vida inconsciente, Eva), isto é, o que é do reino de Deus e o que é do reino de Satã. O reino de Satã, para o judaísmo, é o Sitra Achra (literalmente, o Outro Lado), nome aplicado de um modo geral a todas as forças demoníacas, situadas sempre à esquerda e abaixo, e governadas por Samael e Lilith. São os pecados dos homens que nutrem o SitraAchra, mantendo-o separado do reino de Deus, dividindo a
DERROTA DE SAMAEL
(JOHN MILTON, 1608-1674)
criação. Na Idade do Messias, esta divisão terá fim com a captura do próprio Samael pelo arcanjo Gabriel. Acorrentado, ele será entregue a Israel e expurgado de todas as forças maléficas que o constituem, transformando-se num agente do divino que iluminará a criação como um todo, eliminando-se a divisão entre os dois reinos. Apesar de tudo isto que a doutrina revela, o pecado de Adão e Eva, deixou a sua marca em todas as gerações que a eles se sucederam, segundo a doutrina judaica. 
À desobediência de Adão e Eva dá-se o nome de A Queda do Homem, caracterizada esta como a transição humana de um estado de inocência e de obediência a Deus para um estado de desobediência e de culpa. 

A  QUEDA  DO  HOMEM ( W. BLAKE , 1757 - 1827

Neste sentido Queda do Homem e Pecado Original são equivalentes. O Judaísmo e o Islamismo não aceitam a doutrina do pecado original como os católicos a definiram. Para ambos cada homem deve ser responsável pela sua própria salvação, não havendo necessidade da graça divina para isso. A graça, para os católicos, é obtida pela via sacramental, pela reconciliação (batismo) e pela penitência. 


PELÁGIO DA BRETANHA
No cristianismo, participando de um entendimento contrário,  o monge Pelágio da Bretanha (360-435), depois de intensos debates com Agostinho de Hipona, propôs uma doutrina, chamada de pelagianismo, segundo a qual todo homem é totalmente responsável pela sua salvação, não necessitando da graça divina para tanto. Para Pelágio, todo homem nascia moralmente neutro e seria capaz, por si mesmo, sem qualquer influência divina, de se salvar, desde que assim o desejasse e se empenhasse. Evidentemente, as teses de Pelágio foram rejeitadas pela Igreja católica e ele considerado herege. 

O Talmud (literalmente estudo, em hebraico), a obra mais importante da Torá oral, nos revela que desde a  expulsão de Adão e Eva, as forças satânicas do SitraAchra tomaram o lugar do princípio masculino diante de Deus. Só a Torá, afirmam os judeus, tem condições de livrar Israel do veneno da serpente. Desde então, a mulher e a serpente sempre foram responsabilizadas pelas três grande religiões patriarcais (judaísmo, cristianismo e islamismo) pela perda do paraíso. 

Em muitas outras tradições que não a judaico-cristã, a serpente, positivamente,  aparece ligada à vida, à imortalidade, ao renascimento e, por isso, obviamente,  ao mundo feminino, ao mundo das Grandes Mães. Nas tradições que a honraram, a serpente sempre teve também relação com a sabedoria, com o conhecimento e com a cura. Ela detém, como nenhum outro ser o faz, o conhecimento sobre a vida e a morte, um conhecimento que Eva tentou transmitir a Adão, o poder da vida subconsciente, que ele só alcançaria através do princípio feminino, isto é através dela. É neste sentido que pode ser retomada a etimologia que os antigos patriarcas judeus usaram para designar a serpente e, por extensão, a vida inconsciente, lugar de um conhecimento oculto que determina, em grande parte, a nossa vontade e a nossa economia orgânico-fisiológica. 



A astrologia judaica praticada ao tempo dos primeiros patriarcas já nos falava de uma relação entre o homem, as letras do alfabeto, os signos zodiacais e os meses do ano. Discorria ela sobre dias fastos e nefastos, sobre a influências planetárias negativas (mazal), conforme se pode perceber pelo estudo do Sefer Ietsira (Livro da Criação), que considera o homem um microcosmo. Considerada “ciência suprema” pelos cabalistas, a astrologia, a partir da Idade Média começou a ser repudiada e perseguida pela ortodoxia religiosa judaica. 

Entre os judeus que conhecem a astrologia,  Heshvan é o mês do signo de Escorpião, associado, no corpo humano, ao olfato. A tribo ligada ao signo é a de Manassé, filho mais velho de José e de Asenath, filha de um sacerdote egípcio. Ele é o ancestral da tribo do mesmo nome, instalada a oeste do rio Jordão e ao sul do lago de Genesaré. O acontecimento mais importante no mundo judaico, relacionado com este mês, é o do término da construção do templo de Salomão. O terceiro templo, conforme a Midrash (tradição oral), será construído também neste mês, no qual os judeus vêm o contraste entre a destruição e a queda, de um lado, e a construção e a estabilidade de outro. 

HAVDÁ  ( ZVI  MALNOVITZEN , 1945 )

Através do signo de Heshvan é feita a associação entre alma (neshmah), respiração, sopro, olfato e nariz. Ao fim do Shabat, dia do descanso obrigatório, que vai do anoitecer de sexta-feira ao sábado à noite, é realizada a cerimônia da Havdalá, a distinção consciente entre o que é sagrado e o que é profano. Durante esta cerimônia são usadas especiarias de odor agradável a fim de acentuar o caráter distintivo entre as duas fases que o Shabat caracteriza. É por essa razão que os judeus consideram o olfato como o mais espiritual dos sentidos, diretamente conectado com a intuição, que tem um caráter anímico, não racional. 

O signo de Heshvan, associado ao olfato, também tem ligação com o dilúvio de Noé como se menciona no Gênese, cap. VIII, v.21: E nisto percebeu o olfato do Senhor um suave cheiro, e disse: não amaldiçoarei mais a terra por causa dos homens: porque o sentido e o coração do homem estão inclinados para o mal desde a mocidade. Não tornarei pois a ferir vivente algum como fiz. O sentido do olfato, tão intimamente relacionado com a alma, está revelado pelo nome da tribo que rege o mês, pois neshmah, num arranjo diferente de suas letras, dá o nome heshvan.

O nariz, lembremos, sempre foi considerado um símbolo de perspicácia, de discernimento, muito mais intuitivo que racional, ocupando um lugar essencial no rosto das pessoas em geral e, em especial, dos escorpianos. Pode-se, por exemplo, ter olhos bonitos e ser feio. Já um belo nariz nunca aparecerá associado a um rosto disforme, dizem os fisiognomistas. Para eles, um nariz perfeito testemunha sempre uma certa nobreza de alma.  



O   DILÚVIO  ( MICHELANGELO , 1475 - 1562 )

O elemento deste signo é a água enquanto relacionada com o dilúvio (mabul) dos tempos de Noé, uma catástrofe que se distingue por seu caráter não definitivo, tendo o sentido de regeneração, de germinação. Antigas formas, que perderam sua capacidade de se renovar, gastas, esgotadas, esvaziadas de qualquer sentido transformador, são destruídas para dar lugar a outras. No caso, dar origem a uma outra humanidade, a uma nova época, sem as faltas morais e rituais da anterior. 

O astro que tem influência em Heshvan é o planeta Marte, onde atua com o principal sentido de julgamento severo. A destruição causada pelo dilúvio decorreu astrologicamente da ação de Marte, motivada pelo severo julgamento divino diante do mau uso que a humanidade fez do poder do desejo, enraizado no elemento água. Segundo a astrologia judaica, os nascidos sob influência de Heshvan têm uma extrema sensibilidade emocional, inclinações e tendências que os leva sempre a se fixar poderosamente como desejos, paixões, obsessões etc. Positivamente, uma pessoa com esta disposição pode demonstrar muita capacidade para alcançar valores e maneiras de sentir muito intensos, que, se bem orientados, podem levar a uma compreensão superior dos ensinamentos da Torá.

O mês de Heshvan se completa pelo seu oposto, Iyar, o segundo mês da primavera. Ao longo dos séculos, a história dos judeus conta que é neste mês, principalmente, que, tendo como causa a punição divina, devido a faltas e pecados cometidos, que se registram confiscos e destruição de suas propriedades e seus bens em vários países. Ainda pela astrologia, é possível, como sabemos, explicar toda a dialética presente no relacionamento entre árabes e judeus através do eixo Touro (Israel)-Escorpião(o mundo árabe). Para informações complementares quanto a este relacionamento sugiro a leitura do artigo  Correspondências taurinas (O touro e Israel), neste blog.  

ADÃO, EVA E A SERPENTE
(CORNELIS VAN HAARLEM
1562 - 1638)
Na tradição bíblica judaica, passada para a astrologia, a serpente (nachash) era o rei dos animais; astuciosa, caminhava ereta, tinha duas pernas, falava e se alimentava normalmente como os humanos. Ao ver como os anjos tratavam Adão e Eva, sentiu muita inveja. Este sentimento tomou proporções incontroláveis quando viu Adão e Eva mantendo relações sexuais. Pensou em tomar o lugar de Adão, totalmente obcecado pela ideia de manter relações com Eva. Inspirada por Satã ou Samael, a serpente persuadiu Eva a comer o fruto proibido, seduzindo-a. Foi por isso castigada por Deus, perdeu as pernas, foi condenada a se arrastar, seu alimento perdeu todo o sabor, tornando-se, por isso, a inimiga natural do ser humano, passando desde então a simbolizar o mal. 

Quando a serpente manteve relações sexuais com Eva no Jardim do Éden, sua peçonha, desde então, injetada nela, foi passada para toda a descendência do primeiro casal. A peçonha injetada em Eva provocou uma quebra, uma fissura, entre o humano e o divino. Só quando Moisés recebeu a Torá no monte Sinai e a passou para seu povo é que a peçonha foi removida de Israel. Certas tradições judaicas, como se disse, afirmam que Caim era, na verdade, filho de Eva e da serpente, apresentando seus descendentes, de modo muito evidente, algumas das perversas características do lado paterno. 

Estas ideias dos judeus sobre a serpente confirmam tradições que fazem dela um dos mais antigos símbolos fálicos conhecidos. Os cananeus, povos que habitavam o país de Canaan, na idade do bronze, desde o terceiro milênio aC., tinham cultos ligados à fertilidade da terra, praticados em lugares elevados, de natureza orgiástica, nos quais as serpentes ocupavam uma posição de destaque. Tais cultos sempre mereceram dos profetas bíblicos a mais veemente reprovação. 


A  SANTA   CEIA  ( LEONARDO  DA  VINCI , 1452 - 1519 )

No mundo cristão, o signo de Escorpião aparece ligado a Judas Escariotes, um dos doze discípulos de Cristo. Ele é o "homem de Kerioth", cidade perto de Hebron, tesoureiro do grupo. Como diz a tradição, com um beijo hipócrita, Judas identificou Cristo, entregando-o aos soldados romanos. Figura essencial na paixão de Cristo, Judas recebeu trinta moedas de prata por esse serviço. Quem o fixou para nós os doze apóstolos como representantes dos doze signos zodiacais foi Leonardo da Vinci, no afresco que pintou numa das paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, no final do século XV. Esse afresco é conhecido pelo nome de A Santa Ceia ou A Última Ceia. Para pintá-lo, Leonardo valeu-se, segundo consta, das concepções astrológicas de Claudio Ptolomeu. Com Cristo ocupando a posição central da figura, distribuiu Leonardo os doze apóstolos em dois grupos de seis, subdivididos em grupos de três. Quem olha de frente a figura pode identificar, assim, a partir da direita, a primavera (Simão-Áries, Judas Tadeu-Touro e Mateus-Gêmeos) e o verão (Felipe-Câncer, Tiago-Leão e Tomé-Virgem). Na sequência, depois de Cristo, temos o outono (João-Libra, Judas Escariotes-Escorpião e Pedro-Sagitário) e o inverno (André-Capricórnio, Tiago Menor-Aquário e Bartolomeu-Peixes).    


A constelação de Escorpião estende-se hoje de 23º Scorpio a 26º Sagitário, sendo Antares, alfa, a 9º 04´ de Sagitário, sua principal estrela, de natureza marciana, com alguma participação saturnina. As demais, por ordem de importância, são Graffias e Dschuba, desprezíveis astrologicamente. Há na constelação uma nebulosa, com duas estrelas visíveis, Acumen e Aculeus, também chamadas, respectivamente, de Shuala e Lesath. A primeira está a 28º 03´ e a segunda a 25º 02´, ambas em Sagitário. 

Antares, na antiguidade, era conhecida tanto como astro semelhante ou como rival de Marte, principalmente por causa de sua cor. Os latinos a chamavam de Cor Scorpii. Antares é, como sabemos, uma das quatro estrelas reais da astrologia persa, conhecida como a Guardiã do Oeste, identificada como Yima, o deus persa da morte. O oeste, o ocidente, é em todas as tradições o lugar do fim,  região do poente, o começo da viagem que as almas fazem depois da morte. Esta estrela inclina a extremos, consciente ou inconscientemente. Pode trazer sucesso, honras, mas há riscos de catástrofes, de perdas totais, tudo dependendo da posição e das relações que a estrela mantiver no mapa (vide o mapa de Gandhi). 

PTOLOMEU
Ptolomeu viu na nebulosa de Escorpião influências de Marte e da Lua. De um modo geral, como sabemos, nebulosas são tradicionalmente ligadas à cegueira, literal ou metaforicamente. Estas duas estrelas são conhecidas como o “Anzol”, uma relacionada com a luz e outra com as trevas. Acumen é o lado escuro, sugerindo perturbações, obliterações físicas ou mentais, que podem causar danos à saúde (vide mapas de Van Gogh ou Marilyn Monroe). Aculeus também sujeita a problemas, obstruções de energia, de natureza menos intensa, mais suportáveis (vide mapa Eduardo VIII). De um modo geral, estas duas estrelas sempre produzem alguma forma de ataque (físico, verbal etc.) semelhante a uma ferroada do escorpião.